Brasil, uma novidade para o mundo

 

(Entrevista com Adriano Miolo)

 

Por Marcelo Copello

A Miolo Wine Group segue firme na expansão de seus negócios e no aprimoramento da qualidade de seus vinhos. Nos dias 3 e 4 de julho passado visitei o chiquérrimo Hotel & Spa do Vinho Caudalie,  em Bento Gonçalves, para conhecer as novidades da empresa, apresentadas a quatro mãos pelo flying winemaker Michel Rolland e pelo enólogo chefe da empresa Adriano Miolo, com quem conversei com exclusividade para esta coluna.

A Miolo investiu nos últimos dez anos nada menos que R$ 120 milhões, em vários projetos. Hoje, a empresa não está presente apenas no Vale dos Vinhedos (sua primeira unidade), mas também no Pampa Gaúcho (Fortaleza do Seival Vineyards), Campos de Cima da Serra (parceria com o empresário Raul Anselmo Randon), Vale do Rio São Francisco (Fazenda Ouro Verde), Chile (joint-venture com a Via Wines), Espanha (parceria com a Osborne) e Argentina (Los Nevados, parceria com o enólogo César Augusto Borba de Azevedo). Além disso, os rótulos Miolo freqüentam mesas de restaurantes sofisticados em 22 países, como França, Inglaterra, Espanha, Alemanha, Estados Unidos, Holanda, Japão, Dubai e Canadá.

 Novidades

 O evento serviu para apresentação de muitas novidades da empresa, como o belíssimo complexo de enoturismo da Lovara (empresa do grupo), novos vinhos, como o RAR Collezione Pinot Noir 2008 (com boa tipicidade) e novas safras de produtos da empresa: RAR 2005, Lovara Chardonnay 2008, Lovara Merlot 2008, Lovara Cabernet 2008, Quinta do Seival Castas Portuguesas 2005, Terranova Reserve Shiraz 2008, Terranova Chenin Blanc 2008, Miolo Lote 43 2005, Miolo Merlot Terroir 2008. Estes dois últimos vinhos avaliei em duas colunas (semanas passada e retrasada), como parte de uma grande prova de vinhos brasileiros.

Também fez parte das atividades uma interessante aula do projeto Winemakers, em que Michel Rolland fez um blend de um vinho com a participação dos alunos e jornalistas.

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Sesmarias 2008

A grande novidade apresentada na ocasião foi o “Sesmarias 2008”, vinho que só chegará ao mercado em 2010, e ocupará o topo de gama dos vinhos da Miolo. O Sesmarias foi elaborado com “fermentação integral” (fermentação alcoólica realizada em barricas, com as cascas das uvas), técnica pouco comum e bem mais trabalhosa.

 O corte do Semarias é segredo. São seis variedades de uva, escolhidas dentre as melhores parcelas de colhidas na propriedade. Meu “chute” é que façam parte do corte: Cabernet Sauvignon, Merlot, Jaen, Tannat, Pinot Noir, Pinotage, Touriga Nacional, Tinta Roriz (Tempranillo), Alfroucheiro e Petit Verdot. O Amadurecimento é de 18 meses em barricas novas de carvalho francês.

Tive o privilégio de provar o Sesmarias 2008, um vinho rubi muito escuro com reflexos violáceos. Aroma de frutas negras doces, especiarias doces (baunilha, anis), violetas, chocolate, bastante madeira, toque lácteo, álcool aparece um pouco no nariz (ainda está “descasado”, o que é normal em vinhos muito jovens). Paladar estruturado, volumoso, taninos doces, madeira aparece bem na boca, acidez equilibrada, longo. Precisa de tempo para se mostrar, cedo para dar notas.

O Sesmarias chega ao mercado em 2010.mas já pode ser comprado “en Primeur”, como os grandes vinhos de Bordeaux. O preço gira em torno de 100 dólares.

 

 

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Michel Rolland e Adriano Miolo

 

Entrevista com Adriano Miolo

Marcelo Copello: A Miolo é certamente um exemplo de dinamismo entre as vinícolas nacionais. Desde 1990 a empresa cresceu rapidamente, abrindo muitas frentes (vários projetos), de forma bem estruturada, coisa rara em empresas familiares de qualquer ramo. Como foi a relação da família Miolo com este crescimento? Houve contratação de alguma consultoria específica voltada para empresas familiares ou o processo foi natural?

