Os novos vinhos do Velho Mundo
É comum lermos na imprensa especializada em vinhos, esta coluna incluída, expressões como “estilo novo mundo”, “estilo velho mundo”, “estilo moderno”, “estilo tradiciolal” ou “estilo clássico”. O que significam estes termos?
Como convenção chamamos de “velho mundo” a Europa e de “novo mundo” os demais países. Países do norte da África e do oriente médio, como Líbano (antigo e ótimo produtor), são exceções, e se alinham francamente no “velho mundo”. A China começa a entrar no mercado mundial de vinhos e certamente suscitará dúvidas na hora em que formos nos referir aos vinhos de lá, pois trata-se de uma civilização das mais antigas cuja produção de vinhos, porém, só cresceu recentemente. O mesmo acontece com o Japão. Os vinhos chineses e japoneses são novo ou velho mundo?
Antes de prosseguir e enumerar carcteristicas que definem cada estilo é importante ressaltar que o universo do vinho, em sua fascinante complexidade, proporciona inúmeras exceções a qualquer classificação ou simplificação que se tente elaborar. A maioria dos vinhos de hoje está em algum lugar no meio do caminho entre os dois estilos, com características de ambos os “mundos”. Assim, o objetivo aqui é apenas educar e esclarecer, sem querer elaborar nenhuma regra.
Estilo Velho Mundo
O “estilo velho mundo” se confunde com o “estilo tradicional” ou “estilo clássico”. Quando nos referimos a um vinho deste time, falamos normalmente de vinhos elaborados com técnicas tradicionais, que podem vir desde o vinhedo até a vinificação ou amadurecimento dos vinhos. Uvas colhidas não tão maduras, macerações não tão longas ou extração/concentração não tão intensa dos mostos, uso de grandes tonéis de maidera usada, por exemplo, mais comumente se enquadram em vinhos tradicionais. No que diz respeito ao seu aroma e sabor, os vinhos “clássicos” normalmente são mais para a boca que para o nariz, não são tão intensos e frutados no olfato (mostram outras famílias de aromas que não apenas frutas e especiarias da madeira nova, mostrando característocas de evolução, como aromas animais, por exemplo) e é no paladar que mostram sua classe. Normalmente estes caldos pedem um maior envelhecimento em garrafa antes de seu consumo e se prestam a ficar mais anos armazenados em nossas adegas. Outro aspecto normalmente associado ao “estilo velho mundo” é a vocação gastronômica destes vinhos, que melhor se prestam a acompanhar uma boa refeição. Falando mais tecnicamente, enquadramos aqui vinhos de maior acidez natural, menor teor alcoólico, taninos mais secos, e não encorpados em demasia. Neste mundo é mais comum falarmos de elegância e equilíbrio.

Estilo Novo Mundo
Uma vez comentado o que seria “estilo velho mundo” fica fácil descrever o “estilo novo mundo”, pois é o oposto. Falamos de vinhos “modernos”, elaborados com as mais recentes técnicas de viticultura e enologia. Falamos de alta densidade de plantação e baixos rendimentos nos vinhedos, colheitas mais tardias, fermentação à frio, barricas novas de carvalho, grande concentração, alto teor alcoólico, acidez mais baixa, taninos doces. São vinhos de aroma intenso, frescos, frutados, marcados pelas espaciarias da madeira e de sabor macio, as vezes quase doce. Estes vinhos impressionam pela potência e pela redondez, mas podem ter menor capacidade de envelhecimento e podem ser enjoativos, principalmente com comida. Neste mundo é mais comum falarmos força e maciez.
O melhor dos dois mundos e os “supertoscanos”
Como já dito, atualmente quase todos os vinhos se situam em estilo em algum lugar estre estes dois extremos. Tornou-se um slogan referiri-se a “um vinho do velho mundo com estilo moderno” ou “novo mundo com toque europeu”, ou mais explicitamente “chileno com sotaque francês”, por exemplo.
Não por acaso alguns dos melhores vinhos que tenho provado são os vinhos do novo mundo que buscam um estilo mais clássico e mais ainda: os novos vinhos do velho mundo. No que diz respeito à modernização dos vinhos do velho mundo, a primeira região a se renovar em bloco (embora de maneira não organizada), criando um estilo próprio e um fenômeno de marketing, foi a Toscana. Falamos dos “supertoscanos”, gênero iniciado pelo Marquês Piero Antinori em 1971 ao produzir o primeiro Tignalelo, vinho que mistura a uva local Sangiovese à castas estrangeiras Cabernet Sauvignon e Cabernet Franc.
