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por Marcelo Copello
Esta semana esteve em visita a São Paulo e ao
Rio um grande nome do mundo do vinho: João Nicolau de Almeida,
enólogo da casa Ramos Pinto e um dos responsáveis
pela modernização dos vinhos do Douro. Aos 53 anos,
João Nicolau tem um currículo invejável. Foi
eleito "Homem do Ano" em 1998, pela revista norte americana
"Wine & Spirits", selecionado entre os 40 maiores
enólogos do mundo em 2001 no livro "Wine People",
de Stephen Brooks (jornalista da publicação inglesa
"Decanter"), e escolhido "Enólogo do Ano 2001"
pelo "Guia de Vinhos Portugueses". É co-autor dos
livros "Porto Vintage", "Receitas para Vinho do Porto"
e "Enciclopédia dos Vinhos de Portugal".
Sua paixão é uma herança de família
vinda do seu pai, João de Almeida, que por muitos anos trabalhou
para a Casa Ferreira e foi o criador do primeiro e mais tradicional
vinho de mesa do Douro, o Barca Velha. João Nicolau fez o
liceu na cidade do Porto. Em seguida, na década de 1970,
uma época em que a vitivinicultura portuguesa era totalmente
artesanal e empírica, cursou enologia na Universidade de
Bordeaux. De volta a Portugal, em 1976 entrou para a firma Ramos
Pinto, cujo então proprietário era seu tio José
Ramos Pinto Rosas.
Os antepassados de João Nicolau, Adriano e António
Ramos Pinto, criaram a empresa em 1880. O alvo era o mercado sul-americano,
mais especificamente o brasileiro. Bons de marketing, conseguiram
logo fama para seus vinhos. Seus rótulos e cartazes fizeram
história. Criados por artistas famosos da época, usavam
temas hedonistas e mitológicos. Por aqui, o produto mais
popular da empresa é o Porto Fine Ruby, conhecido como "O
Beijo". Seu rótulo se tornou um ícone. Traz a
ilustração dos rostos de um casal cujos lábios
se aproximam, atraídos por uma taça de Porto, oferecida
por um cupido.
Este ano foram importadas para o Brasil, exclusivamente
pela Franco Suíça (tel. 11-5549-7599), cerca de 130
mil garrafas. Segundo João Nicolau, o objetivo é dobrar
este número nos próximos anos. A produção
total anual é de 1,7 milhão de garrafas, sendo 80%
de Porto. Com a meta de atender à crescente demanda de mercados
como o americano e o brasileiro, a empresa adquiriu recentemente
novos vinhedos no Douro Superior para ampliar a produção
de vinhos de mesa de 350 mil para 1 milhão de garrafas ao
ano.
A Ramos Pinto é famosa por seus "Tawnys"
velhos Quinta do Bom Retiro 20 anos e Quinta da Ervamoira 10 anos.
Este último tem uma história interessante. A região
do Douro é dividida em três zonas: o Baixo Corgo, o
Alto Corgo e o Douro Superior. Enquanto as duas primeiras têm
tradição vinícola antiquíssima, o Douro
Superior não tem nenhuma. Apenas 5% de sua superfície
é cultivada, pois a quantidade de chuvas na região
é tão pequena que está no limite de sobrevivência
da videira.
Em 1972, José R. P. Rosas, então proprietário
da empresa, seguindo por uma estrada deserta no Douro Superior,
chegou a um local paradisíaco, às margens do rio Côa.
Foi paixão à primeira vista. Voltou ao local várias
vezes, chegando a se disfarçar de pescador, até que
conseguiu comprar o terreno, batizado de Santa Maria.
Em 1982, Suzanne Chantal, consagrada escritora, publicou
sua obra-prima "Ervamoira", que narra a saga de uma família
ligada ao vinho do Porto desde os tempos napoleônicos. O vinhedo
retratado no romance se localiza justamente no improvável
Douro Superior, junto à fronteira espanhola. Esta coincidência
levou Rosas a batizar, em solenidade com a presença da própria
Chantal, a propriedade de Quinta da Ervamoira.
É de lá que sai o Quinta da Ervamoira
10 anos, que provei. Clássico no gênero, tem cor aloirada,
ainda com certos traços avermelhados de juventude, além
de aroma intenso de ameixas, figos secos e, principalmente, nozes.
Bastante equilibrado na acidez, tanicidade e doçura. Sai
por cerca de R$ 170 a garrafa.
Também deste vinhedo vem uma das maiores criações
de João Nicolau, o Duas Quintas Reserva. É uma mistura
de uvas vindas de duas das melhores quintas da casa, a Ervamoira
e a Quinta dos Bons Ares. Na primeira, de terrenos rochosos de baixa
altitude e clima quente e seco, as uvas alcançam grande maturação
e concentração, contribuindo com densidade à
mistura. As uvas do segundo terreno, distante 30 quilômetros
do primeiro, crescem em solo granítico e alto, adicionam
aromas frescos e vivacidade à bebida.
O Duas Quintas Reserva 1995 que provei é composto
de 66% Touriga Nacional, a mais nobre cepa da região, e 34%
Tinta Barroca. Envelhecido em barris de carvalho novo por 18 meses,
tem 13% de álcool. Sua cor apresenta belo tom de rubi escuro.
No palato, é generoso, elegante e tem um toque picante. Os
aromas são finos e complexos, com frutas vermelhas maduras
como morango, cassis e ameixas, além de especiarias como
noz-moscada e chocolate. Bastante equilibrado, com taninos macios,
em harmonia, com boa acidez. Custa aproximadamente R$ 150. Ele e
o Duas Quintas corrente (cerca de R$ 50 a unidade) são os
primeiros vinhos de mesa da casa a chegarem ao Brasil.
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