Apresentação – por Luís Ramos Lopes
Douro
Conheci Marcelo Copello no decorrer de um lançamento de vinhos portugueses em São Paulo, já lá vão uns anos largos. Na altura, o produtor que me convidou para estar presente na apresentação internacional dos seus vinhos, já me tinha alertado para algumas peculiaridades do jornalismo brasileiro de temática vinícola e gastronómica, para as quais eu não estava ainda preparado. Em particular, a enorme rivalidade e concorrência entre colegas do mesmo ofício, que levava (pelo menos na época, não sei se hoje ainda será assim) a que em qualquer jantar ou apresentação de vinhos se formassem aquilo que em Portugal se designa por “capelinhas”, ou seja, pequenos grupos isolados, unidos pelos mesmos interesses ou (pré)conceitos, e que praticamente não comunicam entre si.
E o produtor lá andava, bem nervoso, saltitando de grupo em grupo, procurando dispensar a todos uma atenção equitativa, de modo a não ficar mal com ninguém. Eu fiz como ele (mas sem o nervosismo, claro, não tinha ali nada a ganhar nem a perder…), procurando, como sempre faço, trocar impressões com os meus colegas jornalistas, partilhar experiências e, principalmente, conhecer melhor o mercado, em particular um mercado tão explosivo e fascinante para mim como é o mercado brasileiro.
Nesse primeiro contacto com os mídia do Brasil chamou-me desde logo a atenção a postura de Marcelo Copello. Não porque fosse o mais conhecedor, experiente ou famoso dos jornalistas presentes (ele era até bem jovem na altura) mas porque parecia ser o único capaz de circular de grupo para grupo, de “capelinha” para “capelinha”, com todo o à vontade, como um navio quebra gelo navegando pelo Antártico, partindo as placas geladas à medida que avança, deixando as águas livres atrás de si.
Logo percebi que Marcelo estava ali como eu, não devendo nada a ninguém, sem quaisquer amarras ou constrangimentos, com genuíno interesse em conhecer e provar novos vinhos, confiante nas suas capacidades e valor.
Uma década depois, Marcelo Copello continua jovem, mas bem mais conhecedor, experiente e famoso. E, acima de tudo, conservando aquilo que mais prezo num jornalista desta área: a sua total independência face aos grupos de interesse que, infelizmente, sempre gravitam em torno do vinho, seja no Brasil, Portugal ou no resto do mundo.
Tive, depois desse primeiro encontro, muitas ocasiões para rever Marcelo, nos dois lados do Atlântico. A dada altura começámos mesmo a trabalhar em conjunto, com a inauguração de uma Crónica do Brasil assinada por ele na Revista de Vinhos. Ao respeito e admiração profissional seguiu-se uma amizade que perdura. Gosto de pensar que terei contribuído, mesmo que pouco, para reforçar o apreço de Marcelo Copello pelos vinhos portugueses, afinal de contas, os vinhos do meu país.
Foi com prazer que tomei conhecimento que Marcelo iria escrever mais um livro, mas desta vez sobre duas emblemáticas e características regiões portuguesas, o Douro e o Minho. E muito honrado fiquei quando me convidou para fazer a apresentação desta sua nova obra.
Apesar de vizinhas, Douro e Minho são regiões completamente distintas, quase pólos opostos, na paisagem rural e urbana, nos vinhos que produzem e na gastronomia tradicional. Mas possuem algumas coisas em comum, nomeadamente uma história riquíssima, e o facto de os seus vinhos (Vinho do Porto à parte, pois tem grandeza de séculos) terem dado um tremendo salto qualitativo ao longo da última década.
Marcelo Copello coloca tudo isso em evidência, as terras e a história, as adegas e os vinhos, a gastronomia e as receitas, tudo envolto nos infinitos matizes da cultura portuguesa em geral e da vida nortenha em particular. É um livro de leitura fácil e leve, mas que oferece um enorme manancial de informação, rigorosa e sustentada. Para quem não conhece o Douro e o Minho, esta obra é um verdadeiro guia dos sentidos, único e precioso, ajudando a descobrir aquelas maravilhosas regiões de Portugal. Para quem já conhece o norte lusitano, o livro abre e propõe novos caminhos, muitos deles inesperados, levando-nos a ver e apreciar estas regiões através dos olhos e paladar de Marcelo Copello.
Os Sabores do Douro e Minho lê-se como quem saboreia, deliciado e em pequenos goles, uma taça de Vinho Verde Alvarinho ou um cálice de Porto Vintage. E isso não é dizer pouco…
Luís Ramos Lopes
Director da Revista de Vinhos

