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Sobre Marcelo Copello  


GAZETA MERCANTIL - Caderno Fim de Semana - 07/12/2001

O PÃO QUE TOMOU CHUVA

por Marcelo Copello

É sabido que o organismo humano produz espontaneamente, durante a digestão, uma quantidade de álcool vital à sua sobrevivência, não sendo necessária a ingestão. Fato amplamente contrariado pela história da cultura. Até hoje não existiu uma única civilização, nem dentre as primitivas, nem dentre as evoluídas, que não tivesse produzido uma bebida alcoólica, quando não duas, quando não dez. Assim a maioria dos povos produzia e consumia, concomitantemente, mais de uma bebida, sendo a cerveja uma das mais antigas.

A origem da cerveja se confunde com a do pão, sendo impossível determinar com exatidão. Remonta a 7 ou 8 mil anos. Na Antigüidade, descobriuse que mastigando o trigo e deixando-o secar ao sol formavase uma massa que poderia ser guardada para ser consumida no inverno. Esta massa foi molhada por acaso e, por isso, fermentou naturalmente. A cerveja é, então, um pão que tomou chuva.

Para ter certeza da melhor maneira de tomar a loura gelada, conversei com dois técnicos, responsáveis pela fabricação de duas das melhores cervejas do Brasil: Humberto Sérgio Croce, da Bohemia, e Carlos Simões, da Bavária.

Copos: devem ser transparentes, de vidro fino, para que se possa apreciar o líquido dourado. O melhor formato é o ovalado e alongado, para reter os aromas e ajudar a boa formação da espuma, e com base e haste, para evitar que o líquido esquente com o contato das mãos. Gelar o copo é uma boa prática. Convém, contudo, molhar seu interior depois de gelado, assim as paredes ficarão lisas e deixarão o líquido descer macio.

Temperatura: nós, brasileiros, temos por hábito beber a cerveja gelada demais. Mas se a loura estiver 'estupidamente gelada', prejudicará tanto a formação da espuma, quanto irá adormecer as papilas gustativas. O ideal seria de 4ºC a 6ºC para as cervejas mais leves, como a Bavária Pilsen; de 6ºC a 8ºC para as tipo Pilsen Premium, como Skol, Brahma, Antárctica e Bavária Premium; de 8ºC a 10º C para as Super Premium, como a Bohemia; e de 10ºC a 12ºC para as marcas importadas de alta fermentação, como a belga Corsendonk.

Espuma: tomar cerveja sem colarinho é heresia. A alma desta bebida está representada em sua espuma. Dois dedos é o ideal para reter os aromas e evitar a liberação do gás.

Visual: avalia-se pureza, cristalinidade e coloração. Se está brilhante ou turva, se há partículas em suspensão. A cor vai de louríssima a preta.

Aroma: para avaliá-lo, agite o líquido no copo. Aproxime lentamente do nariz para sentir o odor numa distância maior e em seguida mais próximo. Os aromas característicos lembram malte e lúpulo, matérias-primas da fabricação da cervejas. Podem ser notados muitos outros, como frutas e caramelo.

Sabor: quanto mais jovem for consumida, melhor será seu sabor. Na boca, se verifica o equilíbrio, corpo, acidez, doçura, amargor e teor alcoólico, que devem ser harmônicos - o que chamamos de 'descer redondo'. O teor de gás deve passar uma sensação refrescante e picante na língua. O amargor, provocado pela adição do lúpulo ao mosto, deve ser perceptível, mas agradável.

Conservação: este é o problema das importadas. Cervejas viajam mal, sofrem com o calor e com o chacoalhar. As garrafas devem ser guardadas de pé, em lugar escuro e fresco, fora da geladeira. Depois de geladas, devem ser consumidas. Nunca as coloque direto no freezer, pois a violência do congelamento acabará com o ciclo da bebida.