A indústria nacional progride
Por Marcelo Copello
Esta semana vou me repetir, intencionalmente e provocativamente. “O vinho brasileiro melhora a cada ano” é meu refrão desde que comecei esta coluna em 2001.
Desde então faço anualmente uma degustação dos principais vinhos nacionais, como uma revisão de como anda o vinho brasileiro. O resultado é sempre positivo. Sempre noto melhoras. Mas é bom que fique claro que no universo de Baco as melhoras são sempre lentas. A estrada é de quilômetros e percorre-se um milímetro a cada safra, a cada ano. Assim, gradualmente e consistentemente, a indústria nacional progride.
Temos hoje mais de 1 mil vinícolas. A produção nacional de vinhos envolve 20 mil famílias em todo o Brasil (5 mil só em Bento Gonçalves) e gera 300 mil empregos (sendo 160 mil no Rio Grande do Sul). Compro a briga ao dizer que quem afirma que não há vinho brasileiro de qualidade o faz por ignorância ou preconceito. Do mesmo modo que quem garante que já fazemos grandes vinhos, certamente desconhece o que é isso ou têm interesses.
Provei para esta matéria 33 tintos (abordarei brancos, espumantes etc, em outras oportunidades). A prova foi às cegas, divida em 5 categorias: “Merlot”, “Tannat”, “Outras Castas” (publicados esta semana). Os “Cabernet Sauvignon” e “Cortes” sairão na semana que vem. Boa degustação:
MERLOT
É quase um consenso entre enólogos brasileiros (incluindo consultores de fora como Michel Rolland) que a Merlot é a rainha das casta na Serra Gaúcha. É a uva que melhor amadurece, proporcionando os taninos mais finos e os vinhos mais elegantes e completos. Tal realidade fica claramente constatada na taça. Nesta categoria sobressaem ao menos 4 vinhos que irão figurar em qualquer lista dos melhores tintos nacionais: O Storia Merlot, da Casa Valduga, é um dos melhores vinhos feitos no Brasil até agora e o Merlot Reserva, da Pizzato, já um clássico, o Desejo Merlot da Salton e o Merlot Terroir da Miolo, dois vinhos que mostram consistência a cada nova safra.
Storia Merlot 2005, Casa Valduga, Bento Gonçalves-RS (tel.: 21 2512-0779, R$ 80). Passa 1 ano em barricas francesas novas. Vermelho rubi muito escuro com reflexos violáceos. Aroma intenso com madeira na frente, baunilha, coco queimado, tostados, frutas negras maduras, muitas especiarias, chocolate amargo, bom frescor. Paladar concentrado, tostados aparecem na boca, taninos presentes, boa acidez, 14,5% de álcool, longo. Conjunto muito bem integrado, equilibrado fino e encorpado. Melhor Merlot brasileiro e melhor tinto da casa Valduga. Nota 88 pontos
Merlot Reserva 2005, Pizzato, Vale dos Vinhedos-RS (tel.: 54 3459-1155, R$ 40). Vermelho rubi escuro com reflexos violáceos. Mais fino no nariz, embora um pouco fechado, fruta negra mais limpa, menos concentrada. Paladar bom corpo (sem grande concentração), taninos secos e finos, boa acidez, 13% de álcool, longo. Equilíbrio e elegância, estilo mais velho mundo. O Merlot mais elegante do Brasil. Nota 87 pontos
Desejo Merlot 2006, Salton, Tuiuty-RS (tel.: 11 2959-3144, R$ 75). Vermelho rubi escuro com reflexos violáceos. Aroma intenso bem integrado de frutas negras doces (cassis, ameixa) e madeira bem presente, com baunilha, tosdados, especiarias (alcaçuz, anis). Paladar de médio-bom corpo, taninos finos, doces, acidez equilibrada, 13% de álcool, final longo e com toque de doçura. O Desejo é muito bem elaborado e consistente, sempre um bom a cada safra. Nota 86 pontos
