Introdução do autor

 

Quinta do Crasto por entre as vinhas

 

Este livro mostra a riqueza cultural, histórica e gastronômica da alimentação de um povo. Mostra que os sabores do Douro e do Minho não pertencem mais apenas a quem vive, são patrimônio de todos nós, que temos boca e queremos usá-la.

 

Este livro conta histórias e “causos”, muitos pertencentes aos anais conhecidos e alguns pessoais meus. Este livro evidencia fatos esquecidos por alguns portugueses e pouco conhecidos dos brasileiros, como a magnitude da importância econômica do vinho para Portugal. 

 

O assunto do ano na mídia cultural brasileira é a comemoração dos 200 anos da chegada da família real portuguesa ao Brasil (1808-2008). Pouco se falou no entanto da importância histórica do vinho neste fato político. O Brasil atraiu a D. João VI para pois era uma potência econômica, mesmo após o fim do ciclo do ouro, e um mercado consumidor importante para produtos ingleses e para o principal item nas exportações portuguesas: o vinho. Este líquido delicioso movimentava e movimenta enormemente a política da terrinha.  

 

Um caso à parte no universo do português é o vinho do Porto, que veremos ser fruto de um trabalho insano, em torno de um rio outrora feroz. Este delicioso vinho é um ninho de normas e leis, algumas boas outras más, todas defendidas e atacadas politicamente. O Douro é a região vinícola no mundo mais regulamentada, regulada, controlada, certificada, cadastrada, demarcada, organizada, legislada, com a o maior número de institutos, órgãos, associações, comissões, câmeras, conselhos, clubes, consórcios, organismos, sociedades e confrariasTudo isso ao longo do tempo foi criado, adaptado, modificado, cancelado, recriado, ampliado, revisto, modificado em meio a guerras, disputas, condenações, banimentos, execuções, indicações, prisões, nomeações, deposições, revoluções, eleições

 

Este também é um livro que guarda em suas entrelinhas um delicioso equilíbrio. De um lado o verdor do Vinho Verde e do outro o Vinho do Porto, com sua cor vermelho escura, quase negra. Estamos diante da oposição original clássica do verde-vermelho, a relação água-fogo. Verde é equilíbrio, repouso, primavera e esperança. Vermelho é paixão, força, fogo, revolução, verão, o glamour do tapete vermelho, a cor da guerra e da provocação nas touradas. Veremos que esta simbologia se encaixa como uma luva nos estilos destes vinhos. Espero que o leitor a cada página, a cada taça de Vinho Verde e a cada Porto decantado, saboreie um pouco desta esperança-paixão.   

 

Na medida do possível o livro foi compartimentado em pequenos capítulos, pequenos goles e garfadas para tornar-se mais digestivo e de fácil leitura, para respeitar e merecer o tempo do leitor, uma honra para mim.

 

Obrigado e boa leitura!

Marcelo Copello