África do Sul, Novo ou Velho Mundo?

Natureza exuberante, rica diversidade cultural e de terrois, vinhedos banhados pelo sol e refrescados pelo vento frio de dois oceanos e a mais antiga tradição na produção de vinhos no dito Novo Mundo. Acertou quem pensou em África do Sul, que se prepara para receber ano que vem a Copa do Mundo de futebol, um projeto que não deixou de fora os vinhos.
A África do Sul, sua tradição e sua recente transformação e consolidação como um importante player no mercado mundial de vinhos é o tema de hoje e de semana que vem, resultado de uma recente viagem que fiz a este fascinante país.
Histórico
O holandês Jan van Riebeeck, governador do Cabo, lá implantou vinhedos em 1655 e em 2 de fevereiro de 1659 o primeiro vinho do Novo Mundo foi produzido. O lendário vinho sul-africano, Vin de Constance, por exemplo, um branco doce à base de uvas Muscat, já no século XVIII tinha admiradores em todo o mundo.
A produção e exportação, contudo, só tomou impulso a partir de 1805, quando os ingleses tomaram a Cidade do Cabo. Estes, grande consumidores, mas não produtores, passaram a importar vinhos sul-africanos em substituição aos da França Napoleônica, então em guerra com o Império Britânico.
A produção do país era de vinhos e destilados de baixa qualidade e só ganharia qualidade na década de 1970, depois dos EUA e da Austrália. Em 1972 foi elaborada e em 1973 implementada a lei de “Wine of Origin” (vinho de origem), copiada da Europa. Mas a verdadeira entrada no mercado só aconteceu após o fim da política do Apartheid, em 1992, quando voltaram a participar do comércio mundial.
Cultura
A República da África do Sul é o país mais meridional do continente africano, com extenso litoral (2 798 km), banhado pelo Atlântico e pelo Índico. O mesmo vento frio que provocou o naufrágio de muitos navios no outrora “Cabo das Tormentas” e depois “Cabo da Boa Esperança” é a “brisa” que refresca os vinhedos do país.
A diversidade cultural, linguística e religiosa so país é única. São 11 línguas oficiais, que incluem africaner (derivado do holandês), inglês, zulu, xhosa e outros idiomas bantu. Os negros são 80% da população mas só tiveram representação política com o fim da do sistema de segregação racial (apartheid) e a primeira eleição democrática em 1994, que levou ao poder o líder negro Nelson Mandela.
A diversidade cultural é refletida na culinária, nas artes e, o que mais nos interessa, nos vinhos.
Produção
Depois que entrou em sua fase democrática as exportações de vinho do país cresceram 335% (entre 1995 e 2007). Hoje, a África do Sul é o 9º produtor mundial, com cerca de 750 milhões de litros. Hoje há no país cerca de 4 mil viticultores e 600 produtores/engarrafadores de vinho, com 102 mil hectares de vinhedos. As exportações ultrapassam 190 milhes de litros e destinam-se em cerca de 60% aos 3 países europeus que historicamente mais influenciam a cultura sul-africana: Inglaterra, Alemanha e Holanda. O consumo interno, no entanto, vem caindo nas últimas décadas e, atualmente, é de apenas cerca de nove litros por habitante, o que têm motivado os produtores do país a exportar cada vez mais. A África do Sul exporta não só vinhos, mas também mudas. Muitos dos vinhos brasileiros são feitos com mudas de lá.
Vinícolas visitadas – Nederburg
Fundada em 1791 em Paarl, por Philippus Wolvaart, a Nederburg é uma referência histórica em enologia no país. Em 1937 foi comprada por Johann Georg Graue, ingrante alemão de uma família de produtores de cerveja, que com seu filho Arnold introduziu a fermentação a frio no país. Após a morte de Arnold em um trágico acidente aéreo em 1956, o enólogo assistente, também alemão Günter Brözel, assumiu a empresa. Brözel tornou-se uma grande influência na produção de vinhos de qualidade em todo o país e introduziu uma série de inovações, como a elaboração de vinhos botrytizados. Desde 2001 esta camisa de peso é vestida pelo romeno Rasvan Macici, que comanda a equipe técnica da casa. Os vinhos da Nederburg são considerados “sempre uma compra garantida”, por sua qualidade consistente e credibilidade conquistada ao longo de mais de dois séculos de história. A Nederburg é o produtor oficial dos vinhos da Copa do Mundo de 2010. A linha “Fifa Limited Edition” é composta por tinto e um rose, ambos Cabernet Sauvignon e um branco Sauvignon Blanc. Provei 10 vinhos no local, vejamos os destaques:
Manor House Sauvignon Blanc 2008, Nederburg, Paarl-África do Sul (Casa Flora, tel.: 11 2842-5199, R$ 62). Cor verdeal brilhante. Muito intenso e fresco no nariz, lembrando frutas tropicais, maracujá, groselha branca, pêssego. Paladar de mpedio corpo, cremoso, com boa acidez, boa persistência. Delicioso, com ótima tipicidade. 88/100
Fifa Limited Edition Cabernet Sauvignon 2007, Nederburg, Paarl-África do Sul (Casa Flora, tel.: 11 2842-5199, cerca de R$ 40). Vermelho rubi escuro violáceo. Nariz limpo, focado nas frutas bem casadas com madeira, toque herbáceo. Paladar de médio-bom corpo, com taninos ainda nervosos, boa acidez, longo, final com toque herbáceo. 84/100.