Merlot Terroir 2008, Miolo, Vale dos Vinhedos-RS (tel.:0800 9704165, R$ 70). Vermelho rubi escuro com reflexos violáceos. Aroma bem amalgamado de fruta madura e madeira, álcool aparece um pouco no nariz, chocolate, baunilha, tosados, toque lácteo, toque vegetal. Paladar encorpado, taninos doces, ainda bem presentes, 14% de álcool, acidez muito boa, longo. Ainda jovem precisa de tempo de garrafa para se integrar. Nota 86 pontos
Merlot 2007, Villaggio Grando, Água Doce-SC (tel.: 49 3563-1188, R$ 55). Amadurece 7 meses em barricas de carvalho. Vermelho rubi escuro com reflexos granada. Aroma intenso, fruta doces, especiarias doce, alcaçuz, toque vegetal, cacau amargo. Paladar de bom corpo, taninos finos, prontos, 13,9% de álcool, média persistência. Agradável, meio pesado. Nota 83 pontos
Terragnolo Reserva Merlot 2005, Vale dos Vinhedos-RS (tel.: 54 3453-1103, R$ 48). Amadurece oito meses em inox com chips de carvalho. Vermelho granada com reflexos na transição violáceos-alaranjados. Aroma de fruta bem madura, um pouco cozida, toque vegetal herbáceo, especiarias doces, madeira. Paladar de médio corpo, 13,5% de álcool, taninos doces, resolvidos, falta um pouco de meio de boca e um pouco de persistência, já dando sinais de decadência na cor e na persistência. Nota 79 pontos
TANNAT
Não é novidade que a casta Tannat se adaptou bem em solo brasileiro. Nesta categoria destaco dois vinhos. O Tannat Grande Vindima da Lidio Carraro é uma espécie de hours concours, pois é quase um passito, como um Amarone, com 16,2% de álcool, e que provocará reações opostas, como paixão ou rejeição. O Tannat Reserva Especial da Cordilheira de Sant´Ana é outro que merece destaque. Provado ano passado e agora, mostra consistência e boa evolução, seguindo sua trajetória de qualidade.
Tannat Grande Vindima 2005, Lidio Carraro, Encruzilhada do Sul-RS (tel.: 54 3459-1222, R$ 170). Elaborado com uvas 100% Tannat amadurecidas até quase virar passas no próprio pé, sem passagem por madeira. Vermelho rubi escuro com reflexos violáceos. Aroma de bom ataque, intenso e vincado, precisa de tempo no decanter para se mostrar, com álcool aparecendo um pouco, com geléias, alcaçuz, toffe, toque de picante de especiarias. Paladar muito concentrado, taninos volumosos doces e ainda bem presentes, acidez correta, indiscretos 16,2% de álcool. Provado há um ano, está agora mais aberto e expressivo. Chama atenção pela grande concentração. Nota 87 pontos
Tannat Reserva Especial 2004, Cordilheira de Sant´Ana, Sant´Ana do Livramento-RS (tel.: 55 9973-2620, R$ R$ 64). 85% Tannat, 10% de Cabernet Sauvignon e 5% de Merlot, amadurecido 85% em carvalho por 18 meses. Rubi muito escuro com reflexos violáceos. Aroma intenso e fino, com madeira americana na frente, muita baunilha, coco queimado, geléia de amora, especiarias, tostados. Paladar encorpado, taninos volumosos e nervosos, boa acidez, 13,8% de álcool, bastante longo. Belo vinho, estrutura e personalidade, apenas poderia ter menos madeira. Evoluiu bem e está melhor do que quando provado um ano atrás. Nota 87 pontos
