|
por Marcelo Copello
Um número crescente de produtores está
tomando conhecimento da importância das castas e das regiões
em que são cultivadas. Estão experimentando novas
variedades, novos cortes, cepas inéditas numa zona, ou recuperando
tipos de uvas supostamente perdidos, como no caso da Carmenère.
Da mesma maneira que a indústria impulsiona suas vendas ao
apresentar vinhos feitos com uma variedade de uva ou um corte, o
consumidor está atento aos nomes estampados nas garrafas
e nas possíveis harmonizações da bebida varietal
numa refeição. É um estimulo para que o enófilo
busque novidades.
Na semana passada, falei das uvas brancas. Agora, apresento
algumas das castas tintas mais importantes e suas características:
Cabernet Sauvignon: é chamada de "a rainha
das uvas tintas". Produz vinhos com concentração,
riqueza e profundidade de cor, aromas e sabor, além de grande
longevidade. É a mais usada em varietais. Chega a seu ápice
no Médoc, sub-região de Bordeaux, onde é a
alma de vinhos clássicos como o Château Margaux e o
Château Mouton Rothschild. Seus aromas típicos são
pimentão verde, frutas vermelhas, especiarias, tabaco, anis
e pimenta. Tem afinidade com o carvalho, onde costuma amadurecer
e adquirir aromas de baunilha. É uma cepa de fácil
cultivo; cresce no mundo todo.
Cabernet Franc: uma casta popular, tanto em monovarietais
como para cortes. Tipicamente usada em bebidas de pouco ou médio
corpo e com sabor de frutas vermelhas frescas (amoras, framboesa,
etc). Pode ter também aromas herbáceos. É mais
usada em cortes com a Cabernet Sauvignon para, digamos, amaciá-la,
pois é mais leve e possui aromas mais frutados. O vinho ícone
desta variedade é o Château Chevall Blanc, um dos maiores
do mundo, de Saint-Emilion, sub-região de Bordeaux.
Merlot: a popularidade desta cepa é crescente,
por ser menos tânica e de textura mais aveludada que a Cabernet
Sauvignon. Seus aromas típicos são cereja preta, chocolate,
café e herbáceos. Usada em cortes ou varietais de
grande sucesso como o lendário Pétrus e o supertoscano
LAparita. É a preferida dos americanos segundo recente
pesquisa realizada pela revista "Gourmet".
Pinot Noir: uva da Borgonha da qual se fazem todos
os seus tintos. É também a base do Champagne. Cereja
preta, amora, ameixa, especiarias, ervas e flores são seus
aromas típicos. Elegância e finesse são termos
comumente usados para os produtos desta cepa. Muito sensível
às alterações de solo e clima, pode variar
muito de vinho para vinho. É a uva camaleão.
Gamay: ficou famosa como a casta do Beaujolais Nouveau.
Produz líquidos leves, frescos, frutados e de baixo teor
alcoólico. Vinhos de boa acidez e para serem bebidos extremamente
jovens, assim que engarrafados. Costuma apresentar aroma típico
de banana, além de frutas vermelhas, como framboesa.
Sangiovese: a variedade mais importante da Itália,
onde é a base dos vinhos da Toscana, como o Chianti e Brunello
di Montalcino. Tem boa tanicidade e acidez, mas cor nem sempre intensa.
Aromas de especiarias, frutas vermelhas, como ameixa, e alcaçuz.
Nebbiolo: a grande uva do norte da Itália. Com
ela se faz o Barbaresco e o Barolo - "o vinho dos reis e o
rei dos vinhos", segundo Voltaire. Dá origem a líquidos
tânicos, alcoólicos, longevos, mas nem sempre com muita
cor. É pouco cultivada fora desta região.
Syrah ou Shiraz: gera vinhos ricos e complexos, como
o Hermitage e o Côte-Rôtie. Também usada no Châteauneuf-du-Pape.
Aromas típicos de pimenta, especiarias, cereja preta, couro
e nozes torradas. Se tornou muito popular no Novo Mundo, notadamente
na Austrália, onde produz grandes exemplares, como o Penfolds
Grange.
Malbec: uva originária de Bordeaux, mas que
hoje é a bandeira Argentina em vinho. Produz bebidas encorpadas,
alcoólicas, frutadas, com bastante cor e acidez.
Carmenère: esta casta tem uma história
interessante. Original de Bordeaux, por conta de pragas foi praticamente
extinta por lá, há mais de um século. Há
alguns anos foram descobertos pés desta variedade perdidos
em meio a vinhedos chilenos. Hoje, Carmenère é quase
como uma marca registrada deste país. Origina bebidas de
textura aveludada, cor profunda e aromas herbáceos, lembrando
um pouco a Merlot.
Tempranillo: a grande uva espanhola. Base dos Riojas
clássicos, que são vinhos de grande qualidade, longevos
e boa intensidade aromática.
Touriga Nacional: principal casta portuguesa, originária
do Douro e base do vinho do Porto e de grandes vinhos de mesa da
região, como o Barca Velha.
No campos dos vinhos de corte ou "assemblage",
existem algumas fórmulas clássicas. A mais conhecida
é o "corte bordalês", no qual Cabernet Sauvignon,
Merlot e Cabernet Franc se complementam. A primeira dá a
estrutura e a longevidade; a segunda, a textura macia; e a terceira,
o caráter frutado. Outra combinação clássica
de castas acontece em Châteauneuf-du-Pape. Os vinhos desta
região do sul da França são misturas de até
13 tipos de uvas, entre tintas e brancas, compondo uma verdadeira
sinfonia, em que cada casta soa como um instrumento. São
inesgotáveis os exemplos e as possibilidades de assemblages.
Assim, nunca faltarão novidades na infinita diversidade que
só o vinho pode proporcionar.
|