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Mar de Vinho
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GAZETA MERCANTIL - Caderno Fim de Semana - 19/04/2002

A FORÇA DO GIGANTE DOS VINHOS ARGENTINOS

por Marcelo Copello

Juan Canay, diretor de exportações da Bodegas Trapiche, em Mendoza, Argentina, esteve na semana passada em visita ao Rio de Janeiro. O executivo veio acompanhar pessoalmente a movimentação do mercado brasileiro e lançar três novos produtos.

Canay vê o país como um mercado estratégico para seus vinhos. Para ele o consumidor brasileiro, ao mesmo tempo que está se educando, se tornando cada vez mais exigente, também se encontra aberto a provar novidades. Este comportamento é propício ao vinho argentino, que alia qualidade, inovação e preço.

A Trapiche, representada no Brasil com exclusividade pela Impexco (0800 704- 8466), foi fundada em 1883, quando o político e banqueiro Tiburcio Venegas, então governador da província de Mendoza, decidiu deixar a vida pública e se tornar um dos pioneiros da indústria vitivinícola de seu país. Hoje a empresa pertence à Bodegas Peña Flor, verdadeiro gigante no mundo dos vinhos, segunda maior vinícola do mundo, perdendo apenas para a americana Ernest & Julio Gallo.

Anualmente, a Trapiche produz 10 milhões de garrafas, o que representa um faturamento de cerca de US$ 30 milhões. 60% da produção é exportada para 44 países. Entre os principais mercados estão Estados Unidos, Canadá, Irlanda, Japão, Suécia, Dinamarca e Brasil. Para cá são enviadas anualmente 360 mil garrafas, num volume de US$ 800 mil em exportações.

A Trapiche engrossa o volume da Argentina, que é a quinta produtora mundial de vinhos, com mais de 1 bilhão de litros ao ano. A maior parte das garrafas é de exemplares de baixa qualidade destinados ao consumo interno, panorama que vem mudando. Em 1990, cada argentino bebeu, em média, 55 litros de vinho. Já em 2000, "los hermanos" beberam 37 litros, demonstrando uma queda significativa de mais de 30% de consumo em dez anos. Estes números obrigaram os produtores argentinos a se modernizar para enfrentar o mercado externo, aumentando a qualidade. O esforço foi recompensado, as exportações se multiplicaram por dez nos últimos anos.

A Trapiche está na vanguarda deste movimento; foi a primeira vinícola argentina a exportar, tendo começado há 35 anos. O principal problema enfrentado pelos exportadores tem sido o de mudar a imagem dos vinhos, associando-os à qualidade.

Questionado sobre a crise Argentina, Canay diz que os efeitos ainda não foram sentidos nas exportações, mas o consumo interno caiu cerca de 15% nos primeiros meses deste ano, motivando ainda mais a busca do mercado externo.

Dos vinhos lançados, o primeiro é o Trapiche Septiembre Blanco, um corte de 80% Torrontes Riojano e 20% Sauvignon Blanc. É levemente frisante (com gás), de baixo teor alcoólico (10,8 %) e com alguma doçura. Tem cor amarelo palha pálido com reflexos esverdeados, enquanto os aromas sutis lembram flores como a acácia e frutas cítricas como o limão galego. Na boca, é fresco e picante na língua por seu teor gasoso, quase um refrigerante com álcool. Deve ser consumido bem gelado, próprio ao clima e espírito tropical. Além das garrafas tradicionais, vem em práticas embalagens de 250 mililitros com tampas de rosca no lugar da rolha. Uma sugestão do produtor, que deve realmente funcionar, é servi-lo com pratos japoneses como o sushi.

Visando o mercado de restaurantes, a Trapiche apresenta também sua linha Fond de Cave, que não será vendida em supermercados. O Fond de Cave Chardonnay e o Fond de Cave Malbec (R$ 43 cada) são varietais 100%, ambos da safra de 1999. O primeiro é um elegante branco amadurecido por 9 meses em barris, dos quais 50% de carvalho americano e 50% de carvalho francês. Sua cor é amarelo palha chegando a dourado com aromas de maçã vermelha, mel e especiarias como canela. Bem equilibrado na boca, com seus 13,5% de álcool se contrapondo a uma forte acidez, oferece bom corpo e um fim de boca aveludado. Ao contrário do Septiembre, o Fond de Cave Chardonnay é bom parceiro de uma receita de truta ou linguado por causa de sua textura amanteigada.

O outro exemplar da linha é feito com a casta Malbec, a estrela da vitivinicultura argentina. Não por acaso, pois esta cepa parece ter encontrado no solo seco e irrigado de Mendoza seu hábitat ideal. Modesta no seu país natal, a França, era conhecida por produzir tintos ralos na região de Bordeaux e outros um pouco ásperos nos vinhedos de Cahors, no sul do país. Já na Argentina origina vinhos de paladar frutado exuberante.

O Fond de Cave foi criado pelo enólogo da casa, Angel Mendoza, com a colaboração do craque Michel Roland, enólogo francês, consultor de prestigiosas vinícolas na Europa e Américas. O vinho amadurece 12 meses em barris, 80% dos quais de carvalho francês e 20% de carvalho americano. Sua cor é vermelho púrpura não muito escuro, oferece aromas de geléias de frutas como ameixa e cassis, além de carvalho, chocolate, baunilha e aromas de torrefação que lembram café. Na boca está bem equilibrado, com 13,6% de álcool, boa acidez típica da Malbec e taninos no ponto. O vinho está pronto para o consumo. A sugestão é um churrasco, já que a suculência da carne e os taninos do vinho se completariam. Ou, querendo entrar realmente no clima, sirva-o com empanadas.