Os melhores supertoscanos conseguem ter estilo moderno “novo mundo” e manter a alma toscana inconfundível. Avaliamos hoje 12 destas jóias e semana que vem dedicamos esta página ao assunto.
Ruit Hora 2004, Caccia al piano 1868, Toscana-Itália (Ars Vivendi, tel.: 11 3061-2307, R$ 285). DOC Bolgheri, Merlot 65%, Cabernet Sauvignon 25% e Syrah 10%, com estágio de 15 meses em madeira francesa. Rubi escuro com reflexos granada. Aroma de bom ataque, com frutas maduras na frente (ameixa, cassis), especiarias (baunilha), tostados, cacau, mentol e toques florais. Paladar de boa estrutura, taninos doces, prontos, com 13,5 de álcool, final longo e macio. Um corte moderno, ao mesmo tempo encorpado, elegante e fácil de beber. 90/100
Belcore 2005, I Giusti & Zanza, Toscana-Itália (Cantú, tel.: 0300-2101010, R$ 110). IGT Toscana, elaborado com 80% Sangiovese 80% e Merlot 20%, com passagem de 8 meses por madeira francesa. Aroma intenso e fresco, focado nas frutas maduras, com amora, ameixa, cereja, alcaçuz, baunilha, chocolate, mentol. Paladar de bom corpo, com taninos doces, ainda com toque de jovialidade, com 14% de álcool, boa acidez, longo. Um corte que costuma funcionar muito bem, agregando a acidez e vivacidade da Sangiovese, com a redondez e fruta da Merlot. 88/100
Nemorino 2006, I Giusti & Zanza,Toscana-Itália (Cantú, tel.: 0300-2101010, R$ 70). IGT Toscana. Elaborado com Syrah 60% , Sangiovese 30% e Merlot 10%, amadurecido parcialmente em Madeira por 5 meses. Rubi violáceo muito escuro, aroma intenso focado em frutas negras maduras, amora, cerejas, violetas, chocolate. Paladar de médio a com corpo, macio, pronto, taninos doces, 14% de álcool, boa acidez, longo. Agradável, moderno, fresco. 86/100
Black Label 2001, I Balzini, Toscana- Itália (Casa Flora, tel.: 11 2842-5199, R$ 135). Das “Colli della Toscana Centrale”, zona do Chianti Classico. Um corte de Cabernet Sauvignon 50%, Sangiovese 30% e Merlot 20%, amadurecido 16 meses em madeira francesa. Vermelho granada escuro com reflexos na transição rubi-alaranjado.Aroma intenso, que se abriu muito ao longo da prova mostrando grande complexidade, com frutas maduras (cassis, amora, cereja preta), especiarias, baunilha, alcaçuz, tudo muito bem integrado. Paladar de bom corpo, boa estrutura sem exageros, taninos finos, secos, prontos, 14% de álcool, acidez ainda boa, longo com final macio, Um supertoscano denso, equilibrado e elegante, em seu auge. 92/100
White Label 2001, I Balzini, Toscana- Itália (Casa Flora, tel.: 11 2842-5199, R$ 140). Das “Colli della Toscana Centrale”, zona do Chianti Classico. Elaborado com Cabernet Sauvignon 50% e Sangiovese 50%, amadurecido 16 meses em madeira francesa. Granada escuro com reflexos na transição. Aroma intenso, complexo, toques lácteos, especiarias, alcaçuz, frutas negras, ameixa passa, toques de menta, baunilha, café. Paladar de bom corpo, taninos finos, de boa estrutura, resolvidos, boa acidez da Sangiovese mantém o vinho vivo aos 8 anos de idade, em seu auge, ganha muito com 1 hora no decanter. Estilo bastante toscano, moderno, mas italiano até a medula. 91/100
Tenuta de Valgiano 2005, Tenuta de Valgiano, Toscana-Itália (Enoteca Fasano, tel.: 11 3074-3959, R$ 458,00). Um produtor biodinâmico. Da DOC Colline Lucchesi, elaborado com Sangiovese (dominante), Merlot e Syrah, pisadas a pé, amadurece em barricas francesas (novas e usadas) por 18 meses. Vermelho rubi escuro violáceo. Aroma intenso e muito fino, com ótimo frescor, fruta madura, ameixas, amoras, especiarias, minerais terrosos, chocolate, anis, violetas. Paladar de grande estrutura, sem perder a elegância, com taninos finíssimos, aveludados, 13,5% de álcool, boa acidez, muito persistente no palato, com boa profundidade e definição. Grande vinho, expressivo desde já, embora jovem, para longa guarda. 95/100
