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Mar de Vinho
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GAZETA MERCANTIL - Caderno Fim de Semana - 17/05/2002

OS MESTRES DO VINHO

por Marcelo Copello

A Vinexpand 2002, feira promovida pela importadora Expand Group, reuniu semana passada mais de 50 produtores de todo o mundo e percorreu 6 capitais brasileiras. O evento trouxe ilustres personagens, nos brindando com muito mais do que excelentes vinhos, mas também com sua sabedoria e carisma, numa experiência singular. Demonstraram também gande interesse pelo mercado brasileiro, em franca ascensão.

Foto: Magalí GacekO melhor exemplo disto foi uma simpática senhora francesa de 77 anos de juventude. Madame May-Eliane de Lencquesaing é a proprietária do Château Pichon Longueville Comtesse de Lalande, ou simplesmente, Pichon-Lalande. Madame, que adorou nossa caipirinha, mantém uma tradição de mais de 200 anos de mulheres no comando deste Château. Seus domínios produzem anualmente 450.000 garrafas, sendo a metade de seu vinho principal. Para o Brasil são exportadas cerca de 15 mil garrafas ao ano, onde 4 mil são de Pichon-Lalande.

Segundo Madame May-Eliane, a filosofia do Château é manter uma tradição aprendida há gerações. Fazer vinhos que tragam em seu gosto, sua origem e sua história. Questionada se os Bordeaux são melhores hoje ou no passado, explicou: "em grandes anos, quando o clima ajuda e tudo é perfeito, os vinhos que fazemos hoje são tão bons quanto os das safras clássicas do passado. São vinhos de terroir, que refletem o solo de onde vieram, e este não mudou. A diferença está nos anos fracos. Enquanto no passado praticamente perdia-se toda a produção, hoje podemos ter bons resultados mesmo em anos não tão bons. Nosso Château agregou, com o passar do tempo, diversas técnicas que possibilitaram este avanço. Por exemplo: antigamente, colhia-se antes da maturação ideal. A podridão podia atacar rapidamente as uvas maduras. Algumas safras do passado chegavam a produzir vinhos com apenas 9% de álcool, impróprios para a comercialização. Hoje, através de análise química é possível determinar o momento ideal para a colheita. Além disso, novas técnicas de poda permitem produzir cachos menores e mais espaçados entre si, com uma melhor exposição ao sol. Tudo isso aliado outras técnicas hoje conhecidas permite manter a qualidade do vinho mesmo nos anos inferiores".

Sobre a chegada do "gosto Parker" (vinhos pesados e com muito paladar de carvalho) à Bordeaux, Madame é enfática: "Está acontecendo uma revolução em Bordeaux. Alguns produtores buscam fama rápida. Preferem investir em marketing, em barris de carvalho e se adaptar ao padrão internacional. Estão cada vez mais com um olho no vinhedo e outro no mercado. Fazem vinhos de sedução rápida, que não resistem ao tempo, senhor de todas as verdades".

Este espírito feminino e de personalidade forte se reflete plenamente em seus vinhos. O Pichon-Lalande 1997 que provei é uma mescla de 45% Cabernet Sauvignon, 35% Merlot, 12% Cabernet Franc e 8% Petit-Verdot. O alto percentual de Merlot dá o toque feminino. A cor é de um belíssimo rubi, entre claro e escuro. Muito delicado e refinado no nariz, com aromas de framboesas e amoras frescas além de minerais. No palato tem médio corpo, com taninos agradáveis. Um vinho para se beber agora.

Foto: Magalí GacekOutro personagem que marcou o evento foi Jacopo Biondi Santi. Um perfeccionista que cuida de cada detalhe de seus vinhos, chegando a desenhar pessoalmente seus rótulos e garrafas. Bem articulado e de figura imponente, ele representa a sexta geração de um nome que entrou para a história da vitivinicultura italiana. Na primeira metade de século XIX, Clemente Santi, decidiu produzir um vinho de guarda, bem diferente do Chianti que se produzia na Toscana. Pesquisou e desenvolveu diferentes clones de uvas, baseando-se na principal cepa italiana, a Sangiovese. O resultado foi a Sangiovese Grosso ou Brunello, cujo clone levou o nome científico de BBS (Brunello Biondi Santi), em homenagem a seu criador. Esta cepa é bem diferente de uma Sangiovese normal, desde o formato das folhas e dos cachos, até a disposição dos bagos e a casca mais grossa, contendo mais tanino e cor. Quando a praga Phyloxera atacou em fins daquele século, o clone usado por vários produtores para o replantio enxertado foi a BBS. Nos anos 60 viria finalmente a ser criada a DOCG (denominação de origem controlada e garantida) Brunello de Montalcino, que prevê o uso de 100% desta casta em seus vinhos. Hoje existem 183 produtores fazendo este tipo de vinho.

A produção total de Jacopo Biondi Santi é de 500.000 garrafas por ano, o que representa um faturamento de 10 milhões de dólares. Para o Brasil são enviadas 20 mil garrafas por ano, no valor de 400 mil dólares. Sr. Jacopo vê o nosso mercado com entusiasmo, sua expectativa é de que este número dobre a cada ano. Diz também receber muitos convites para produzir vinho fora da Itália, mas por enquanto prefere se dedicar à Toscana. Embora confesse que se for fazer vinho fora de seu país, não terá dúvida, será um Sauvignon Blanc na Nova Zelândia.

Seu produto mais tradicional é o Brunello di Montalcino, mas ultimamente o Schidione, um supertoscano nascido em 1993, tem roubado a cena. Seu nome significa "espeto de churrasco" em toscano antigo. A intenção é sugerir, com este nome impresso sobre um rótulo vermelho, que o vinho seja consumido com carnes grelhadas. Trata-se de um corte de 40% Sangiovese Grosso, 40% Cabernet Sauvignon, 20% Merlot, com 13,5% de álcool. O que provei, da safra de 1995, para os olhos é rubi intenso e denso. No nariz ameixa e amora, quase geléias, dominam, seguidas de pimenta do reino, tabaco, surgindo, no final, chocolate. No palato se apresenta pleno em corpo, já com um ótimo equilibro, embora ainda possa se beneficiar de alguns anos de guarda. Excelente.