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Mar de Vinho
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Sobre Marcelo Copello  


GAZETA MERCANTIL - Caderno Fim de Semana - 26/04/2002

ONDE OS VINHOS GANHAM ALMA

por Marcelo Copello

O sujeito trajava uniforme camuflado, trazia numa das mãos um fuzil automático e na outra um pastor alemão. Não hesitei quando pediu meu passaporte e solicitou que o acompanhasse a uma sala reservada no aeroporto de Malpensa (Milão, Itália). Lá revistou com calma cada objeto contido em minhas 4 malas. Não sei bem o que procurava, mas pareceu ter encontrado quando viu uma caixa de madeira. Intrigado com o objeto, mandou que eu o abri-se bem devagar enquanto segurava a arma e o cão. Viu então minha inocente e inseparável taça de degustação e me ouviu dizer que era um apaixonado por vinhos e que estava alí para conhecer melhor seu país.

Uma coisa que aprendi sobre os italianos: eles são tão passionais com vinho quanto com a Ferrari ou o futebol. Todos acham que o da sua terra é o melhor do país, portanto o melhor do mundo, assim como a comida da "mamma". E tentam nos convencer disso enfaticamente. Me perguntou: "Você sabe quais são os melhores vinhos da Itália, não sabe?" Senti que seria tudo muito mais fácil se eu conseguisse adivinhar de onde ele era. Respondi: "Certamente,são os da...", hesitei e disse enquanto tossia: "xtjzrqwpfklj". Depois fiz silêncio. Italiano detesta silêncio. Ele completou logo, empolgado: "Isso! Sardenha!". Estava tudo resolvido.

Historicamente as ilhas Sicília e Sardenha passaram por gregos, fenícios, cartaginenses, árabes, romanos, vândalos, godos e resistiram até aos turistas. Seus vinhos, assim como seus habitantes, sempre foram discriminados em toda a península. Têm fama de rústicos, pesadões e demasiadamente alcoólicos, frutos de uma região de clima mediterrâneo excessivamente quente e de técnicas rudimentares de vinificação. Os insulares, no entanto, se orgulham de dizer que a alma dos famosos rótulos do Norte vem de seus vinhos. O fato se refere a prática de muitos produtores de regiões mais nobres se utilizem de vinhos do Sul para dar mais cor, corpo e álcool aos seus, prática muitas vezes ilegal.

Esta realidade vem mudando nos últimos anos. No "10o Concorso Enologico Internazionale - Vinitaly 2002", o evento mais importante do vinho da Itália, ocorrido há duas semanas em Verona, os produtos das ilhas foram o grande destaque. Para quem acompanha a evolução destas regiões o fato não chega a ser uma surpresa. Há cerca de duas décadas eles vêm se modernizando, buscando soluções inovadoras e investindo em tecnologia. Muitos vinhos fogem das denominações de origem tradicionais para poder usar castas francesas como a Cabernet Sauvignon e Chardonay, em vinhos varietais ou misturando-as as castas locais.

O mercado brasileiro dispõe de boa oferta de vinhos das duas ilhas italianas. Entre eles, estão os conceituados Cerasuolo di Vittoria, Azienda Agricola Cos, Regaleali, Tasca d'Almerita e o Marsala Vechio Samperi, Marco De Bartoli, trazidos pela Expand, e o Mille e Una Notte, Donnafugata, importado pela World Wine. A seguir relaciono outros, de igual qualidade, que degustei especialmente para este artigo:

Nero d´Avola Terra delle Sirene 1998, IGT Sicília, Azienda Agrícola Zenner. Trazido pela Mistral (tel.: 11 3285-1422, US$27,75). É preciso tapar olhos, ouvidos e boca para não se encantar com o canto de sereia deste vinho. Cor rubi carregado, com reflexos violeta. Intenso no nariz, com muita ameixa, amora, baunilha e defumado. Sabor pleno, com taninos tinindo, suportando seus 13,5% de álcool. Boa persistência. Muito bom.

Terre Brune 1995, DOC Carignano Del Sulcis, Cantina Sociale di Santadi Santadi. Mistral (US$49.50). Feito nas terras escuras ("terre brune") da comuna de Santandi, na Sardenha, onde o clima temperado é propício ao desenvolvimento da cepa Carignan, da qual é feito. Afinado em carvalho novo francês. Cor indo de rubi para granada, com aromas evoluídos e envolventes de frutos do bosque, madeira, vegetais (feno cortado e musgo), especiarias e couro. Na boca é muito fino, com agradável densidade, conquista pela sensação de corpo e equilíbrio. Taninos calibrados com os 13% de álcool. Excelente.