Cerviolo 2001, San Fabiano Calcinaia, Toscana-Itália (Decanter, tel.: 47 3326-0111, R$ 236,30). Um IGT Toscana, da zona do Chianti Classico. Um corte de Sangiovese 50%, Merlot e Cabernet Sauvignon 25% cada. Amadurece por 18 meses em barricas francesas novas. Vermelho granada muito escuro, com os primeiros reflexos na transição violeta-alaranjados. Nariz intenso que mostra inicialmente muitas epeciarias (baunilha, alcaçuz, canela, cravo), tostados, chocolate amargo, sândalo, fruta densa e madura, ameixas, floral de violetas, terra molhada. Paladar encorpado, estrutuado por taninos firmes, finos e secos, 14,5% de álcool, acidez equilibrada, longo, no auge embora possa ser guardado mais três anos. 91/100
Le Stanze 2004, Poliziano, Toscana-Itália (Mistral, tel.: 11 3372-3400, US$ 111,50). IGT Toscana. Elaborado com Cabernet Sauvignon e Merlot, amadurecido em carvalho francês. Rubi escuro violáceo. Aroma concentrado, vincado, algo fechado, de frutas negras, madeira de ótima qualidade bem presente e muito bem integrada, especiarias, baunilha, alcaçuz, terra molhada, vegetal balsâmico fresco, violetas, mineral terroso, tostados. Paladar estruturado, taninos volumosos, secos, bem presentes, 13,5% de álcool, boa acidez bem italiana. Corte bordalês com personalidade toscana inconfundível. Ainda jovem , precisa de 2 horas no decanter e merece mais 2 ou 3 anos anos em garrafa antes de ser apreciado e pode ser guardado por mais uma década. 92/100
Siepi 2005, Castello di Fonterutoli, Toscana-Itália (Expand, tel.: 11 3847-4700, R$ 498). Da zona do Chianti Clássico, foi pioneiro no corte de Sangiovese-Merlot, que acabou por se tornar um corte clássico para “supertoscanos”. Amadurecido 16 meses em barricas francesas. Vermelho rubi muito escuro com reflexos violáceos. Aroma em bloco, com fruta negra “gulosa”, concentrada, bem integrada com madeira bem marcada, tostados, chocolate, alcaçuz, baunilha, hortelã, florais. Paladar muito encorpado, de sólida estrutura e ao mesmo tempo aveludado, taninos finos e doces, 14% de álcool, longo, com profundidade de sabores e complexo. Expressa bem o conceito de “moderno sem perder a alma italiana”. Provado no ano passado estava fechado, agora começa a se mostrar, mas ainda vai evoluir muito. 94/100
Eneo 2001, Montepeloso, Toscana-Itália (Vinci, tel.: 11 3372-3400, US$ 89,90). IGT Toscana, 100% Sangiovese. Vermelho granada escuro com reflexos na transição rubi-alaranjado. Aroma de bom ataque, com toques de evolução, frutas secas, cereja preta, especiarias, tabaco, couro, chocolate amargo, anis, terra molhada. Paladar de bom corpo, 14% de álcool, taninos doces, prontos, longo. Já pronto e muito agradável. 88/100
Summus 2004, Castello Banfi, Toscana-Itália (World Wine, tel.: 11 3383-7477, R$ 247). Da DOC Sant´Antimo Rosso, de Montalcino, elaborado com 40% Sangiovese, 40% Cabernet Sauvignon e 20% Syrah, com 16 meses em carvalho francês. Vermelho rubi muito escuto com reflexos violáceos. Aroma intenso e bem definido de frutas negras maduras, amora, ameixa, bastante madeira, baunilha, tostados, florais, alcaçuz, muito chocolate amargo, fundo mineral elegante. Paladar muito encorpado, taninos estruturados ainda jovens secando a boca, final longo e complexo. Um blend campeão, usando 3 cepas que se expressão muito bem na Toscana. Grande vinho, raçudo, para guarda. 93/100
Collezione De Marchi Cabernet Sauvignon 2001, Isole e Olena, Toscana-Itália (Mistral, tel.: 11 3372-3400, US$ 148,50). IGT Toscana. Granada escuro sem reflexos. Aroma fino, complexo e bem amalgamado com madeira que aparece bem integrada, vegetal típico da casta, frutas maduras, frutas secas, especiarias (cravo, canela, baunilha), couro, musgo, cacau amargo, toque fumé. Paladar de bom corpo, sem grande concentração, boa profundidade, taninos finos, secos e resolvidos, 13,5% de álcool, boa acidez, sério, já bem aberto e muito expressivo, longo, em seu melhor momento. 91/100
Marcelo Copello (mcopello@mardevinho.com.br)
www.mardevinho.com.br















