Palavras a serviço do néctar do deus Baco
Por Marcelo Copello
“Eu não conheço nenhum outro líquido que colocado na boca force você a pensar”, Clifton Fadiman.
Em um daquelas conversas de bar, em uma roda de amigos e amigos de amigos, alguém perguntou sobre o lançando de meu 4º livro sobre vinhos. Uma pessoa da mesa, que eu não conhecia, demonstrou imediatamente seu grande espanto: “mas existe assunto para quatro livros sobre vinho!”… Ignorância não é crime e a cura é simples, basta ler Gazeta Mercantil.
O Vinho é um dos assuntos mais antigos da literatura. Desde os primórdios da civilização infinitos hectolitros de palavras foram derramas em nome do vinho. Incontáveis livros foram escritos por médicos, filósofos, poetas e cientistas, que dedicaram suas palavras ao vinho. Mas porque o nobre fermentado nos leva à palavra, pensada, falada e escrita, tornando-nos poetas? Os diversos aspectos da relação do vinho com a palavra e as diversas formas da presença do vinho literatura é o tema desta matéria.
Pensamento e linguagem
Quando nos cursos de iniciação que ministro peço à um neófito que descreva um determinado vinho, noto que a dificuldade de expressão é imensa. Por que seria esta uma tarefa árdua? Por que sentimos a necessidade de transformar o líquido em palavras?
A aspereza da tarefa é compreensível. Segundo Lev Vygotsky, gênio russo da psicologia, pensamento e linguagem têm origens diferentes, ao nascermos nosso pensamento não é verbal e nossa linguagem não é intelectual. O pensamento e a palavra não se encontram relacionados por vínculos primários, somente aos dois anos de idade se encontram. A partir do momento que a criança descobre que tudo tem um nome, cada novo objeto que surge representa um problema que ela resolve batizando-o. Quando aprendemos a degustar, em certo sentido, voltamos à infância, perguntando a nossos pais qual o nome de determinado objeto ou, como devemos nomear determinado aroma.
A necessidade de comungar com o próximo
Quando provamos o néctar dionisíaco, mergulhamos em um mundo só nosso. Penetrar neste mundo significa embeber-se de cores, aromas, sabores e texturas – percebê-los através de nossos sentidos. As palavras vêm depois. Primeiro nossa mente deduz, da experiência como um todo, generalidades que podem ser conceitualizadas e rotuladas. Nossos sentidos traduzem estas realidades exteriores em fenômenos interiores e comunicáveis. É inerente ao ser humano se expressar, dizer o que sente. Comunicar-se é comungar com o próximo, é partilhar, uma carência básica de nossa espécie.
Escultura de gelo
“Não existe nenhuma concepção na mente do Homem que não tenha sido antes, totalmente ou em partes, gerada nos órgão dos sentidos”, Thomas Hobbes (1588-1679).
Diferentemente da maioria dos objetos de arte, o vinho sofre por sua efemeridade. Uma garrafa pode ser guardada décadas, mas é como uma pintura coberta por um manto, que não poderá ser apreciada enquanto estiver oculta. Uma vez aberta a garrafa, esta se comporta como uma escultura de gelo, tem vida extremamente curta. Cada garrafa aberta é uma experiência única, o líquido só viverá por algumas horas e será provado por um número limitado de pessoas, o que nos transmitir a experiência através da palavra. A enologia é uma arte sem museu, que sobrevive apenas na memória dos que a experimentaram e nas palavras que brotaram desta experiência.
A história do vinho na literatura
Desde que o vinho foi mencionado no escrito mais antigo que se tem notícia, a saga do rei babilônico Gilgamesh, de 1800 aC, o nobre fermentado foi presença recorrente na literatura ocidental. O nobre fermentado inspirou tanto obras de ficção quanto em textos filosóficos, médicos e históricos, sem mencionar nas publicações exclusivamente dedicadas ao vinho. A literatura enológica, em seus primórdios, estava mais voltada para os efeitos do vinho (a embriaguez ou seus benefícios à saúde) do que para qualidades intrínsecas. Até século XVIII, os livros sobre o fermentado versavam sobre o plantio da vinha, sobre os usos medicinais do fermentado e sobre sua elaboração, raramente dedicando-se a apreciação da bebida.
