09/04/2010 – “Vinho & Tango”
Por Marcelo Copello
Poucas nações do planeta têm sua população, economia e cultura tão concentradas na capital, quanto a Argentina tem em Buenos Aires. Ao mesmo tempo, raros povos possuem uma imagem tão fortemente associada a uma música e dança quanto os argentinos ao Tango.
O mesmo raciocínio lembra que poucos países produtores estão tão estreitamente ligados a uma única casta, como a Argentina ao Malbec. Para fechar o triângulo “Buenos Aires-Tango-Malbec”, porque não estabelecer uma analogia entre Tango e Malbec? Proposta minha tese vou defendê-la!
O Tango
Declarado patrimônio da humanidade pela UNESCO em 2009 o Tango teve sua origens nos cabarés de Buenos Aires na década de 1880, onde era comum que fosse dançado por dois homens (daí a tradição de virar o rosto ao dançar). A aristocracia portenha só viria a se interessar pelo Tango na década de 1910, após seu sucesso em Paris.
O Tango é uma música sincopada em compasso binário. A “síncope” é uma nota tocada no tempo fraco que se prolonga até o tempo forte. Este efeito cria um deslocamento da acentuação ritmica e dá mais movimento à música.
O Tango é uma das raras músicas/danças folclóricas do planeta que é eminentemente triste. Como dança o Tango é “duro”, masculino, sem meneios femininos. No Tango a mulher é submissa, e suas letras falam justamente do macho culpando a mulher por suas dores de amor. Dramático e passional, o Tango exala sexualidade e agressividade.
Malbec
Com sua origem no sudoeste da França, onde é leva o nome de Côt ou Axerrois, a verdade é que a Malbec (com algumas exceções) nunca atingiu a grandeza lá. É na Argentina, por suas condições climáticas, que a Malbec chega ao esplendor. Um bom Malbec argentino tem cor escura, aromas de fruta negra madura, além de violetas, paladar encorpado e macio, com taninos doces, acidez moderada e alta graduação alcoólica.
Malbec e Tango
Assim como o Tango, o Malbec também é binário. Quem dita seu equilíbrio são tanino e álcool. A síncope que na música arrasta o tempo fraco até forte é a mesma que deixa um rastro de tanino na boca.
O álcool é a base estrutural de um vinho, assim como o ritmo é o alicerce da música. Desta forma o alto teor alcoólico típicos dos Malbecs eleva nossos batimentos cardíacos, como no ritmo sincopado do Tango.
Enquanto no Tango leveza e brilho são palavras que pouco se aplicam, no Malbec a acidez também é coadjuvante. Neste ponto podemos dizer que tanto Tango quanto Malbec são mais sombrios que brilhantes, mais lunares que solares.
Tango e Malbec têm suas origens ligadas à França e ambos são claramente masculinos. Porém, sob a agressividade repousa um toque de doçura. O Malbec traz tipicamente aromas florais, de violetas, e seu fim de boca chega a ser de extrema maciez, quase doce. Dos acordes marcados, quase brutos, do Tango, por vezes também emergem a doce melodia de violinos e temas de um amor que foi perdido, mas que um dia existiu.
O que ouvir e degustar?
O Tango teve duas “épocas de ouro”. A primeira com Carlos Gardel (1890-1935), nos anos 1920. A segunda com Ástor Piazzolla (1921-1992) a partir dos anos 1940, quando o Tango se renovou e ganhou influencias do Jazz e do Clássico.
Ouça na voz de Gardel: “La Cumparsita”, “Adiós muchachos”, “Mi Buenos Aires querido”, “Por una cabeza”, “El día que me quieras”. Enquanto estes clássicos rodam na vitrola gire na taça um tradicional Malbec Nicolas Catena.
De Piazzolla ouça tudo, principalmente “Libertango” e “Adiós Nonino”. Enquanto isso decante o Malbec Ícono, de Luigi Bosca, que exala a mesma paixão deste mestre do bandoneon.
Quem não tiver preconceitos com modernices deve ouvir um “Tango eletrônico”, com o grupo Gotan Project. Este ritmo acelerado pode vir a calhar quando o grau de álcool do Malbec se fizer sentir. Tente com um Malbec Yacochuya, cujo teor alcoólico ultrapassa os 16%!

