04/06/2010 – “Suíça, um vasto mundo (parte 2)”

Por Marcelo Copello, do Valais-Suíça

Antes de voltarmos ao tema Suíça, uma nota importante. O Encontro Mistral 2010 acontece entre os dias 7 e 9 junho em São Paulo (no hotel Grang Hyatt) e no dia 10 no Rio de Janeiro (no Hotel Sheraton). A 5ª edição deste evento é absolutamente imperdível e reunirá um elenco estrelado de mais de 80 produtores de 15 países. Reservas e informações: (11) 3372 3400, atendimento@sofiacarvalhosa.com.br

 

Valais

Continuando nosso passeio pela Suíça, iniciado semana passada, chegamos à região do Valais.  Até a construção de túneis de estradas de ferro por volta de 1860 o Valais era isolado do mundo. Eram raros os acessos a menos de 2.000 metros de altitude. Com o advento das estradas de ferro a economia se abriu, a filoxera chegou, os vinhedos tiveram que ser renovados e novas variedades de uvas se desenvolveram. Hoje o Valais tem como atividades principais o turismo e a agricultura, através das frutas e do vinho.

A maior região vitivinícola da Suíça produz anualmente de cerca de 50 milhões de litros. Existem aqui cerca de 500 produtores/engarrafadores de vinho e os vinhedos estão fragmentados em 22 mil pequenas propriedades, a maioria de empresas familiares com menos de 2 hectares cada.  

Vinhedos – a primeira vista pensei que eu estava no Douro. A região é montanhosa, com alguns dos vinhedos mais altos da Europa, em encostas com inclinações que podem chegar a um gradiente de até 70%! Assim como no Douro há muitos terraços em terrenos de xisto.

Vinhedos em forma de terraços

O Valais comporta mais de 3.000km de paredes de pedra, o que torna caro o cultivo e difícil a mecanização. Dizem (eu não vi) que chegam a colher uvas de helicóptero. O que vi e me chamou a atenção são mini-trenzinhos de um único lugar, que correm sobre trilhos morro acima, para realizar a colheita nos vinhedos mais íngremes. Outra fato que me chamou a atenção foi ver vinhedos de altíssimas densidades, de até 11.000 plantas por hectare!

Muros de Xisto

Trenzinho para ajudar na colheita 

Trilhos vinhedo acima

 

Vinhedos de alta densidade, com até 11 mil plantas por hectare

 Solo – O Valais ocupa em parte o vale do rio Ródano (Rhône), que daqui segue para a França. É incrível a variedade de solos do Valais, muitos de alto valor para o vinho, como granito, cascalho, xisto e calcário.

Clima – faz mais calor aqui no verão do que imaginamos. Os verões são longos e secos, e noites frias aumentam amplitude térmica diária. Ventos quentes do sul ajudam a espantar as geadas e os fungos.

 

Visita a Provins Valais

A Provin Valais é o maior produtor e exportador de vinhos não só do Valais, mas de toda a Suíça. Sozinha a empresa responde por 10% da produção do país e 60% das exportações (para 35 países – incluindo o Brasil, representada pela Vitis Vinífera – www.vitisvinifera.com.br ).

Loja da Provins Valais

Fundada em 1930 esta cooperativa agrega mais de 5 mil viticultores, com 1,2 mil hectares de vinhedos. Como a maioria das cooperativas, em sua origem a palavra chave era volume, mas a Provins não parou no tempo e hoje é uma das empresas mais dinâmicas do país. Recentemente investiram R$ 32 milhões em uma nova unidade de vinificação e contrataram o consultor de Bordeaux Nicolas Vivas, que traz em seu currículo nomes como Château d´Yquem, Ch. Belair, Ch. Lagrange, além de trabalhos no Chile. Vivas é especialista (com livros publicados) em maturação fenólica. Na Provin ele introduziu novas técnicas de maceração pré-fermentativa, macerações mais longas, micro oxigenação e novos tipos de barricas. Hoje a Provins tem em seu catálogo mais de 100 rótulos, de 27 cepas. Quando lá estive degustei 27 vinhos, vejamos os destaques:

 

Peitt Arvigne de Fully 2008. Da linha Maître de Chais. Amarelho palha claro e brilhante, com reflexos esverdeados. Intenso e muito expressivo, elegante e bem delineado, cítrico, limão amarelo, melão, baunilha, flores brancas, mel, champignons, minerais. Paladar de médio bom corpo, de acidez muito boa, longo e fresco, toque de doçura aparece na boca (com cerca de 5 gramas de açúcar residual). Nota: 89 pontos

 