Apenas em 1793 o termo “provador” foi designado pelos lexicógrafos franceses como “aquele cujo ofício é provar vinhos”, e a palavra “degustar” só surgiu nos textos franceses em 1813. O primeiro livro a tentar analisar a ciência da degustação foi provavelmente “The History of Ancient and Modern Wines” escrito em 1824 pelo Dr. Alexander Henderson. A obra “Études sur le vin” de Louis Pasteur, publicada em 1866, foi de grande importância. Esta publicação eminentemente científica, ao explicar a fermentação alcoólica e o papel do oxigênio na degradação dos vinhos, suscitou uma vontade maior de compreender a bebida. O século XIX viu, então, o florescimento de uma literatura voltada para as qualidades sensoriais do vinho.
No século XX, o crescimento da indústria do vinho caminhou lado a lado com o crescimento de sua cultura e de sua literatura. Após a Segunda Guerra Mundial e mais acentuadamente a partir dos anos 70, o vinho tornou-se a bebida da classe média e as publicações especializadas viveram um verdadeiro boom, não por acaso em 1976 foi criada a revista Wine Spectator, e em 1978 o jornal Wine Advocate, de Robert Parker, por exemplo. A segunda metade do século XX viu surgir uma nova e brilhante geração de wine-writers, cujos livros povoam as livrarias de todo o mundo, como o francês Emile Paynaud; os ingleses Michael Broadbent, Hugh Johnson, Jancis Robinson e Oz Clark; o americano Robert Parker; o italiano Luigi Veronelli; o espanhol José Peñin; os portugueses João Paulo Martins e João Afonso, e os australianos James Halliday e John Beeston. No Brasil, o interesse intensificou-se de meados dos anos 90 em diante. Revistas especializadas foram criadas, jornais de circulação nacional ganharam colunas enológicas, emissoras de TV passaram a exibir programas especializados na bebida. Hoje raras são as mídias, seja jornal, revista, TV, rádio, portal na internet etc, que não tenha conteúdo especializado em vinhos.
BIBLIOTECA BÁSICA
Uma pergunta freqüente que respondo é “que livro você me recomenda para começar?”, ou “o que devo ler ou consultar regularmente?”. Existem muitas opções de boas leituras no mercado. Para formar uma boa biblioteca sugiro poucos livros generalistas, apenas dois ou três (para ter duas visões do tema) e depois partir para livros especializados (degustação, harmonização, castas, países, regiões, guias, por exemplo). Abaixo uma sugestão de biblioteca bem abrangente com apenas 27 títulos.
DIDÁTICOS BÁSICOS
• “Tintos e Brancos” - Saul Galvão (editora Ática) – foi o primeiro livro de vinhos que li, mais de 20 anos atrás, foi atualizado e continua uma ótima porta de entrada no mundo dos vinhos.
• “Jancis Robinson’s Wine Course” – Jancis Robinson (Abbeville Press) – Mrs Robinson tem uma ótima didática e o livro é bem ilustrado e organizado.
• “Wine By Style” – Fiona Beckett (Mitchell Beazley) – tudo esquematizado e simplifcado, bema o gusto da vida prática americana, texto fluente e livro muito bem feito.
DEGUSTAÇÃO
• “How to Taste” – Jancis Robinson – (Simon and Schuster) – Mrs Robinson degusta passo a passo com você.
• “Descobrir o gosto do vinho” – Émile Peynaud e Jacques Blouin – (Litexa) – Peynaud é um autor de referência, enólogo que inspirou toda uma geração. O livro é técnico e um pouco desatualizado, mas é obrigatório em uma boa biblioteca.
HARMONIZAÇÃO
• “Vinho e Comida” – Joana Simon (Companhia das Letras) – Muito prático e funciona.
• “Enogastronomia: a arte de harmonizar cardápios e vinhos” – Deise Novakoski e Renato Freie (Senac) – Tudo bem explicadinho e com a experiência de anos que são tantos que Deise até fica sem jeito de dizer.
OBRAS DE CONSULTA
• “The World Atlas of Wine” – Hugh Johnson e Jancis Robinson (MITCH) – Um livro clássico, bem ilustrado com as 4 mãos mais importantes da eno-literatura britânica contemporânea.
• “The Oxford Companion to Wine” – Jancis Robinson (Oxford University Press) – a mais completa obra de referência em vinhos, organizadad em forma de enciclopédia;
• “Guia de Castas” – Jancis Robinson (Cotovia) – um dicionário para navegar no mundo das uvas.
