A versatilidade das vinhas sul-africanas

Em nossa cultura historicamente europeizada e americanizada, a imagem da África sempre foi associada a um certo exotismo selvagem. No mundo do vinho, no entanto, é diferente. Se por um lado a palavra “África” nos remete à safáris e tribos em guerra, para os amantes do bom vinho a associação é com produtos de tradição e qualidade. Estive recentemente na África do Sul visitando vinícolas e provando dezenas de vinhos, entre eles o “vinho da Copa”.
Ao inaugurarem, em 1659, a produção de vinhos na África do Sul, imigrantes holandeses tornaram o país no primeiro produtor desta bebida no dito Novo Mundo. O lendário vinho sul-africano, Vin de Constance, por exemplo, um branco doce à base de uvas Muscat, já no século XVIII tinha admiradores em todo o mundo. Continuando o relato iniciado semana passada, falo de viagem a esta exuberante nação.
Terroir
As condições gerais são bastante favoráveis a vinha. Ausência de pragas, muitos vinhedos irrigados (sem controle de rendimento máximo) e clima ameno. A corrente de Benguela, vinda da Antártida, torna o clima mais moderado do que a latitude sugere, mais para mediterrâneo do que para tropical. O carvalho novo é amplamente usado: francês, americano, esloveno e húngaro. Os tipos de solos são os mais variados. Só em Stellenbosch (a região mais importante) existem mais de 50 tipos de terrenos, o que proporciona uma boa gama de vinhos.
Uvas
Quanto às uvas cultivadas, a campeã (de quantidade, não de qualidade), é a Chenin Blanc, chamada localmente de Steen, que atualmente ocupa 19% dos vinhedos do país (em 1990 ocupava 32%). Entre as brancas Chardonnay e Sauvignon Blanc também marcam presença, com 9% e 8% dos vinhedos respectivamente. Ainda nas brancas a Semillon sul-africana merece atenção, apesar de ser pouco plantada tem um potencial excepcional.
Nas tintas de longe a mais plantada (13%) e mais importante para os vinhos de alta gama é a Cabernet Sauvignon, que muitas vezes aparece em excelentes cortes bordaleses (com Merlot, Cabernet Franc, Petit Verdot e Malbec). A grande uva em ascensão é a Syrah, que em 1990 cobria apenas 1% dos vinhedos e que hora se estende por 10% da área plantada, gerando ótimos caldos.
Pinotage
A uva símbolo do país é a tinta Pinotage, criada pelo professor Abraham Perold em 1925, através de um cruzamento da Pinot Noir com a Cinsaut. Em 1959 o primeiro vinho trazendo em seu rótulo o nome “Pinotage” foi comercializado e em 1995 foi criada a “Pinotage Association” unindo produtores locais de vinhos desta uva. Os Pinotage possuem uma característica nota doce no aroma e no paladar, normalmente descrita como verniz. É versátil e dependendo do tratamento produzirá desde líquidos leves, até os mais encorpados, para estágio em carvalho e garrafa.

Wine of Origin
Para comprar vinho deste país, leia no rótulo “Wine of Origin”, acrescido do nome da região. São cerca de 70 denominações reconhecidas, nos níveis “region”, “district”, “ward” e “estate”. Algumas das bem cotadas são: Stellenbosh, Paal, Tullbagh, Swartland, Constantia, Durbanville, Robertson, Klein Karoo, Olifants River, Orange River, Walker Bay e Worcerter. Aproximadamente 75 tipos de castas (uvas) são autorizadas para produção de vinho W.O. e o nome da casta pode contar no rótulo desde que 75% (85% desde 2006) do vinho seja desta casta.