Winemakers Reserve Noble Late Harvest 2008, Nederburg, Paarl-África do Sul (Casa Flora, tel.: 11 2842-5199, R$ 56). Elaborado com 80% Chenin Blanc e o restante com Riesling, Sémillon e Muscat. Amarelo dourado com reflexos âmbar, brilhante. Aroma intenso de mel, laranja, pêssego, especiarias, baunilha, geléia de damasco e o típico toque envernizado dado pelo fungo botrytis. Paladar bastante doce, elegante e equilibrado. Muito fino e longo, com fim de boca que lembra mel. 93/100
Fleur Du Cap
Visitei o Die Bergkelder Wine Centre, em Stellenbosch, centro de vinificação e show room da Distell. Lá 17 mil toneladas de uvas são processadas todos os anos. O complexo, construído em 1968, é equipado para receber turistas e oferece loja, museu do vinho, degustações e visitas guiadas. Aqui são produzidas todas as marcas de maior volume da empresa, incluindo o JC Le Roux, espumante mais vendido na África do Sul. A linha Fleur Du Cap, feita aqui, é a menina dos olhos dos enólogos deste centro, marca conhecida pela boa relação custo-benefício , especialmente a linha Unfiltered. Fui recebido pela enóloga responsável pela marca Fleur Du Cap, Andrea Freeborough, e provamos toda a linha. Os destaque foram:
Unifiltered Sauvignon Blanc 2008, Fleur Du Cap, Stellenbosch-África do Sul (Casa Flora, tel.: 11 2842-5199, R$ 54). Branco papel com reflexos esverdeados. Nariz floral, com típicos aromas da casta de groselha branca, frutas cristalidadas. Paladar leve, com boa acidez, equilibrado e muito agradável. 84/100
Unifiltered Semillon 2008, Fleur Du Cap, Stellenbosch-África do Sul (Casa Flora, tel.: 11 2842-5199, R$ 54). Amarelo palha com reflexos esverdeados. Aroma intenso e fresco, de grama cortada, cítricos, limão, abacaxi. Paladar leve, macio, acidez correta, equilibrado e agradável. 83 /100
Unifiltered Merlot 2007, Fleur Du Cap, Stellenbosch-África do Sul (Casa Flora, tel.: 11 2842-5199, R$ 83). Amadurece 12 meses em carvalho francês. Vermelho rubi escuro com reflexos violáceos. Nariz intenso focado nas frutas maduras, chocolate, madeira, tudo bem casado. Paladar de médio corpo, taninos secos, boa acidez, longo. 84 /100
Unifiltered Cabernet Sauvignon 2007, Fleur Du Cap, Stellenbosch-África do Sul (Casa Flora, tel.: 11 2842-5199, R$ 83). Amadurece 12 meses em carvalho francês. Vermelho rubi escuro com reflexos violáceos. Intenso no nariz com boa fruta, madura, bem casada com a madeira, especiarias, baunilha, tostados. Paladar de bom corpo, taninos secos e finos, boa acidez, conjunto equilibrado, agradável e bem elaborado. O melhor vinho desta marca. 86/100
ALGUNS VINHOS PROVADOS AQUI
Platinum Pinotage 2005, Lyngrove, Stellenbosch-África do Sul (Wine Company, tel.: 41 3302-1300, R$ 126). Rubi escuro com reflexos violáceos. Aromas intensos focados em frutas muito maduras, geléias, verniz, tostados, coco queimado, especiarias, florais de violeta. Paladar de bom corpo, equilíbrio pendendo para a maciez, com 14% de álcool, taninos doces, aveludados, acidez moderada, longo e envolvente. 88/100
Reserve Shiraz/Pinotage 2005, Lyngrove, Stellenbosch-África do Sul (Wine Company, , tel.: 41 3302-1300, R$ 77). Elaborado com Shiraz 80% e Pinotage 20%. Vermelho rubi escuro com reflexos granada. Aroma intenso, com presença de frutas secas, madeira, tostados, toque defumado, pimenta do reino, musgo, tabaco. Paladar de médio bom corpo, com equilíbrio pendendo para a maciez dos 14,5% de álcool, acidez correta e taninos macios e doces, boa persistência. 85/100
Whole Berry Cabernet Sauvignon 2003, Springfield State, Robertson-África do Sul (Expand, tel.: 11 3847-4700, R$ 115). 100% Cabernet Sauvignon, amadurecido em barricas francesas de 1o e 2o uso. Vermelho rubi escuro com reflexos violáceos. Aroma focado nas frutas, com herbáceo típico da casta, ervas frescas, madeira discreta e bem integrada. Paladar de médio-bom corpo, com taninos finos, macios e doces, 13,5% de álcool, acidez muito boa, dando elegância e equilíbrio conjunto. 87/100
Ashbourne 2004, Hamilton Russell, Walker Bay-África do Sul (Expand, tel.: 11 3847-4700, R$ 158). Elaborado com Pinotage. Vermelho rubi escuro, com reflexos violáceos. Aroma inicialmente fechado, depois de 1 hora no decanter abriu-se, mostrando um perfil sério, seco, com clara referência em Bordeaux, frutas maduras, madeira, especiarias, canela, noz moscada, fundo mineral. Paladar de bom corpo, seco, com taninos finos, sérios, ainda presentes, acidez muito boa, 14% de álcool, longo. Ainda jovem deve crescer em garrafa. Curiosidade – não traz no rótulo a palavra “Pinotage” e nem se parece com o estilo típico desta cepa, remetendo muito mais ao estilo bordalês. 90/100
Marcelo Copello (mcopello@mardevinho.com.br)





