Punta, capital do néctar de Baco no cone sul

Por Marcelo Copello de Punta del Este

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O Brasil é, de longe, o mais importante mercado de exportação para o vinho uruguaio. Ao mesmo tempo o turista brasileiro é presença marcante e constante no mais elegante balneário deste país vizinho: Punta del Este. Nada mais natural, portanto, que fazer uma feira de vinhos lá. O “Salon del Vino Fino” chegou a sua VII edição nos dias 30 e 31 do mês passado no Hotel Conrad. O evento reuniu 90 bodegas, quase todas do Uruguai, Argentina e Chile, com algumas presenças do Brasil, Austrália, EUA, Itália e Portugal. O evento, voltado ao consumidor final, encontrou no hotel-resort-cassino Conrad, um ambiente perfeito para seu público, unindo muitas atrações em um espaço privilegiado. Para se ter uma idéia do tamanho deste hotel e de sua afinidade com o fermentado de Baco, basta dizer que aqui são desarolhadas pelos hospedes e clientes do cassino cerca de 300 mil garrafas de vinho ao ano.

O evento recebe cerca de 3,6 mil visitantes ao ano (1,8 mil em cada um de seus dois dia). Os 35 dólares cobrados deram direito a provar dos cerca de 400 vinhos oferecidos, assim como comidinhas elaboradas pelos chefes do Conrad, além de uma taça como brinde.

Provei diversos vinhos no evento, mas darei foco aqui aos caldos do país visitado, que merecem atenção. O Uruguai tem apenas 3,2 milhões de habitantes e uma superfície de 177 mil quilômetros quadrados. Está localizado entre os paralelos 30 e 35 sul, latitude considerada ideal para o plantio de vinhas, a mesma dos vinhedos argentinos, chilenos, sul-africanos e neozelandeses.

A videira já era cultivada no Uruguai no século XVII, com variedades de Moscatel, originárias da Espanha. Só 200 anos mais tarde, porém, a produção comercial tomaria impulso, época em que os imigrantes bascos iniciaram o cultivo da uva Tannat. Ganhou tal importância essa cepa que se tornou o símbolo vinícola do país. Até o fim dos anos 80, a produção era totalmente orientada ao mercado doméstico, cuja principal demanda é por vinhos rosados, vendidos em garrafões de 10 litros.

Atualmente, o país possui 9 mil hectares de vinhedos e suas 280 bodegas elaboram 90 milhões de litros de vinho por ano, cerca de um terço da produção brasileira. Desse total, apenas 3.500 hectares são cultivados com cepas de qualidade, por cerca de 30 vinícolas que se dedicam ao vinho fino.
Muitas são as variedades cultivadas, mas as tintas dominam com cerca de 70% da área cultivada. Dentre as brancas, predominam a Sauvignon e Chardonnay, com presença de Sauvignon Gris, Viognier e Riesling. Nas tintas, pode-se escolher dentre várias cepas como Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc, Merlot, Pinot Noir, Tempranillo, Shiraz e Petit Verdot, embora a mais cultivada seja a Tannat, esparramando-se por um terço de todos os vinhedos.

Original do sudoeste da França, onde serve de base para o Madiran, a Tannat, que como sugere o nome, deriva de “tanino”, oferece um líquido retinto e excessivamente tânico. O Uruguai hoje tem uma superfície plantada dessa uva maior do que na própria França.

O vinho Tannat uruguaio, entretanto, revela estilo diverso do francês, devido a diferenças clonais e de terroir. No geral,o Tannat de nossos vizinhos é menos agressivo e mais frutado que o gaulês, mantendo as características de cor escura, com taninos marcados e afinidade com carvalho.

Os vinhos provados

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Preludio tinto 2004, Juanico, Canelones-Uruguai (Expand,   tel.: 11 3847-4700, R$ 115). Este vinho é elaborado com um corte diferente e cada ano, este 2004 é o “Lore 77”, com Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc, Merlot e Tannat.Vermelho granada escuro. Aroma intenso e elegante, que se abriu ao longo da prova mostrando boa complexidade, com madeira de boa qualidade na frente, fruita secas bem definidas, cravo, baunilha, tostados, toque lácteo, couro. Paladar de bom corpo, taninos finos, secos, sérios, boa estrutura, equilibrado com boa acidez, 13% de álcool, longo, para guarda. 89/100

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 Preludio branco 2007, Juanicó, Canelones-Uruguai (Expand, tel.: 11 3847, R$ 88). 90% de Chardonnay, 8% de Viognier e 2% de Sauvignon Blanc. Amarelo dourado brilhante. Aroma intenso, com boa complexidade e elegância, madeira de ótima qualidade na frente, baunilha, fruta madura, abacaxi, abricó, pêssego, flores brancas. Paladar de bom corpo, untuoso, macio com 14% de álcool, muito longo, com finesse. Ainda o melhor branco do Uruguai. 91/100

 

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 Marsanne 2006, De Lucca, Canelones-Uruguai (Premium, tel.: 31 3282-1588, R$ 40). Amarelo palha com reflexos dourados, brilhante. Aroma elegante, mineral, com toques de flores brancas, jasmim, anis, frutas cristalizadas, damasco. Paladar macio, quase untuoso, típico desta casta francesa do vale do Rhône, 13,8% de álcool, acidez moderada, longo, gruda na boca. Um vinho diferente e elegante. 86/100

 

