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Mar de Vinho
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Sobre Marcelo Copello  


GAZETA MERCANTIL - Caderno Fim de Semana - 05/04/2002

O GÊNIO DA CEPA - PARTE I

por Marcelo Copello

"Depois de uma boa refeição, à um conhecedor de vinhos foram oferecidas uvas como sobremesa. 'Obrigado', disse ele, 'mas não tenho o hábito de tomar meu vinho em pílulas'." (Brillat-Savarin, gastrônomo francês, 1755-1826)

Vinho é simplesmente o produto da fermentação do mosto (ou suco de uva). À grosso modo, cada garrafa contém o equivalente ao suco de um quilo de uvas frescas, e cada parreira produz cerca de três quilos desta fruta. Mas até que ponto a uva, como matéria prima do vinho, influencia em sua qualidade final? Mesmo cultivadas em solos diferentes e processadas de maneiras das mais diversas, as cepas (também chamadas de castas, variedades, tipos ou subespécies de uvas) levam à bebida traços em comum. Como diria o gastrônomo francês do séc. XVI, Olivier de Sèvre: "O gênio do vinho está na cepa".

As castas podem ser classificadas de diversas maneiras. Quanto ao seu ciclo anual; se florescem mais cedo; se maturam mais tarde; quanto ao formato de suas folhas; quanto à resistência à pragas; quanto ao rendimento (se cada pé produz mais ou menos uvas); quanto à sua adaptação à invernos frios; se têm bagos maiores ou menores; cascas grossas ou finas; mais ou menos matéria colorante nas cascas; se têm caules mais ou menos resistentes, entre outros. Sobretudo, diferem em sua personalidade gustativa. Para entender melhor os vinhos, é importante, então, conhecer as diferentes cepas e as características que cada uma leva para a bebida. Existem centenas de variedades cultivadas no mundo inteiro. Dentre as brancas as de origem frandeca são as que mais se destacam. Listo algumas das mais importantes.

Chardonnay: a rainha das uvas brancas. Gera líquidos consistentes, ricos e complexos. Faz os grandes Borgonhas, como o Montrachet e o Chablis, e dá vida ao Champagne. Normalmente empresta cores douradas e aromas como maçã, melão, pêra, pêssego, abacaxi, limão, mel, manteiga e avelãs. É uma das poucas variedades brancas que se presta ao amadurecimento em barris de carvalho, quando ganha, então, aromas de baunilha. É tão exageradamente disseminada pelo mundo que já existe uma reação dos consumidores, chamada de ABC - "All But Chardonnay!" (tudo menos Chardonnay).

Sauvignon Blanc: com aromas herbáceos e vegetais, esta casta tem ganho espaço, roubando o mercado da Chardonnay nos últimos anos. É originária de Bordeaux e do Vale do Loire, França, onde faz o Sancerre e o Pouilly Fumé.

Sémillon: é a base dos brancos de Bordeaux, dando estrutura e longevidade aos vinhos. Normalmente é misturada à outras castas, pois dá corpo mas não tem muito perfume.

Gewürztraminer: os vinhos feitos com esta cepa sempre alcançam boas notas em degustações, por sua intensidade e diversidade aromática. Os mais famosos são os da Alsácia, França. Aromas florais refrescantes e excelente acidez são típicos desta uva. Produz desde líquidos secos até excelentes doces. É de cultivo difícil, no Brasil infelizmente não se dá muito bem.

Riesling: Uma das melhores variedades brancas do mundo. É reconhecida por seu aroma floral e de frutas, como maçã verde. Sua expressão máxima acontece na Alsácia e, sobretudo, na Alemanha. Usada também para fazer vinhos de sobremesa.

Moscato, Moscatel ou Muscat: não se trata de uma casta, mas de uma família. Há vários tipos, como o de Alexandria, de Lipari, de España, de Setúbal, Ottonel e assim por diante. Uvas aromáticas muito usadas em vinhos de sobremesa e espumantes, é a base do Asti Spumanti, do norte da Itália. No Brasil, é muito difundida e produz bons espumantes, tanto na região Sul, como no Nordeste.

Quando o vinho é composto de grande parte ou totalidade de uma variedade de uva, é chamado de "mono-varietal", ou simplesmente "varietal". É o caso da maioria das garrafas produzidas no "novo mundo" (EUA, Chile, Argentina, Austrália, África do Sul, Brasil etc). Por outro lado, se for produto de mistura de castas, é chamado de "corte" ou "assemblage". É o caso da maioria dos vinhos europeus, ou do "velho mundo". Trazem no rótulo apenas sua origem geográfica, ou denominação de origem, que é regida por leis que determinam quais cepas podem ser plantadas naquela região.

Um varietal não é superior nem inferior à uma assemblage. Alguns dos mais renomados vinhos do mundo, como o Château Latour e o Dom Pérignon, são mesclas. Outros, como o Pétrus e o La Romanée-Conti, derivam de uma só cepa. O motivo pelo qual se misturam castas, é obter equilíbrio e complexidade. Como cortes clássicos de brancos, podemos citar os Bordeaux, onde, tanto os secos quanto os maravilhosos doces de Sauternes, usam Sémillon, Sauvignon Blanc e Muscadelle. A primeira dá a estrutura; a segunda, o perfume frutado e herbáceo; e a terceira (que nem sempre é usada, por ser de pouca longevidade), o caráter intensamente aromático. Outro corte clássico é o do Champagne, onde os melhores são compostos de Chardonnay e Pinot Noir. A primeira empresta aromas frutados e a segunda, que é uma tinta de onde se extrai um vinho branco, concede estrutura ao espumante.

Na semana que vem abordaremos as variedades tintas, com suas características e cortes mais populares.