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Sobre Marcelo Copello  


GAZETA MERCANTIL - Caderno Fim de Semana - 12/04/2002

O GÊNIO DA CEPA - PARTE II

por Marcelo Copello

Um número crescente de produtores está tomando conhecimento da importância das castas e das regiões em que são cultivadas. Estão experimentando novas variedades, novos cortes, cepas inéditas numa zona, ou recuperando tipos de uvas supostamente perdidos, como no caso da Carmenère. Da mesma maneira que a indústria impulsiona suas vendas ao apresentar vinhos feitos com uma variedade de uva ou um corte, o consumidor está atento aos nomes estampados nas garrafas e nas possíveis harmonizações da bebida varietal numa refeição. É um estimulo para que o enófilo busque novidades.

Na semana passada, falei das uvas brancas. Agora, apresento algumas das castas tintas mais importantes e suas características:

Cabernet Sauvignon: é chamada de "a rainha das uvas tintas". Produz vinhos com concentração, riqueza e profundidade de cor, aromas e sabor, além de grande longevidade. É a mais usada em varietais. Chega a seu ápice no Médoc, sub-região de Bordeaux, onde é a alma de vinhos clássicos como o Château Margaux e o Château Mouton Rothschild. Seus aromas típicos são pimentão verde, frutas vermelhas, especiarias, tabaco, anis e pimenta. Tem afinidade com o carvalho, onde costuma amadurecer e adquirir aromas de baunilha. É uma cepa de fácil cultivo; cresce no mundo todo.

Cabernet Franc: uma casta popular, tanto em monovarietais como para cortes. Tipicamente usada em bebidas de pouco ou médio corpo e com sabor de frutas vermelhas frescas (amoras, framboesa, etc). Pode ter também aromas herbáceos. É mais usada em cortes com a Cabernet Sauvignon para, digamos, amaciá-la, pois é mais leve e possui aromas mais frutados. O vinho ícone desta variedade é o Château Chevall Blanc, um dos maiores do mundo, de Saint-Emilion, sub-região de Bordeaux.

Merlot: a popularidade desta cepa é crescente, por ser menos tânica e de textura mais aveludada que a Cabernet Sauvignon. Seus aromas típicos são cereja preta, chocolate, café e herbáceos. Usada em cortes ou varietais de grande sucesso como o lendário Pétrus e o supertoscano L’Aparita. É a preferida dos americanos segundo recente pesquisa realizada pela revista "Gourmet".

Pinot Noir: uva da Borgonha da qual se fazem todos os seus tintos. É também a base do Champagne. Cereja preta, amora, ameixa, especiarias, ervas e flores são seus aromas típicos. Elegância e finesse são termos comumente usados para os produtos desta cepa. Muito sensível às alterações de solo e clima, pode variar muito de vinho para vinho. É a uva camaleão.

Gamay: ficou famosa como a casta do Beaujolais Nouveau. Produz líquidos leves, frescos, frutados e de baixo teor alcoólico. Vinhos de boa acidez e para serem bebidos extremamente jovens, assim que engarrafados. Costuma apresentar aroma típico de banana, além de frutas vermelhas, como framboesa.

Sangiovese: a variedade mais importante da Itália, onde é a base dos vinhos da Toscana, como o Chianti e Brunello di Montalcino. Tem boa tanicidade e acidez, mas cor nem sempre intensa. Aromas de especiarias, frutas vermelhas, como ameixa, e alcaçuz.

Nebbiolo: a grande uva do norte da Itália. Com ela se faz o Barbaresco e o Barolo - "o vinho dos reis e o rei dos vinhos", segundo Voltaire. Dá origem a líquidos tânicos, alcoólicos, longevos, mas nem sempre com muita cor. É pouco cultivada fora desta região.

Syrah ou Shiraz: gera vinhos ricos e complexos, como o Hermitage e o Côte-Rôtie. Também usada no Châteauneuf-du-Pape. Aromas típicos de pimenta, especiarias, cereja preta, couro e nozes torradas. Se tornou muito popular no Novo Mundo, notadamente na Austrália, onde produz grandes exemplares, como o Penfolds Grange.

Malbec: uva originária de Bordeaux, mas que hoje é a bandeira Argentina em vinho. Produz bebidas encorpadas, alcoólicas, frutadas, com bastante cor e acidez.

Carmenère: esta casta tem uma história interessante. Original de Bordeaux, por conta de pragas foi praticamente extinta por lá, há mais de um século. Há alguns anos foram descobertos pés desta variedade perdidos em meio a vinhedos chilenos. Hoje, Carmenère é quase como uma marca registrada deste país. Origina bebidas de textura aveludada, cor profunda e aromas herbáceos, lembrando um pouco a Merlot.

Tempranillo: a grande uva espanhola. Base dos Riojas clássicos, que são vinhos de grande qualidade, longevos e boa intensidade aromática.

Touriga Nacional: principal casta portuguesa, originária do Douro e base do vinho do Porto e de grandes vinhos de mesa da região, como o Barca Velha.

No campos dos vinhos de corte ou "assemblage", existem algumas fórmulas clássicas. A mais conhecida é o "corte bordalês", no qual Cabernet Sauvignon, Merlot e Cabernet Franc se complementam. A primeira dá a estrutura e a longevidade; a segunda, a textura macia; e a terceira, o caráter frutado. Outra combinação clássica de castas acontece em Châteauneuf-du-Pape. Os vinhos desta região do sul da França são misturas de até 13 tipos de uvas, entre tintas e brancas, compondo uma verdadeira sinfonia, em que cada casta soa como um instrumento. São inesgotáveis os exemplos e as possibilidades de assemblages. Assim, nunca faltarão novidades na infinita diversidade que só o vinho pode proporcionar.