|
por Marcelo Copello
O sujeito trajava uniforme camuflado, trazia numa das
mãos um fuzil automático e na outra um pastor alemão.
Não hesitei quando pediu meu passaporte e solicitou que o
acompanhasse a uma sala reservada no aeroporto de Malpensa (Milão,
Itália). Lá revistou com calma cada objeto contido
em minhas 4 malas. Não sei bem o que procurava, mas pareceu
ter encontrado quando viu uma caixa de madeira. Intrigado com o
objeto, mandou que eu o abri-se bem devagar enquanto segurava a
arma e o cão. Viu então minha inocente e inseparável
taça de degustação e me ouviu dizer que era
um apaixonado por vinhos e que estava alí para conhecer melhor
seu país.
Uma coisa que aprendi sobre os italianos: eles são
tão passionais com vinho quanto com a Ferrari ou o futebol.
Todos acham que o da sua terra é o melhor do país,
portanto o melhor do mundo, assim como a comida da "mamma".
E tentam nos convencer disso enfaticamente. Me perguntou: "Você
sabe quais são os melhores vinhos da Itália, não
sabe?" Senti que seria tudo muito mais fácil se eu conseguisse
adivinhar de onde ele era. Respondi: "Certamente,são
os da...", hesitei e disse enquanto tossia: "xtjzrqwpfklj".
Depois fiz silêncio. Italiano detesta silêncio. Ele
completou logo, empolgado: "Isso! Sardenha!". Estava tudo
resolvido.
Historicamente as ilhas Sicília e Sardenha passaram
por gregos, fenícios, cartaginenses, árabes, romanos,
vândalos, godos e resistiram até aos turistas. Seus
vinhos, assim como seus habitantes, sempre foram discriminados em
toda a península. Têm fama de rústicos, pesadões
e demasiadamente alcoólicos, frutos de uma região
de clima mediterrâneo excessivamente quente e de técnicas
rudimentares de vinificação. Os insulares, no entanto,
se orgulham de dizer que a alma dos famosos rótulos do Norte
vem de seus vinhos. O fato se refere a prática de muitos
produtores de regiões mais nobres se utilizem de vinhos do
Sul para dar mais cor, corpo e álcool aos seus, prática
muitas vezes ilegal.
Esta realidade vem mudando nos últimos anos.
No "10o Concorso Enologico Internazionale - Vinitaly 2002",
o evento mais importante do vinho da Itália, ocorrido há
duas semanas em Verona, os produtos das ilhas foram o grande destaque.
Para quem acompanha a evolução destas regiões
o fato não chega a ser uma surpresa. Há cerca de duas
décadas eles vêm se modernizando, buscando soluções
inovadoras e investindo em tecnologia. Muitos vinhos fogem das denominações
de origem tradicionais para poder usar castas francesas como a Cabernet
Sauvignon e Chardonay, em vinhos varietais ou misturando-as as castas
locais.
O mercado brasileiro dispõe de boa oferta de
vinhos das duas ilhas italianas. Entre eles, estão os conceituados
Cerasuolo di Vittoria, Azienda Agricola Cos, Regaleali, Tasca d'Almerita
e o Marsala Vechio Samperi, Marco De Bartoli, trazidos pela Expand,
e o Mille e Una Notte, Donnafugata, importado pela World Wine. A
seguir relaciono outros, de igual qualidade, que degustei especialmente
para este artigo:
Nero d´Avola Terra delle Sirene 1998, IGT Sicília,
Azienda Agrícola Zenner. Trazido pela Mistral (tel.: 11 3285-1422,
US$27,75). É preciso tapar olhos, ouvidos e boca para não
se encantar com o canto de sereia deste vinho. Cor rubi carregado,
com reflexos violeta. Intenso no nariz, com muita ameixa, amora,
baunilha e defumado. Sabor pleno, com taninos tinindo, suportando
seus 13,5% de álcool. Boa persistência. Muito bom.
Terre Brune 1995, DOC Carignano Del Sulcis, Cantina
Sociale di Santadi Santadi. Mistral (US$49.50). Feito nas terras
escuras ("terre brune") da comuna de Santandi, na Sardenha,
onde o clima temperado é propício ao desenvolvimento
da cepa Carignan, da qual é feito. Afinado em carvalho novo
francês. Cor indo de rubi para granada, com aromas evoluídos
e envolventes de frutos do bosque, madeira, vegetais (feno cortado
e musgo), especiarias e couro. Na boca é muito fino, com
agradável densidade, conquista pela sensação
de corpo e equilíbrio. Taninos calibrados com os 13% de álcool.
Excelente.
