01/10/2010 – “O balé de Baco”
Por Marcelo Copello (texto publicado na revista Gosto número 13, e para este tema não poderia ser outro número)
“Connoisseur é um especialista que sabe tudo sobre alguma coisa e nada sobre qualquer outra coisa”, Ambrose Bierce.
O humor é por vezes uma forma de expressão artística mais eficaz do que o drama. O riso encanta e o choro espanta. É a teoria do “aprender brincando”. Um bom exemplo de crítica bem (ou mal) humorada na literatura é o “The Devil´s Dictionary”, livro do jornalista norte-americano Ambrose Bierce (citado acima), um clássico do sarcasmo.
No cinema a ironia atingiu o vinho em cheio em outro clássico: “Muralhas do Pavor” (Tales of Terror, EUA, 1962), dirigido Roger Corman e estrelado por Vincent Price e Peter Lorre. Podemos classificar este filme, baseado em contos do mestre Edgar Allan Poe, como “terrir”, terror para rir. A história se passa no século XIX e Montresor (Lorre) é um bêbado que acaba de ser expulso de uma taverna por falta de dinheiro. Vagando pelas ruas ele vê em um restaurante uma movimentação em torno de várias garrafas de vinho. Trata-se de nada menos que uma apresentação de Fortunato Luchesi (Price), o maior connoisseur de vinhos do mundo! Montresor (com intenção de beber bons vinhos “di-grátis”) desafia Luchesi para uma prova às cegas. Luchesi é a afetação em pessoa, um “poser” como acusa Montresor no filme, ou o que chamaríamos hoje de um “enochato”.
Quem degusta com freqüência acaba desenvolvendo alguns tiques característicos. Estes maneirismos já fazem parte do rico folclore do nobre fermentado. De discreta a espalhafatosa, passando por cômica, quantas vezes esta coreografia peculiar não foi satirizada? Pois este filme é o ápice desta zombaria, Price e Lorre protagonizam a mais hilariante cena de cinema já feita sobre vinhos.
Admitamos que pilhérias como esta têm um fundo de verdade, pois se o procedimento de degustar um vinho for exagerado pode realmente beirar o ridículo. O bom apreciador o executa com naturalidade e sem pedantismo.
Luchesi, com gestos pra lá de exagerados e ruidosos, toma micro goles de um taste vin, bochecha, inala ar, faz caretas e sentencia: “Pinot Noir, Borgonha, Clos de Vougeot 1838, passável…”. Todos aplaudem, “está correto!”. Montresor pede que encham bem sua taça e a seca em um só gole acertando: “Borgonha, Volnay, 1832, das melhores parcelas do vinhedo”… O desafio continua com os dois nomeando com precisão vinhos como “Chateau Margaux 1837”, que Luchesi diz ser “um pouco pesado para um Margaux”, e “Château Petit Vilage 1828” com o qual Montresor se deleita, antes de arrotar… Luchesi acusa Montresor de ser “pouco ortodoxo” em seu métodos, já que o correto seria seguir o ritual de mastigar, bochechar e aspirar, ao que Montresor replica: “Você faz do seu jeito e eu faço do meu”.
Jeitos, estilos e tiques não faltam aos afilhados Baco. Cito aqui um trecho de meu livro “Vinho & Algo Mais” (Editora Record, 2004): “A dança começa por girar o vinho na taça, um gesto que se torna tão natural que já me surpreendi muitas vezes fazendo redemoinhos em copos de água. Existem os giradores rápidos, lentos, rítmicos ou abruptos. Há os destrógiros e os sinistrógiros. Há os que seguram a taça pela haste e os que usam sua base. Aos neófitos sempre aconselho rodar a taça apoiada sobre uma mesa, evitando derramar bebida (não, em hipótese alguma gira-se a mesa…). Há os que usam não só a mão, mas todo o braço ou até todo o corpo, embora o mais simples seja usar apenas o pulso. Neste caso, usar a munheca é muito útil e não interfere em sua opção sexual. Alguns cheiram com a narina esquerda e depois com a direita. Outros, com o líquido ainda na boca, fazem biquinho para sugar ar e sentir os “aromas de boca”. Há os que são capazes de cuspir à distância”.
Cada degustador tende a desenvolver sua própria expressão corporal. Eu confesso que cometo alguns destes gestos pouco elegantes. Como dito no filme, “cada um faz do seu jeito”.
Marcelo Copello (mcopello@mardevinho.com.br)