Val Cerasa 1998, DOC Etna Rosso, do produtor Bonaccorsi da Sicíilia. Mistral (US$29.75). Vinho de cor rubi com reflexos granada. Um corte das castas locais Nerello Mascalese (80%) e Nerello Mantellato, plantadas em terreno vulcânico de altitude (800 metros), nas proximidades do Etna. Sutil no nariz, com muitas especiarias, como pimenta do reino, frutas vermelhas maduras e terra molhada. Consistente e com taninos presentes, mas agradáveis. Pode ser bebido agora ou guardado por uns 3 anos, quando deve estar ainda melhor. Muito bom.

Turriga 1997, Isola dei Nuraghi, Azienda Agrícola Argiolas. Da Vino di Vino (tel.: 11 3856-8722, R$165,00). Um clássico da enologia Sarda, colecionador de prêmios. É um vinho soberbo, resultado de um corte de 85% Cannonau, 15% Malvasia Nera, Carignano e Bovale Sardo. Rubi escuro com os primeiros reflexos alaranjados com bastante tabaco, ameixa e minerais nos aromas. No palato é rico, consistente, com taninos mastigáveis e 12,5% de álcool. Final longo e agradável. Excelente.

Perdera 2000, DOC Mônica di Sardegna, do produtor Argiolas. Vino di Vino (R$38,00). Mônica é o simpático nome de uma das uvas locais. O vinho revela aromas minerais além de frutas vermelho-escuras, como cereja preta. De corpo médio, com taninos bem balanceados com sua acidez e seus 12,5% de álcool. Bom custo-benefício. Para beber agora ou no próximo ano.

Tancredi 1998, DOC Contessa Entellina, da Tenuta di Donnafugata da Sicília. World Wine (tel.: 11 3315-7477, R$65,00). Este é um exemplo de mistura de castas locais (Nero d´Avola), com estrangeiras (Cabernet Sauvignon). De cor rubi, com aromas frutados lembrando geléia de amoras e discreto carvalho. Corpo médio e boa maciez, com 13% de álcool e taninos leves. Pronto para beber ou guardar por 1 ou 2 anos. Muito bom.

Ben Ryé 1999, Passito di Pantelleria, da Tenuta di Donnafugata da Sicília. World Wine (R$65,00 a garrafa de 375ml). Pantelleria é uma pequena ilha situada ao sul da Sicília. Nasceu de uma erupção vulcânica há cerca de 300 mil anos. Seus vinhedos, plantados em solo vulcânico, são aquecidos por ventos vindos do Saara. Esta peculiaridade favorece o maior amadurecimento dos cachos da cepa Moscato d'Alessandria, que são colhidas e postas a secar ao sol até virarem passas. O resultado é um vinho de perfume intenso e delicado, alcoólico e naturalmente doce. O Ben Ryé é untuoso, bastante doce, quente (14,5% de álcool) e com fragrância de pêssegos em calda. Muito bom.

Baione 1996, DOC Cannonau di Sardegna, Cantina Trexenta. World Wine (R$45,00). Vinho de cor granada com reflexos alaranjados, entre claro e escuro. Aromas de média intensidade, lembrando musgo, frutas vermelhas com um toque de alcaçuz. Na boca é bem bastante macio, dando a impressão de ter mais que seus 13% de álcool. Tem final agradável com leve amargor.

Nero D'Avola Duca di Castelmonte 1999, Indicação Geográfica Típica (IGT) Sicília. Prima Línea (tel.: 11 4702-6095, R$52,50). Rubi entre claro e escuro, com aroma intenso de fruta madura, com muita framboesa e groselha. Teve breve estágio em carvalho, que não é percebido. Seus 14% de álcool o tornam quente e macio. Pronto para consumo, tem, no entanto, estrutura para evoluir.

Cabernet Sauvignon Duca di Castelmone 1998, D.O.C. Delia Nivolelli, Sicilia. Prima Línea (R$48,00). Um varietal 100% da casta francesa, já universal. Cor granada não muito escura, com sinais de evolução. Intensidade média no nariz, com aromas de frutos vermelhos, com leve toque de carvalho, traço de seus 4 meses de afinamento em barris. De médio corpo e com taninos macios e teor alcoólico de 12,5%. Bebe-se com prazer, bom para o dia-a-dia.

Don Antônio 1999, Nero d´Avola, IGT Sicília, produzido por Antônio Morgante. Expand (tel.: 11 4613-3333, US$40.00). Um opulento tinto, de cor escura. Um exemplo de como a cepa siciliana Nero d´Avola pode se adaptar ao gosto internacional. Complexo nos aromas, com bastante carvalho (francês), muitas frutas e especiarias (canela), alcaçuz e defumado. Na boca é suculento, quente (14% de álcool) e encorpado. Com um final tânico agradável. Vinho de guarda, pode evoluir ainda muito. Excelente.