Novidades na guerra das rolhas

Por Marcelo Copello

 

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De um lado temos o ritual da abertura da garrafa de vinho com um saca-rolhas, que para muitos completa o deleite proporcionado pelo néctar de Baco. De outro lado temos o risco de anti-clímax de abrir um vinho estragado por problemas na rolha. 

Nos últimos anos o debate tem sido intenso em torno do modo ideal de vedar as garrafas de vinhos e em torno dos problemas que envolvem a rolha de cortiça. O tema é importante, pois o modo de tampar a garrafa influi muito na qualidade final do vinho.

O surgimento da rolha de cortiça
Garrafas de vidro são usadas para armazenar vinho (ainda de modo raro e insipiente) desde o império romano. Este tipo de recipiente, contudo, só viria a se tornar o padrão a partir do século XVII. O pai da moderna garrafa de vidro para vinhos é o inglês Sir Kenelm Digby, que nos anos 1630 foi proprietário de uma fábrica de vidro e produziu em série garrafas mais resistentes, escuras (para a proteção do líquido da luz) e com formato semelhante ao que hoje é o padrão do mercado (cilíndricas, alongadas, com um pescoço mais fino e com um gargalho reforçado). Este tipo de garrafa adaptou-se bem a uma outra invenção, a rolha de cortiça, que por volta de 1680 começou a ser usada. Nesta data o monge Dom Pérignon teria deixado de usar vedantes de madeira e adotado rolhas de cortiça em seus vinhos espumantes. Até 1830 as rolhas eram em forma do cone, para seu melhor encaixe nos gargalos das garrafas, só a partir daí foram criadas máquinas capazes de introduzir rolhas cilíndricas (como as de hoje) nos gargalos das garrafas.

O que é TCA?
Só recentemente, com o aperfeiçoamento das rolhas sintéticas e das tampas de rosca, a cortiça começou a ser ameaçada em seu posto de vedante ideal para as garrafas de vinho. O motivo da busca de novos vedantes têm sido o TCA (2-4-6 Tricloroanisol), uma substância química volátil que pode contaminar não apenas na cortiça, mas também papel, papelão, plástico, recipientes de madeira como barricas etc. Vinhos atacados pelo TCA são chamado popularmente de bouchonné (em francês), corked (inglês), con corcho (espanhol) ou simplesmente com rolha, em Portugal. No Brasil a expressão mais usada é a francesa: “está bouchonné” (“buxonê”). O TCA provoca aromas desagradáveis de mofo no vinho. Fala-se que hoje de 2 a 5% dos vinhos vedados com rolhas de cortiça sofrem problemas causados pelo TCA. Este número é controverso. Em minha provas pessoais, de cerca de 5 mil vinho ao ano, não encontro mais que 1% de TCA.

É importante lembrar que, como o TCA não ataca apenas a rolha, mas pode sim contaminar todo o interior de uma vinícolas (suas barricas de madeiras, caixas de papelão etc), é possível (e já há relatos de tal), encontrar um vinho sem rolha (vedados com rolhas sintéticas, por exemplo) completamente bouchonné.

A rolha de cortiça – como é feita
A cortiça vem da casca do carvalho da espécie Quercus suber, ou Sobreiro, muito comum no sul de Portugal. Um sobreiro demora 25 anos para dar sua primeira “safra” e depois a cada 9 anos sua casca de cortiça pode ser retirada novamente. Ao retirar-se a casca do sobreiro numera-se cada árvore com o ultimo algarismo do ano corrente. Assim um sobreiro “colhido” em 2008 terá o número 8 pintado em seu caule. A paisagem das planícies do Alentejo repletas de árvores numeradas é ao mesmo tempo linda e inusitada.

A cortiça é, portanto, um tecido vegetal com centenas de milhões de células que formam uma estrutura impermeável e incrivelmente elástica, podendo, por exemplo, ser comprimida à metade de sua largura sem alterar sua altura e sem perder a flexibilidade.

Hoje os produtores de rolhas de cortiça estão trabalhando para melhorar seu produto e reduzir a incidência de TCA. Controles de qualidade estão sendo implementados para livrar a matéria prima de contaminação e as qualidades naturais da cortiça estão sendo enfatizadas, como importância econômica para as comunidades rurais e para o equilíbrio dos ecossistemas dos quais fazem parte. 

Os tipos de rolha de cortiça

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Rolha maciça – feita de cortiça maciça, é a de melhor qualidade. Quanto mais longa, larga e elástica melhor a qualidade da rolha. Uma rolha grande pode ter 55 mm de comprimento e 25 mm de diâmetro. Enquanto isso uma pequena pode ficar nos 30×15 mm, por exemplo. O diâmetro da boca da garrafa é sempre menor que o diâmetro da rolha, que é colocada comprimida por uma máquina, para que fique firme e vede bem o recipiente. Uma rolha “top” pode custar mais de 1 euro a unidade.