Decima Gemina GR Tannat 2005, Piagentini, Caxias do Sul-RS (tel.: 11 2106-1500). Rubi muito escuro com reflexos violáceos. Aroma intenso com madeira na frente, muita baunilha, coco, tostados, passas. Paladar encorpado, taninos presentes, secos, algo rústicos, 13,9% de álcool, persistência média. Bom conjunto, muito bem no nariz, onde a madeira dá o tom, entra bem na boca, mas cai um pouco no final. Um dos melhores vinhos da empresa. Nota 84 pontos
Dal Pizzol Tannat 2006, Bento Gonçalves-RS (tel.: 54 3449-2255, R$ 30). Rubi muito escuro com reflexos violáceos. Aroma intenso com toque animal de carne típico da casta, fruta negra, toque herbáceo, o álcool aparece um pouco no nariz. Paladar volumoso, taninos presentes, secos, toque de rusticidade, 13% de álcool, boa acidez, boa persistência. Belo Tannat com tipicidade, um dos melhores vinhos deste produtor. Nota 82 pontos
OUTRAS CASTAS
Como casta a Teroldego me agrada muito. Sou fã dos vinhos desta uva, do Trentino-Itália. Os Teroldegos foram bem na prova, mas foram superados pelos Ancellota, uma casta que até hoje nunca havia me encantado. O Gran Reserva Ancellotta da Don Guerino e o Milantino Ancellotta são dois achados, duas belíssimas compras, em estilo clássico, sério, com elegância e estrutura.
Gran Reserva Ancellotta 2007, Don Guerino, Serra Gaucha-RS (tel.: 54 3284-1387, R$ 59). Amadurecido 14 meses em barricas francesas. Rubi muito escuro com reflexos violáceos. Aroma fechado (precisou de 1 hora no decanter para se mostrar), mostrou frutas negras, limpas, elegantes, tostados, alcaçuz, baunilha. Paladar de bom corpo, taninos finos, secos, sérios, acidez presente, 13% de álcool, boa persistência. Estilo sério e com boa elegância, algo (que era) raro em vinhos nacionais. Ainda jovem, com potencial de guarda. Nota 87 Pontos
Milantino Ancellotta 2005, Vale dos Vinhedos-Brasil-RS (tel.: 54 3459-1331, R$ 35). Rubi muito escuro com reflexos violáceos. Aroma fechado, compacto, fino, com tostados, fruta negra doce. Paladar encorpado, taninos presentes, finos, secos, bom volume de boca, boa acidez, 13,2% de álcool. Personalidade com boa elegância. Muito bom. Nota 87 Pontos
Milantino Teroldego 2006, Vale dos Vinhedos, Brasil-RS (tel.: 54 3459-1331, R$ 35). Rubi escuro (mas não muito) com reflexos violáceos. Bom ataque no nariz, frutas negras maduras, toque de doçura geléia, passas, álcool aparece um pouco, toque de especiarias doces, alcaçuz, anis. Paladar de bom corpo, taninos finos ente doces e secos, na boca aparece algo de tostado/queimado, boa acidez, 12,9% de álcool, persistência cai um pouco no fim. Bom vinho, só falta um pouco de finesse e equilíbrio para galgar melhor portuação. Nota 84 Pontos
Dal Pizzol Pinot Noir 2009, Bento Gonçalves-RS (tel.: 54 3449-2255, R$ 25). Rubi violáceo entre claro e escuro. Toque de sulfuroso aparece no nariz no início, fruta madura, framboesa, amora, bom frescor, toque lácteo. Paladar de médio corpo, taninos doces, boa acidez, 12% de álcool, final doce de média persistência. Nota 80 Pontos
Laurentia Montepulciano 2005, Barra do Ribeiro-RS (tel.: 51 8151-6848, R$ 40). Rubi entre claro e escuro. Aroma intenso, doce, de baunilha, quase um crème brûlée, com côco queimado, mostra pouco mais que isso. Na boca tem médio corpo, falta meio de boca, taninos doces, acidez boa, 13% de álcool, persistência cai no final. Nota 77 Pontos
Marcelo Copello (mcopello@mardevinho.com.br)
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