Val Cerasa 1998, DOC Etna Rosso, do produtor Bonaccorsi
da Sicíilia. Mistral (US$29.75). Vinho de cor rubi com reflexos
granada. Um corte das castas locais Nerello Mascalese (80%) e Nerello
Mantellato, plantadas em terreno vulcânico de altitude (800
metros), nas proximidades do Etna. Sutil no nariz, com muitas especiarias,
como pimenta do reino, frutas vermelhas maduras e terra molhada.
Consistente e com taninos presentes, mas agradáveis. Pode
ser bebido agora ou guardado por uns 3 anos, quando deve estar ainda
melhor. Muito bom.
Turriga 1997, Isola dei Nuraghi, Azienda Agrícola
Argiolas. Da Vino di Vino (tel.: 11 3856-8722, R$165,00). Um clássico
da enologia Sarda, colecionador de prêmios. É um vinho
soberbo, resultado de um corte de 85% Cannonau, 15% Malvasia Nera,
Carignano e Bovale Sardo. Rubi escuro com os primeiros reflexos
alaranjados com bastante tabaco, ameixa e minerais nos aromas. No
palato é rico, consistente, com taninos mastigáveis
e 12,5% de álcool. Final longo e agradável. Excelente.
Perdera 2000, DOC Mônica di Sardegna, do produtor
Argiolas. Vino di Vino (R$38,00). Mônica é o simpático
nome de uma das uvas locais. O vinho revela aromas minerais além
de frutas vermelho-escuras, como cereja preta. De corpo médio,
com taninos bem balanceados com sua acidez e seus 12,5% de álcool.
Bom custo-benefício. Para beber agora ou no próximo
ano.
Tancredi 1998, DOC Contessa Entellina, da Tenuta di
Donnafugata da Sicília. World Wine (tel.: 11 3315-7477, R$65,00).
Este é um exemplo de mistura de castas locais (Nero d´Avola),
com estrangeiras (Cabernet Sauvignon). De cor rubi, com aromas frutados
lembrando geléia de amoras e discreto carvalho. Corpo médio
e boa maciez, com 13% de álcool e taninos leves. Pronto para
beber ou guardar por 1 ou 2 anos. Muito bom.
Ben Ryé 1999, Passito di Pantelleria, da Tenuta
di Donnafugata da Sicília. World Wine (R$65,00 a garrafa
de 375ml). Pantelleria é uma pequena ilha situada ao sul
da Sicília. Nasceu de uma erupção vulcânica
há cerca de 300 mil anos. Seus vinhedos, plantados em solo
vulcânico, são aquecidos por ventos vindos do Saara.
Esta peculiaridade favorece o maior amadurecimento dos cachos da
cepa Moscato d'Alessandria, que são colhidas e postas a secar
ao sol até virarem passas. O resultado é um vinho
de perfume intenso e delicado, alcoólico e naturalmente doce.
O Ben Ryé é untuoso, bastante doce, quente (14,5%
de álcool) e com fragrância de pêssegos em calda.
Muito bom.
Baione 1996, DOC Cannonau di Sardegna, Cantina Trexenta.
World Wine (R$45,00). Vinho de cor granada com reflexos alaranjados,
entre claro e escuro. Aromas de média intensidade, lembrando
musgo, frutas vermelhas com um toque de alcaçuz. Na boca
é bem bastante macio, dando a impressão de ter mais
que seus 13% de álcool. Tem final agradável com leve
amargor.
Nero D'Avola Duca di Castelmonte 1999, Indicação
Geográfica Típica (IGT) Sicília. Prima Línea
(tel.: 11 4702-6095, R$52,50). Rubi entre claro e escuro, com aroma
intenso de fruta madura, com muita framboesa e groselha. Teve breve
estágio em carvalho, que não é percebido. Seus
14% de álcool o tornam quente e macio. Pronto para consumo,
tem, no entanto, estrutura para evoluir.
Cabernet Sauvignon Duca di Castelmone 1998, D.O.C.
Delia Nivolelli, Sicilia. Prima Línea (R$48,00). Um varietal
100% da casta francesa, já universal. Cor granada não
muito escura, com sinais de evolução. Intensidade
média no nariz, com aromas de frutos vermelhos, com leve
toque de carvalho, traço de seus 4 meses de afinamento em
barris. De médio corpo e com taninos macios e teor alcoólico
de 12,5%. Bebe-se com prazer, bom para o dia-a-dia.
Don Antônio 1999, Nero d´Avola, IGT Sicília,
produzido por Antônio Morgante. Expand (tel.: 11 4613-3333,
US$40.00). Um opulento tinto, de cor escura. Um exemplo de como
a cepa siciliana Nero d´Avola pode se adaptar ao gosto internacional.
Complexo nos aromas, com bastante carvalho (francês), muitas
frutas e especiarias (canela), alcaçuz e defumado. Na boca
é suculento, quente (14% de álcool) e encorpado. Com
um final tânico agradável. Vinho de guarda, pode evoluir
ainda muito. Excelente.
|