30/10/2009 – “Degustando o Chile desde a origem, Parte I”
Por Marcelo Copello* de Santiago
O Chile é o líder do mercado brasileiro de vinhos. Em 2008 a importação de vinhos chilenos ultrapassou a marca dos 18 milhões de litros, bem maior do que toda a produção nacional de tintos, brancos e rosados (vinífera), que não chegou aos 15 milhões de litros. Diante de números tão expressivos é fundamental acompanhar a produção chilena desde a origem.
Estive lá em agosto visitando 14 empresas de norte a sul do país, em 9 diferentes vales. Foram cerca de 170 vinhos provados em 6 dias, com visitas à vinhedos, bodegas e conversas com enólogos. Começo hoje um resumo do que vi e do provei lá.
Aos interessados no Chile sugiro a leitura de minhas colunas referentes a uma visita ao país em novembro de 2008. Os textos estão nos links:
http://www.mardevinho.com.br/uploads/2009/05/20090109-d-6.pdf
http://www.mardevinho.com.br/uploads/2009/05/20090116-d6.pdf
http://www.mardevinho.com.br/uploads/2009/05/20090130-d6.pdf
http://www.mardevinho.com.br/uploads/2009/05/20090206-d6.pdf

Vinhedos da Via Wines
Vale de Maule – Via Wines
Minha jornada começou pelo sul do país, no vale de Maule. Este vale fica a cerca de 300 km da capital Santiago e é o maior em área plantada, com cerca de 31 mil hectares, o que representa 45% de todo o vinhedo do país. A maior parte do terreno (60%) está ocupada com duas cepas: Cabernet Sauvignon e País. Esta última é uma variedade de qualidade inferior, trazida pelos espanhóis no século XVI. Com uma extensão tão grande é natural que existam aqui inúmeros terroirs e micro-climas.
No geral chove bastante, com 735mm anuais em média (podendo passar de 1.200mm em algumas zonas), os solos são dominados pela argila densa, de muita retenção. O inverno é rigoroso, atingindo temperaturas abaixo de zero e o verão é quente, ultrapassando os 30oC, com muita amplitude térmica diária. É daqui de Maule uma das regiões que mais tem chamado a atenção recentemente: Cauquenes. Fiquem atentos aos vinhos elaborados a partir de vinhas velhas de Carginan de Cauquenes!
Em Maule visite a “Via Wines”, empresa jovem fundada em 1998, que tem com um dos sócios uma família brasileira, do Rio de Janeiro, a família Coderch. Com bodegas em San Rafael (Vale de Maule), Lolol (Vale de Colchagua) e Casablanca, a empresa controla 1.039 hectares de vinhedos, plantados com muitas variedades como Cabernet Sauvignon, Merlot, Syrah, Carménère, Sangiovese e Tempranillo. Um destaque da empresa é seu vinhedo de Cabernet Franc, que gera vinhos excepcionais e ajuda em vários cortes tintos.
O enólogo chefe da empresa é Rafael Tirado (gêmeo de Enrique Tirado, responsável pelo Don Melchor na Concha y Toro), que não deve nada em talento ao irmão.
A Via Wines trabalha com duas linhas de vinhos: “Oveja Negra” – é a marca de maior volume, com vinhos em estilo moderno e roupagem jovem, utilizando mesclas inusitadas como Sauvignon Blanc+Carmenérè.
A linha Chilcas, é uma gama mais alta, mais tradicional, mais voltada a expressão dos terroirs de origem. Lá provei 11 vinhos com o Rafael Tirado e Adriana Coderch. Veja abaixo o quadro de notas e os destaques.
|
Vinho |
Safra |
Região |
Nota |
| Oveja Negra Reserva Sauvigno Blanc -Carménère |
2009 |
Maule |
84 |
| Oveja Negra Reserva Chardonnay-Viognier |
2008 |
Maule |
85 |
| Oveja Negra Reserva Cabernet Franc-Carménère |
2008 |
Maule |
86 |
| Oveja Negra Reserva Cabernet Sauvignon-Syrah |
2008 |
Maule |
85 |
| Oveja Negra Syngle Vineyard Carignan |
2008 |
Maule |
89 |
| Oveja Negra The Lost Barrel |
2008 |
Maule |
89 |
| Chilcas Reserva Sauvignon Blanc |
2008 |
Casablanca |
86 |
| Chilcas Reserva Carménère |
2007 |
Maule |
84 |
| Chilcas Reserva Cabernet Sauvignon |
2007 |
Lolol (Colchagua) |
86 |
| Chilcas Single Vineyardn Cabernet Franc |
2006 |
San Rafael (Maule) |
89 |
| Chilcas The Red One |
2007 |
Maule |
89 |
Oveja Negra Reserva Sauvigno Blanc –Carménère 2009. Cor muito clara, branco papel esverdeado. Aroma intenso e fresco, verdor pirazínico da Carménère aparece bem integrado as ervas da Sauvignon Blanc, grama cortada, frutas cristalizadas, pêra, melão. Paladar leve, com ótima acidez, 13% de álcool, final fresco e agradável. Nota: 84 pontos
Oveja Negra Syngle Vineyard Carignan 2008. De vinha velhas (50 anos) de Carignan de Cauquenes e leva 8% de Cabernet Franc, passa 12 meses em barricas 1/3 novas. Muito escuro e violáceo na cor, aroma de fruta muito madura e concentrada, limpa e bem definida, especiarias picantes, tabaco, violetas. Bom corpo, taninos finos e doces com bom frescor, boa acidez. Nota: 89 pontos