Adriano Miolo: Quando a Miolo iniciou na vinicultura, no começo da década de 90, o único desejo da família era elaborar vinhos finos de qualidade. A família já tinha bons vinhedos.  A 1ª iniciativa foi produzir um bom vinho fino tinto em um momento em que só se falava em vinho branco. Em seguida, veio toda a questão do cuidado com os processos de elaboração, especialmente o envelhecimento.  No final da década de 90, demos início à reconversão dos vinhedos para espaldeira. Nessa mesma época, começamos a perceber que era possível produzir bons vinhos com uvas cultivadas em outras regiões do Brasil além do Vale dos Vinhedos. A 1ª aposta foi a aquisição da Fazenda Ouro Verde no Nordeste em parceria com a Lovara. O 1º vinho elaborado pela Miolo fora de Bento Gonçalves foi um Shiraz. Essa busca por novas regiões prosseguiu. Em 2002, a família passa a ficar mais atenta à importância tomada pelo negócio do vinho. Nesse momento, passamos a buscar especialistas de áreas estratégicas para fazer um planejamento do negócio, projetos em cada região, captação de recursos para investimentos, agrônomos especializados em viticultura, executivos das áreas comercial e financeira e a associações com winemakers internacionais, que convergiu com a contratação do Michel Rolland no ano de 2003.

MC: As novidades atuais da Miolo não são poucas: novas safras de vários vinhos, novo visual do Seleção, complexo enoturístico da Lovara, projeto Winemakers etc. A novidade que mais chama atenção, contudo, é o Sesmarias, vinho que me deixou muito bem impressionado. Sabemos que, ao contrário de muitos enólogos brasileiros, você conhece bem vinhos de todo o mundo e uma vez me disse que gostava muito dos vinhos do Rhône (me corrija se eu estiver errado). Apenas como exercício e para aguçar a curiosidade dos leitores, você poderia falar um pouco do Sesmarias e comentar com que país/região você diria que este vinho tem afinidade em seu estilo?

AM: Gosto mesmo dos vinhos do Rhône e da Borgonha. O Sesmarias é resultado de um projeto minucioso da busca das variedades de uvas que mais se adaptaram no Projeto Fortaleza do Seival Vineyards, localizado na região da Campanha do RS. Testamos mais de 30 uvas para selecionar dez variedades tintas e dessas separamos pequenas parcelas para encontrar realmente as seis com melhor potencial de terroir da Campanha. Essas seis variedades não se repetirão necessariamente todo o ano. Podemos fazer modificações no corte do vinho de acordo com o resultado de cada safra. A idéia é encontrar o melhor potencial das melhores variedades para elaborar um vinho com os melhores resultados. Mas ainda é cedo dizer se o Sesmarias vai se parecer com vinhos de alguma região específica. Será possível fazer este tipo de afirmação daqui a uns cinco anos, quando teremos a evolução mais completa do vinhos. Mas posso afirmar que o critério de elaborar a bebida a partir da alquimia e mescla de variedades, também usado em Rhône, é semelhante.

MC : O Brasil como país goza em geral de uma imagem simpática em todo o mundo. Por outro lado quando pensam em Brasil pensam em futebol, samba e praia, não em vinho. A Miolo está investindo em exportação, colocando seu vinho em pontos importantes, como o Buddha Bar de Londres. Está sendo feito algum trabalho específico de imagem para o vinho brasileiro em outros países? Como o consumidor de outros países está vendo o vinho brasileiro?

 AM: Estamos fazendo um trabalho especifico da imagem do vinho brasileiro em outros países com apoio da Apex no qual se criou um consórcio com mais de 30 vinícolas denominado “Wines from Brazil”, que determina a participação nas principais feiras internacionais em centros consumidores importantes, como Londres, Nova Iorque, Tóquio e Paris. O projeto também prevê o Projeto Imagem, no qual jornalistas influentes de países consumidores importantes são convidados e conhecer os projetos do Brasil. O mercado internacional vê o vinho brasileiro como a grande novidade do novo mundo, percebendo a questão da diversidade de regiões, do espumante brasileiro. Em recente participação na Vinexpo, por exemplo, os jornais franceses destacaram a presença do vinho brasileiro.

