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Mar de Vinho
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GAZETA MERCANTIL - Caderno Fim de Semana - 22/03/2002

SURPRESAS DO DOURO

por Marcelo Copello

Esta semana esteve em visita a São Paulo e ao Rio um grande nome do mundo do vinho: João Nicolau de Almeida, enólogo da casa Ramos Pinto e um dos responsáveis pela modernização dos vinhos do Douro. Aos 53 anos, João Nicolau tem um currículo invejável. Foi eleito "Homem do Ano" em 1998, pela revista norte americana "Wine & Spirits", selecionado entre os 40 maiores enólogos do mundo em 2001 no livro "Wine People", de Stephen Brooks (jornalista da publicação inglesa "Decanter"), e escolhido "Enólogo do Ano 2001" pelo "Guia de Vinhos Portugueses". É co-autor dos livros "Porto Vintage", "Receitas para Vinho do Porto" e "Enciclopédia dos Vinhos de Portugal".

Sua paixão é uma herança de família vinda do seu pai, João de Almeida, que por muitos anos trabalhou para a Casa Ferreira e foi o criador do primeiro e mais tradicional vinho de mesa do Douro, o Barca Velha. João Nicolau fez o liceu na cidade do Porto. Em seguida, na década de 1970, uma época em que a vitivinicultura portuguesa era totalmente artesanal e empírica, cursou enologia na Universidade de Bordeaux. De volta a Portugal, em 1976 entrou para a firma Ramos Pinto, cujo então proprietário era seu tio José Ramos Pinto Rosas.

Os antepassados de João Nicolau, Adriano e António Ramos Pinto, criaram a empresa em 1880. O alvo era o mercado sul-americano, mais especificamente o brasileiro. Bons de marketing, conseguiram logo fama para seus vinhos. Seus rótulos e cartazes fizeram história. Criados por artistas famosos da época, usavam temas hedonistas e mitológicos. Por aqui, o produto mais popular da empresa é o Porto Fine Ruby, conhecido como "O Beijo". Seu rótulo se tornou um ícone. Traz a ilustração dos rostos de um casal cujos lábios se aproximam, atraídos por uma taça de Porto, oferecida por um cupido.

Este ano foram importadas para o Brasil, exclusivamente pela Franco Suíça (tel. 11-5549-7599), cerca de 130 mil garrafas. Segundo João Nicolau, o objetivo é dobrar este número nos próximos anos. A produção total anual é de 1,7 milhão de garrafas, sendo 80% de Porto. Com a meta de atender à crescente demanda de mercados como o americano e o brasileiro, a empresa adquiriu recentemente novos vinhedos no Douro Superior para ampliar a produção de vinhos de mesa de 350 mil para 1 milhão de garrafas ao ano.

A Ramos Pinto é famosa por seus "Tawnys" velhos Quinta do Bom Retiro 20 anos e Quinta da Ervamoira 10 anos. Este último tem uma história interessante. A região do Douro é dividida em três zonas: o Baixo Corgo, o Alto Corgo e o Douro Superior. Enquanto as duas primeiras têm tradição vinícola antiquíssima, o Douro Superior não tem nenhuma. Apenas 5% de sua superfície é cultivada, pois a quantidade de chuvas na região é tão pequena que está no limite de sobrevivência da videira.

Em 1972, José R. P. Rosas, então proprietário da empresa, seguindo por uma estrada deserta no Douro Superior, chegou a um local paradisíaco, às margens do rio Côa. Foi paixão à primeira vista. Voltou ao local várias vezes, chegando a se disfarçar de pescador, até que conseguiu comprar o terreno, batizado de Santa Maria.

Em 1982, Suzanne Chantal, consagrada escritora, publicou sua obra-prima "Ervamoira", que narra a saga de uma família ligada ao vinho do Porto desde os tempos napoleônicos. O vinhedo retratado no romance se localiza justamente no improvável Douro Superior, junto à fronteira espanhola. Esta coincidência levou Rosas a batizar, em solenidade com a presença da própria Chantal, a propriedade de Quinta da Ervamoira.

É de lá que sai o Quinta da Ervamoira 10 anos, que provei. Clássico no gênero, tem cor aloirada, ainda com certos traços avermelhados de juventude, além de aroma intenso de ameixas, figos secos e, principalmente, nozes. Bastante equilibrado na acidez, tanicidade e doçura. Sai por cerca de R$ 170 a garrafa.

Também deste vinhedo vem uma das maiores criações de João Nicolau, o Duas Quintas Reserva. É uma mistura de uvas vindas de duas das melhores quintas da casa, a Ervamoira e a Quinta dos Bons Ares. Na primeira, de terrenos rochosos de baixa altitude e clima quente e seco, as uvas alcançam grande maturação e concentração, contribuindo com densidade à mistura. As uvas do segundo terreno, distante 30 quilômetros do primeiro, crescem em solo granítico e alto, adicionam aromas frescos e vivacidade à bebida.

O Duas Quintas Reserva 1995 que provei é composto de 66% Touriga Nacional, a mais nobre cepa da região, e 34% Tinta Barroca. Envelhecido em barris de carvalho novo por 18 meses, tem 13% de álcool. Sua cor apresenta belo tom de rubi escuro. No palato, é generoso, elegante e tem um toque picante. Os aromas são finos e complexos, com frutas vermelhas maduras como morango, cassis e ameixas, além de especiarias como noz-moscada e chocolate. Bastante equilibrado, com taninos macios, em harmonia, com boa acidez. Custa aproximadamente R$ 150. Ele e o Duas Quintas corrente (cerca de R$ 50 a unidade) são os primeiros vinhos de mesa da casa a chegarem ao Brasil.