Vinícola Visitada – Plesir de Merle
Localizada no Franschhoek Valley, em Paarl, a fazenda Pleisir de Merle existe desde 1687, fundada pelo francês huguenote Charles Marais. Com 974 hectares de área total esta é uma das maiores propriedades vinícolas da região. Até 1993 o local apenas fornecia uvas para a Nederburg, mas desde então tem sua produção própria, de alta qualidade. O enólogo chefe Neil Bester conta com a consultoria de um nome importante, Paul Pontalier, do Château Margaux, onde Bester trabalhou até assumir a Pleisir de Merle em 1993. Provei toda a linha, que se mostrou o melhor conjunto de vinhos provados na visita ao país, de estilo elegante e equilibrado. Vejamos os destaques:
Cabernet Sauvignon 2005, Plaisir de Merle, Paarl-África do Sul (Casa Flora, tel.: 11 2842-5199, R$ 107). Amadurece 16 meses em barricas francesas. Vermelho granada entre claro e escuro. Aroma intenso de ameixas, amoras, tostados, couro, especiarias, baunilha, chocolate amargo. Paladar de bom corpo, taninos finos, boa acidez, 14,6% de álcool, elegante e equilibrado, longo. 87/100
Shiraz 2006, Plaisir de Merle, Paarl-África do Sul (Casa Flora, tel.: 11 2842-5199, R$ 107). Amadurece 16 meses em barricas 50% francesas e 50% americanas. Vermelho rubi entre claro e escuro com reflexos violáceos. Aroma intenso com muita tipicidade da Shiraz, com fruta doce e com toque de frescor mentolado, geléias, madeira, especiarias, pimenta do reino, chocolate. Paladar estruturado, taninos finos, boa acidez, 14,6% de álcool, longo. 88/100
Gran Plaisir 2005, Plaisir de Merle, Paarl-África do Sul (Casa Flora, tel.: 11 2842-5199, R$ 131). Elaborado com 40% Cabernet Sauvignon, 6% Merlot, 6% Malbec, 15% Shiraz, 15% Cabernet Franc, 18% Petit Verdot. Amadurece 16 meses em barricas francesas. Vermelho rubi entre claro e escuro com reflexos granada. Aroma elegante e complexo, com fruta limpa e bem definida, frescor de ervas, especiarias, chocolate, baunilha. Paladar de médio-bom corpo, taninos finos, macios, conjunto elegante e equilibrado, longo. Excelente vinho, em estilo clássico, deve evoluir por mais 5 ou 7 anos. 91/100

Biography Shiraz 2005, RAKA, Walker Bay-África do Sul (Decanter, tel.: 3969-4949, R$ 153,50). Shiraz 100% amadurecido 14 meses em carvalho francês 30% novo. Vermelho rubi escuro com reflexos violáceos. Aroma intenso com toques animais de carne e couro que se foram depois de alguns minutos na taça, verniz, frutas ultra maduras, geléias, especiarias, pimenta, baunilha, madeira, tostados. Paladar de bom corpo, taninos doces, 14,5% de álcool, acidez moderada, equilíbrio pendendo para a maciez, longo, final com toque de doçura. 87/100
Quinary 2003, RAKA, Overberg-África do Sul (Decanter, tel.: 3969-4949, R$ 120,80). Elaborado com 62% Cabernet Sauvignon, 20% Merlot, 12% Cabernet Franc, 3% Malbec e 3% Petit Verdot. Amadurece 12 meses em barricas francesas 30% novas. Vermelho rubi muito escuro com reflexos granada. Aroma intenso de frutas negras ultra madura, amoras, cerejas, cassis, muitas especiarias, alcaçuz, tostados, tabaco, toque mineral de asfalto e grafite. Paladar denso, concentrado, taninos doces, macio com 14% de álcool, acidez moderada, longo. 89/100