GUIAS
FRANÇA
Guide Hachette des Vins (French & European Pubns) – Guia dos mais respeitados da França
Bordeaux: A Consumer’s Guide to the World’s Finest Wines – Robert Parker (Simon & Schuster) – Parker é polêmico, mas ninguém questiona que sua especialidade é Bordeaux.
ITÁLIA
Duemilavini (Bibenda Editore) – Elaborado pela Assoazione Italiana Sommeliers – é mais técnico e com mais descrições que o seu principal concorrente aqui abaixo.
Gambero Rosso (Slow Food editore) – o guia mais vendido da Itália, ganhar “3 bicchieri”, sua nota máxima, vale muito prestígio para um vinho italiano.
ESPANHA
Guia Peñín – Jose Peñín (Perñín Ediciones) – o mais poderoso crítico espanhol é muito rigoroso em suas notas e sem par como referência espanhola
PORTUGAL
João Paulo Martins – Vinhos de Portugal (Publicações Don Quixote) – Portugal hoje conta com uma nova geração de bons críticos, mas a maior referência continua sendo JPM e ter seu guia é obrigatório.
João Paulo Martins – Guia de Vinho generosos (Publicações Don Quixote) – JPM lançou este livro dedicado aos Portos, Madeiras, Moscatéis – obrigatórios para os apreciadores destes tipos de vinho.
Os sabores do Douro e do Minho – Marcelo Copello (SENAC) – dedicado aos vinhos e à gastronomia destas duas regiões, com foco no Vinho do Porto e no Vinho Verde.
CHILE E ARGENTINA
Descorchados – Patrício Tapia (Planeta) – Principal guia de vinhos do Chile, agora também contempla os vinhos argentinos.
AUSTRÁLIA
James Halliday Wine Companion (Collins) – Halliday é admirado por todos os críticos do mundo. Prova ao ano (tecnicamente) 20 mil vinhos. Seu guia é muito completo, com cerca de 400 vinícolas australianas.
ÁFRICA DO SUL
John Platter’s South African Wine Guide – Philip van Zyl, Gawie Du Toit e Dennis Gordon – (John Platter). Platter vendeu seu guia há alguns anos, mas a publicação continua um best seller e maior referência do país.
EUA
New California Wine – Matt Kramer (Running Press) – Kramer é um dos editores da Wine Spectator e dono do ótimo texto. Aqui ele conta a história dos vinhos da Califórnia, analisa cada região e cada produtor.
HISTÓRIA E CULTURA
• Michael Broadbent’s Vintage Wine (Harcourt). Michael Broadbent é o decano dos escritores do Vinho, do departamento de vinhos da casa leiloeira Christie’s desde 1966 e colaborador da revista Decanter. Ele é a maior referência em degustação de vinhos antigos, e este é o assunto deste livro.
• “Uma Breve História do Vinho” – Rod Phillips (Record) – deliciosa leitura e belo trabalho de pesquisa;
• “Vinho e Algo Mais” – Marcelo Copello (Record) – Este livro que lancei em 2004, foi o primeiro livro brasileiro sobre vinhos a ser indicado a um prêmio literário (o Jabuti) e o também o primeiro a ganhar uma tradução, em espanhol.
• “Vinho e Guerra” – Don e Pete Kladstrup (Jorge Zahar Editora) – um clássico, a deliciosa história de como o vinho sobreviveu à II Guerra Mundial.
DIVERSÃO
• “The Grapes od Ralph” – Ralph Steadman (Harcourt Brace & Company) – Steadman é um cartunista muito bem humorado e amante dos vinhos, o resultado é imperdível!
• “O Diário de um Náufrago em um Mar de Vinho” – Marcelo Copello (IBPI Press) – Escrevi este livro há exatos 10 anos e ainda encanta a todos que lêem por suas histórias engraçadas regadas a vinho. Está esgotado mas pode ser comprado no site www.mardevinho.com.br.
Nunca tantas letras foram vertidas em nome de Baco, o que nos dá a certeza de que não basta degustar, é preciso também transformar o líquido em palavras, e assim compartilhar a experiência propiciada por cada gole de nossa bebida predileta.
Marcelo Copello (mcopello@mardevinho.com.br)