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 Monte Vide Eu 2005, Bouza, Montevideo-Uruguai (Decanter, tel.: 47 3326-0111, R$ 241,50). Elaborado com 55% de Tannat, 25% de Merlot e 20% de Tempranillo. Vermelho rubi escuro com reflexos violáceos. Aroma intenso, elegante, tudo muito bem integrado, fruta madura, especiarias doces, frescor balsâmico, toque lácteo, madeira na medida. Paladar de bom corpo, sem exageros, acidez correta, taninos muito finos (muito acima da média dos cortes com Tannat), 14% de álcool, boa persistência. Em termos de equilíbrio e elegância este vinho representa um avanço para a enologia uruguaia. 91/100

 

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Tannat A8 Parcela Única 2005, Bouza, Montevideo-Uruguai (Decanter, tel.: 47 3326-0111, R$ 159,85). 100% Tannat de um vinhedo único, a parcela A8, amadurecido 15 meses em carvalho francês. Vermelho rubi escuro com reflexos violáceos. Aroma intenso e frescos, de fruta madura bem definida, geléias de ameixa, amora, tostados muito finos, café, alcaçuz, baunilha, ervas (menta), toque discreto de borracha queimado. Paladar encorpado, com boa extração, taninos volumosos, mas doces, finos, um veludo, 14,5% de álcool, acidez moderada, longo e elegante. 90/100

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 Albariño 2008, Bouza, Canelones-Uruguai (Decanter, tel.: 47 3326-0111, R$ 74,75). Fermentado 40% em barricas francesas. Amarelo palha claro com reflexos esverdeados. Aromas intensos com ótima tipicidade da casta, com frutas tropicais, maracujá, pêra, pêssegos, mel, flores brancas. Paladar leve, macio com , 14,5% de álcool, com ótima acidez, longo e elegante, com um toque de doçura. 87/100

 

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Rio Colorado 2004, De Lucca, Canelones-Uruguai (Premium, tel.: 31 3282-1588, R$ 135). Elaborado com Tannat 50%, Cabernet Sauvignon 30%, Merlot 20%. Vermelho claro entre rubi e granada. Aroma elegante e perfumado, muito particular e complexo, de frutas doces, especiarias, musgo, ervas. Paladar de médio corpo, com taninos muito finos, equilibrado com boa acidez, longo. Estilo velho mundo, estilo tradicional e elegante. 88/100

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Super-Premium Tannat 2006, Gimenez Mendez, Canelones-Uruguai (Hannover,  tel.: 51 3337-3890, R$ 215). 100% Tannat, amadurecido 12 meses em barricas de carvalho francês. Cor muito escura, violáceo retinto.  Aroma com muita fruta madura, compotas, amoras, ameixas, bastante madeira nova, tostados, baunilha, toque fumé, café, chocolate. Paladar concentrado, com taninos maduros, sérios, volumosos, acidez média-boa, longo, com boa profundidade. Ainda jovem, aquém de seu melhor, merece tempo em garrafa. 92/100 

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CataMayor Tannat Reserva 2006, Bodegas Castillo Viejo, San Jose-Uruguai (World Wine, tel.: 11 3383-7477, R$ 48). Amadurece 6 a 8 meses em barrica de carvalho americano. Vermelho rubi entre claro e escuro com reflexos violáceos. Aroma de frutas negras maduras, toques erbáceos, especiarias, baunilha. Paladar de médio corpo, taninos presentes, 13,5% de álcool,boa acidez 80/100

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CataMayor Viognier Reserva 2007, Bodegas Castillo Viejo, San Jose-Uruguai (World Wine, tel.: 11 3383-7477, R$ 44). Amarelo palha com reflexos dourados claros e brilhantes. Aromas intensos e frescos, de frutas maduras, maçã, pêra, abacaxi, flores brancas e chá de jasmin. Paladar leve e macio, com 13% de álcool, acidez moderada, equilibrado. 84/100

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 Reserve Collection Pinot Noir 2006, Marichal, Canelones-Uruguai (Wine Company, tel.: 41 3302-1300, R$ 52,70). Vermelho Granada claro. Aroma com boa tipicidade da casta, frutas vermelhas, groselha, amora, musgo, cogumelos, caramelo, tostados. Paladar leve, ligeiro, taninos doces, 14% de álcool, acidez moderada, equilibrado. 81/100

 

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Pizzorno Reserva Tannat 2004, Pizzorno, Canelones-Uruguai (Grand Cru, tel.: 11 3062-6388, R$ 63). Vermelho rubi entre escuro, com reflexos violáceos. Aroma intenso com boa integração de fruta e madeira, ameixa, amora, tostados baunilha, ervas frescas. Paladar de bom corpo, taninos macios, ainda jovens, 13% de álcool, boa acidez, boa persistência. 84/100

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 Arerunguá Tannat 2002, Carrau, Montevideo-Uruguai (Vinhos do Mundo, tel.: 51 3028-1998, R$ 59). Amadurece 18 meses em barricas francesas. Vermelho rubi muito escuro com reflexos na transição violáceo-granada. Aromas vincados de frutas negras e vermelhas, amoras, morangos, ameixa passa, especiarias, baunilha, tostados, frescor mentolado, couro novo. Paladar volumoso, com meio de boca largo, taninos presentes, 14,5% de álcool, longo, para guarda. Uma pechincha. 89/100

 

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Ysern Sauvignon Blanc Roble 2008, Bodegas Carrau, Carro Chapéu-Uruguai (Vinhos do Mundo, tel.: 51 3028-1998, R$ 26). Blend de regiões, Las Violetas e Cerro Chapéu. Amarelo palha claro com reflexos esverdeados, brilhante. Aromas intensos e de bom frescor, com cítricos, lima. Paladar com médio corpo, textura macia, nota-se uma boa extração, 13% de álcool, longo e com boa acidez, bom equilíbrio. 82/100

Marcelo Copello (mcopello@mardevinho.com.br)

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