Grand Classique 2004, Glen Carlou, Paarl-África do Sul (Grand Cru, tel.: 11 3062-6388, R$ 88). Elaborado com 45% Cabernet Sauvignon, 35% Merlot, 10% Malbec, 7% Cabernet Franc e 3% Petit Verdot, amadurecido 2 anos em barricas de primeiro e segundo uso. Vermelho granada escuro. Aroma intenso, com fruta madura bem amalgamada com madeira e muitas especiarias, cravo, canela, baunilha, couro novo, vegetal de musgo e toque lácteo. Paladar de bom corpo, taninos finos com toque de madeira, acidez moderada, macio, com 14,5% de álcool que aparecem, longo. Bom corte bordalês. 87/100
Vergelegen 2002, Vergelegen, Stellenbosch-África do Sul (Expand, tel.: 11 3847-4700, R$ 215). Elaborado com 46% Cabernet Sauvignon, 29% Merlot e 25% Cabernet Franc, amadurecido 19 meses em barricas francesas. Vermelho granada entre claro e escuro com reflexos alaranjados. Aroma intenso e complexo, já com toques etéreos, couro, tabaco, madeiras (cedro, sândalo), especiarias, frutas maduras, cassis, pimenta do reino, toque herbáceo típico da Cabernets Sauvignon. Paladar de bom corpo, taninos finos, boa acidez, muito equilibrado e elegante, longo e com boa profundidade de sabores. Excelente corte bordalês, em seu auge.90/100
Paul Sauer 2004, Kanonkop, Stellenbosch-África do Sul (Mistral, tel.: 11 3372-3400, US$ 69,50). Cabernet Sauvignon 70%, Cabernet Franc 15% e Merlot 15%, madurece 25 meses em carricas francesas. Vermelho entre rubi e granada entre claro e escuro. Aroma intenso e complexo, com presença marcante e positiva da madeira, com muitas especiarias, toque picante de pimenta do reino, baunilha, tostados, frutas negras maduras, cassis, ameixa seca, fundo mineral que lembra um bom Bordeaux. Paladar de bom corpo, taninos finos, secos, boa acidez, 14% de álcool, longo. Belíssimo corte bordalês, em estilo clássico, elegante e complexo, aberto e expressivo, mas ainda deve evoluir em garrafa até seu 10º ano. 92/100
Engelbrecht Els Proprietors Blend 2006, Ernie Els Wines, Stellenbosch-África do Sul (Vinci, tel.: 11 2797-0000, US$ 65,50). Cabernet Sauvignon 60%, Shiraz 20%, Petit Verdot 5%, Cabernet Franc 5%, Merlot % e Malbec 5%, amadurece 16-18 meses em barricas 80% novas de carvalho francês e americano. Vermelho rubi escuro com reflexos violáceos. Aroma intenso com fruta doce na frente, geléia de cassis e amoras, madeira, tostados, muitas especiarias, baunilha, alcaçuz, tabaco, menta, violetas, toque lácteo e fundo mineral de terra molhada. Paladar estruturado, com ótima concentração de fruta, taninos doces e finos ainda presentes, 15% de álcool, boa acidez, longo. Estilo moderno, imponente, impressiona muito bem, ainda jovem, deve evoluir bastante. 90/100
Stellenzicht Syrah 2000, Stellenzicht, Stellenbosch-África do Sul (World Wine, tel.: 11 3383- 7477, R$ 183). Amadurece por 19 meses em barricas 77% francesas, 18% americanas e 5% húngaras. Vermelho granada escuro com os primeiros reflexos alaranjados. Nariz complexo, com toques de evolução, couro, especiarias, pimenta, frutas secas. Paladar de bom corpo, 13,5% de álcool, taninos finos equilibrado e elegante. Um vinho de classe, em estilo mais velho mundo. 89/100
Crème de Tête 2003, Signal Hill, Paarl-África do Sul (World Wine, tel.: 11 3383- 7477, R$ 139). Elaborado com uvas Moscatel de Alexenadria atacadas pelo fungo botrytis e colhidas tardiamente. Amarelo dourado e brilhante. Aroma muito intenso, com mel, frutas cristalizadas, rosas, casca de laranja, toque etéreo típico dado pelo fungo botrytis. Paladar concentrado, bastante doce, untuoso, quase oleoso, com apenas 10,5% de álcool, equilibrado e elegante. Excelente. 92/100
Marcelo Copello (mcopello@mardevinho.com.br)