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Rolha de aglomerado de cortiça – rolha mais barata feita de cortiça moída e cola, a partir da cortiça que sobra da elaboração das rolhas maciças. Difere da rolha maciça da mesma forma que uma madeira maciça se compara a uma madeira de aglomerado. Sua elasticidade e durabilidade é menor que a de uma rolha maciça (e seu tamanho por vezes também). Em alguns casos a cola destas rolhas pode passar aromas negativos ao vinho, o que motivou alguns produtores a adicionarem um disco de cortiça maciça na parte da rolha que fica em contato com o líquido. 

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Rolha de Champagne – é feita de duas partes, em forma de cogumelo. A parte de cima, a cabeça do cogumelo, é propositalmente feita de aglomerado bastante rígido, sem elasticidade, para que se possa segurar e sacar a rolha com as mãos ou um alicate apropriado. A parte de baixo, que fica dentro do gargalo da garrafa, é de rolha maciça e elástica, para vedar a garrafa e proteger o liquido.

Vedantes alternativos mais comuns

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Rolha sintética – as rolhas sintéticas chegaram ao mercado no início dos anos 1990 causando espanto (e às vezes revolta) em consumidores tradicionalistas. Este tipo de vedante oferece vantagens e desvantagens em relação às rolhas de cortiça. Custam mais barato, permitem que o vinho seja guardado de pé, pode ser colorida, e o principal, não transmitem o TCA.

Do lado negativo está primeiramente o aspecto técnico: esta rolha não é tão elástica quanto a cortiça e não veda totalmente a garrafa, permitindo a entrada de uma micro quantidade de oxigênio (0,01 centímetro cúbico por dia, dez vezes mais que 0,001 cc das rolhas de cortiça ou tampas de rosca) provocando a oxidação dos vinhos em caso de longa guarda. Além disso a durabilidade da rolha em si não é comprovada e o lado estético é um aspecto que pode ser altamente negativo para os consumidores mais tradicionalistas. Normalmente usa-se este tipo de rolha em vinhos de menor preço e com uma expectativa de vida de menos de 5 anos. Cerca de 20% das garrafas de vinho é vedada com rolhas sintéticas.

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Tampa de Rosca – Conhecida como screwcap este tipo de vedante vem sendo pesquisado para uso em vinhos na Austrália desde os anos 1960 e há anos é usado com sucesso em muitos tipos de bebida (cerveja, sucos, água mineral etc). Trata-se de uma tampa metálica de rosca coberta internamente por um plástico inerte. Como vantagens traz seu baixo custo, seu fácil manuseio (dispensa o uso saca rolhas), a garrafa pode ficar de pé, é reciclável, livre de TCA e funciona perfeitamente para vinhos jovens. Sua longevidade, contudo, não está comprovada para uso em vinhos de guarda, embora já seja bastante aceita sua grande eficiência em vinhos brancos e de consumo jovem em geral. Este tipo de vedante é adotado por novos produtores a cada ano e é a grande tendência deste mercado. Na Austrália cerca de 30% de toda a produção engarrafada já utiliza a screwcap. Na Nova Zelândia esta proporção já ultrapassa os 70%. A nível global, cerca de 15% de todas as garrafas de vinho comercializadas trazem uma tampa de rosca. No momento este parece ser o vedante mais promissor, por sua eficiência, fácil utilização e baixo custo. No lado negativo apenas o possível desenvolvimento de aromas de redução no vinho (causados pelo vinho ficar “abafado”, com a ausência de entrada de micro-quantidades de ar na garrafa) e o que mais atrapalha este vedante: o fim do ritual do saca-rolhas.

Vedantes alternativos pouco comuns e novidades
Tampa de Vidro
Um tipo de vedante, feito de vidro e forrado com material sintético é usado por alguns produtores alemães e austríacos. No Brasil já esbarrei em vinhos assim do produtor alemão Eugen Müller, representado aqui pela importadora Decanter. Este vedante é chamado de “Vino-lok” e é tipo como muito eficiente, por cumprir bem sua função de selar a garrafa, por sua aparência elegante e por ser reciclável, mas seu custo ainda não é acessível a vinhos mais baratos. 

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Zork
Com o slogan “Zork not cork” (zork e não rolha), esta marca de vedantes australianos promete revolucionar a indústria dos vinhos de baixo custo e de consumo mais imediato, substituindo as rolhas sintéticas.Trata-se de uma combinação de tampa de rosca (abre-se girando) de material sintético mas que faz o efeito de espocar, como uma rolha de champagne. Veja um vídeo promocional em www.zorkusa.com

Pro-cork
Este é outro produto que promete “mundos e fundos”. A Pro-cork consiste em uma rolha de cortiça natural, com todas as suas ótimas qualidades, mas sem o problema do TCA. Na Pro-cork a parte da rolha que fica em contato com o vinho é revestida com 5 camadas de material protetor que e isola o vinho da cortiça, protegendo o líquido e de uma possível contaminação por TCA.

O tema ainda é polêmico e a discussão está longe de alcançar um consenso, já que só o tempo dirá qual o método mais seguro e longevo de vedar vinhos.

 

Marcelo Copello (mcopello@mardevinho.com.br)

www.mardevinho.com.br