MC: A Miolo está investindo, junto com a espanhola Osborne, na produção de brandy na Fazenda Ouro Verde, no Vale do São Francisco (BA). Com as futuras mudanças nos subsídios da União Européia à produção de uvas, este pode se tornar um grande negócio. Você pode nos explicar este processo e o que isso pode representar para o Brasil?

AM: Estamos pensando nisso e nos preparando para o futuro. Se a Europa reduzir ou perder os subsídios, não existirá região mais atrativa para produzir uvas para destilado como a do Vale do São Francisco. A região produz duas safras por ano, o que reduz ao menos pela metade o investimento em vinhedos. A escala de produção permite que se destile vinho praticamente todo o ano. Essa condição possibilita a redução da capacidade operacional da fábrica em seis vezes e praticamente elimina a necessidade de estocagem. A qualidade do vinho destilado também é favorecida, pois ao vinificar o ano inteiro, não existe a necessidade de uso do inimigo número 1 para os destilados, o SO2 (usado para conservar o vinho). Esse pode se tornar um grande negócio para o Brasil. Existe um mercado mundial enorme de destilados de vinho. Mas é importante destacar que é preciso fazer muita coisa, se adaptar à região.

MC: A impressão que tive ao conversar com Michel Rolland recentemente no lançamento do Sesmarias é que ele mudou (para melhor) o tom de voz em relação a primeira vez que o entrevistei no Brasil em 2003. Na época o grande enólogo estava (compreensivelmente) muito reticente ao falar dos vinhos que estava começando a fazer no Brasil, e hoje demonstra muito mais confiança e até entusiasmo no projeto.

 Depois destes anos de trabalho junto com Rolland você já deve ter algumas histórias para contar. Houve algo que tenha surpreendido Rolland aqui (na viticultura/enologia)? Qual foi a maior contribuição de Rolland aos vinhos da Miolo até agora? E o que você, como enólogo, pode dizer que aprendeu com o trabalho dele?

AM: Levamos dois anos para convencer Michel Roland, um enólogo com aquela reputação, vir trabalhar no Brasil. Ele não colocaria nome dele em jogo para começar a assessorar um projeto sem consistência. Rolland tem por filosofia elaborar produtos de alta qualidade. Sua incerteza e sua posição crítica em relação aos vinhos brasileiros eram compreensíveis no início. Hoje, passados seis anos, Rolland já afirma que se conseguiu fazer um grande vinho no Brasil, no caso o Sesmarias. Após ter mais contato com a nossa realidade e com os vinhos nacionais, reconhece a evolução do setor no País e que já se fazem bons vinhos brasileiros.

Quando falamos sobre os projetos da Miolo, Rolland confessa que não imaginava que eles sairiam do papel. Agora, ele já esteve em todos os nossos projetos e confessa que não imaginava em tão pouco tempo presenciar a evolução dos vinhos. Tanto que em sua última passagem no Brasil afirmou que se sentia orgulhoso de ter participado dessa evolução.

Difícil falar sobre sua maior contribuição, pois foram muitas. Michel Rolland nos ajudou a entender que não é possível fazer todos os vinhos em uma única região. Cada casta se desenvolve bem em terroirs específicos . Existe limite para cada casta em diferentes regiões. A influência de Rolland também foi essencial para melhorarmos as condições dos vinhedos, como, por exemplo, reduzindo a produtividade e realizando uma colheita com degustação das uvas. Ele nos ensinou a buscar o limite máximo da extração do vinho.

MC: Encerramos com um assunto polêmico, o selo fiscal. Qual a posição da Miolo em relação a este novo imposto que se anuncia?

AM: A Miolo defende todas práticas legais de mercado. A empresa preza pela concorrência saudável, correta e ética. O selo fiscal demandará investimentos intensos em automatização em todo o sistema fiscal e contábil das empresas. Entendo que a iniciativa será válida se ela de fato acabar com o problema da falsificação de vinhos, sonegação fiscal e importação ilegal, como afirma o Ministério da Fazenda.

 

 
Marcelo Copello (mcopello@mardevinho.com.br)
www.mardevinho.com.br