Heida du Valais 2008 Da linha Maître de Chais. Cor palha esverdeada. Aroma intenso, com flores brancas, acácia, pêra, cítricos, limão amarelo confit, toque mineral elegante. Paladar de bom corpo, com textura macia e ótima acidez alvarinhos. Nota: 88 pontos

 

Cornalin Du Valais Maitre de Chais 2007. Da linha Maître de Chais. Amadurece 15 meses em barricas. Rubi entre claro e escuro. Aroma intenso, com frutas vermelhas maduras, morango, alcaçuz, boa madeira, especiarias que lembram um pouco a Syrah. Paladar de bom corpo, seco, taninos presentes, boa acidez, longo. Nota: 86 pontos

 

Rouge d´Anfer 2007. Da linha Maître de Chais. Um corte de Syrah, Humagne Rouge e Diolinoir, com passagem de 8-12 meses em barricas. Rubi claro com reflexos granada. Nariz complexo e bem distinto, com frutas vermelhas, um toque picante diferente, que lembra zimbro, canela, cardamomo, frutas secas. Paladar de bom médio-corpo, taninos finos, elegante, acidez regular, fim de boca seco e elegante. Nota: 88 pontos

 

Vieilles Vignes 2006. Da linha Maître de Chais. Um corte de Marsanne, Amigne, Pinot Blanc e Heida. Amadurece 6 meses em barricas. Amarelo palha Claro esverdeado. Nariz complexo, com ótimo finesse, cítricos, mineral, especiarias picantes, mel, toque defumado, chocolate branco, maracujá, gengibre, baunilha, madeira.  Paladar untuoso, com certa doçura, de bom corpo, macio, com boa acidez, equilíbrio pendendo para a maciez, longo, fim de boca mineral, longo. Nota: 90 pontos

 

Johannisberg Du Valais Rhonegold 2008. Palha muito claro esverdeado. Nariz de média intensidade, mineral elegante, fruta delicada, pêra, melão, especiarias, amêndoas. Paladar leve e delicado, acidez moderada, macio, acidez de boa a moderada, longo, final mineral. Muito mais elegante que encorpado. Nota: 89 pontos

 

Domaine Du Chapitre 2006. Elaborado com Petitre Arvine, Amigne, Humagne Blance, amadurecidas por 14 meses em barricas. Palha brilhante com reflexos dourados. Nariz intenso e elegante, com fruta madura na frente, minerais ao fundo, flores brancas, intenso frescor e delicadeza, fruta bem delineada. Paladar de médio corpo, textura macia, boa acidez, bom finesse, longo com final fresco e fundo mineral. Nota: 91 pontos

 

Ermitage Les Chapelles 2005. 100% casta Ermitage ou Marsanne, com longa maceração pelicular. Amarelo palha brilhante com reflexos na transição entre esverdeados e dourados. Nariz intenso de fruta madura, frutas cristalizadas, melão maduro, pêra. Paladar denso, macio, acidez moderada, muito longo, gruda na boa, final elegante e mineral, amanteigado. Nota: 90 pontos

 

Marsanne Du Valais 2005. Da linha Maître de Chais. Amadurece 12 meses em barricas 30% novas. Amarelo dourado brilhante. Aroma de fruta madura na frente, ornada com finos minerais, toques amanteigados e de flores brancas. Paladar de médio bom corpo, um pouco mais concentrado que o anterior, untuoso, longo. Nota: 88 pontos

 

Brandamour 2005. Elaborado com 100% Pinot Gris ou Malvoisie. Dourado claro brilhante. Nariz intenso, denso, fruta muito madura, damasco, um leve toque de verniz que lembra os vinhos botrytizados, glicerina. Paladar quase doce, para sobremesas não muito açucaradas, acidez moderada, muito longo, final doce e com toque mineral muito elegante. Nota: 90 pontos

 

Amigne de Vétroz 2006. Da linha Maître de Chais. Fermentado e amadurecido em barricas. Amarelo dourado claro e brilhante. Nariz intenso com o mesmo toque agradável de verniz/botrytis do vinho anterior,. Só que mais intenso, damasco maduro, bom frescor. Paladar doce, largo no meio de boca, boa untuosidade. Nota: 89 pontos

 

Grains de Malice 2005. Da linha Maître de Chais. Fermentado e amadurecido 15 meses em barricas. Um corte de 90% Marsanne, 10 % Pinot Gris. Dourado brilhante claro. Aroma com botrytis bem notável, manteiga, mel, laranja e damasco. Paladar bastante doce, untuoso, muito longo. Compete com alguns Sauternes em qualidade. Nota: 91 pontos

 

Marcelo Copello (mcopello@mardevinho.com.br)

www.mardevinho.com.br