Oveja Negra The Lost Barrel 2008. Elaborado com 40% Carignan, 40% Syrah, 18% Carménère e 2% Petit Verdot, amadurece 18 meses em barricas 1/3 novas. Rubi violáceo escuro. Aroma de boa complexidade, frutas negras maduras, toque lácteo, especiarias picantes, toque de fruta cozida, madeira aparece bem na boca, 14% de álcool, taninos presentes, ainda nervosos. Um vinho ainda muito jovem, acaba de ser engarrafado, precisa de tempo de garrafa para se integrar. Nota: 89 pontos
Chilcas Single Vineyardn Cabernet Franc 2006. Fica 12 meses em barricas francesas. Rubi já sem tanto brilho na cor, entre claro e escuro. Aroma de fruta fresca, limpa e bem delineada, com a típica elegância e frescor da Cabernet Franc, especiarias secas, discretas, canela, cravo, noz moscada. Paladar de médio-bom corpo, taninos finos, 14,%5 de álcool, elegante e equilibrado por boa acidez. Nota: 89 pontos
Chilcas The Red One 2007. Elaborado com 40% Syrah, 20% Cabernet Franc, 20% Cabernet Sauvignon, 14% Carménère e 6% Petit Verdot, amadurece 14 meses em barricas. Rubi escuro mas não tanto, com reflexos violáceos. Aroma intenso, frescor, com boa complexidade, focado nas frutas maduras, vermelhas e negras, com toque de especisrias doces (baunilha) e picantes (pimenta).Encorpado, com boa concentração, taninos ainda jovens e nervosos, secos, finos, longo. Ainda jovem precisa de tempo de garrafa, tem algum potencial de guarda, 8-10 anos. Nota: 89 pontos
Vale de Curicó – Viña Korta
O Vale de Curicó está espremido entre Maule (ao sul) e Colchagua (ao norte), ocupa 19 mil hectares de vinhas, também dominados pela Cabernet Sauvignon (quase 7 mil hectares). Em geral o vale é quente, fechado entre montanhas, com 702mm anuais de chuvas e alguma influencia marítima. O terroir é mais propício as tintas que dominam 70% da produção.
Viña Korta
Em Curicó dei uma breve parada para visitar a Viña Korta, fundada em 1997, uma das empresas da família Korta, de origem Basca. A sede da vinícola fica em Sagrada Familia (no vale de Lontué) e tem capacidade para processar 2 mil toneladas de uva, por gravidade. Quase 100% dos 120 hectares de vinhedos da empresa são próprios, ocupados 85% pelas tintas Cabernet Sauvignon, Cabenet Franc, Syrah, Carménère, Syrah, Petit Verdot, Malbec e Carignan. As brancas implantadas são Sauvignon Blanc, Chardonnay, Riesling, Viognier, Rousanne e Marsanne.
A variedade que mais chamou a atenção contudo foi a “Verdor Chineno”. Esta cepa foi descoberta pelo enólogo Philippo Pszczolkowski, da Universidad de Chile. Não se sabe sdua origem, seria talvez originado da “Verdot Francês” (variedade perdida com a Filoxera) ou uma mutação de alguma outra uva francesa. Leiam mais abaixo.
Vejamos os 11 vinhos provados e os destaques.
|
Vinho |
Safra |
Região |
Nota |
| Marques del Nevado Reservado |
2009 |
Lontué |
78 |
| Marques del Nevado Reservado |
2007 |
Lontué |
78 |
| Marques del Nevado Reservado |
2008 |
Lontué |
80 |
| Marques del Nevado Reservado |
2008 |
Lontué |
76 |
| Marques del Nevado Reservado |
2008 |
Lontué |
80 |
| Marques del Nevado Gran Reserva |
2007 |
Lontué |
81 |
| Marques del Nevado Gran Reserva |
2007 |
Lontué |
83 |
| Gran Marques del Nevado |
2007 |
Sagrada Familia |
87 |
| Gran Marques del Nevado |
2006 |
Sagrada Familia |
86 |
| Gran Reserva Korta |
2008 |
Sagrada Familia |
88 |
| Korta Barrel Selection Verdot Chileno |
2007 |
Sagrada Familia |
86 |
Gran Reserva Korta 2008. Elaborado com 41% Petit Verdot, 22% Carménère, 18% Cabernet Franc, 16% Syrah, 3% Cabernet Sauvignon. Rubi escuro com reflexos violáceos. Bom ataque no nariz, com bom frescor, boa fruta, madura e doce, madeira, chocolate, tostados, especiarias. Bom corpo, taninos doces, redondos, longo, 14,5% de álcool. Nota: 88 pontos
Korta Barrel Selection Verdot Chileno 2007. Vermelho entre rubi e granada entre claro e escuro. Aroma intenso, floral (violetas e rosas), frutas vermelhas, groselha, framboesas. Paladar de leve a médio corpo, macio, com taninos finos e delicados, 14% de álcool, acidez moderada. É um vinho de pouca estrutura, lembrando um Pinot Noir, mas com menos frescor, mais floral e com mais perfil de vinho de “clima quente”. O Verdor Chileno é uma novidade que merece ser desenvolvida. Nota: 86 pontos
Semana que vem voltamos com Chile, falando de Colchagua e Apalta
Marcelo Copello (mcopello@mardevinho.com.br)
www.mardevinho.com.br


