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por Marcelo Copello
A Vinexpand 2002, feira promovida pela importadora
Expand Group, reuniu semana passada mais de 50 produtores de todo
o mundo e percorreu 6 capitais brasileiras. O evento trouxe ilustres
personagens, nos brindando com muito mais do que excelentes vinhos,
mas também com sua sabedoria e carisma, numa experiência
singular. Demonstraram também gande interesse pelo mercado
brasileiro, em franca ascensão.
O
melhor exemplo disto foi uma simpática senhora francesa de
77 anos de juventude. Madame May-Eliane de Lencquesaing é
a proprietária do Château Pichon Longueville Comtesse
de Lalande, ou simplesmente, Pichon-Lalande. Madame, que adorou
nossa caipirinha, mantém uma tradição de mais
de 200 anos de mulheres no comando deste Château. Seus domínios
produzem anualmente 450.000 garrafas, sendo a metade de seu vinho
principal. Para o Brasil são exportadas cerca de 15 mil garrafas
ao ano, onde 4 mil são de Pichon-Lalande.
Segundo Madame May-Eliane, a filosofia do Château
é manter uma tradição aprendida há gerações.
Fazer vinhos que tragam em seu gosto, sua origem e sua história.
Questionada se os Bordeaux são melhores hoje ou no passado,
explicou: "em grandes anos, quando o clima ajuda e tudo é
perfeito, os vinhos que fazemos hoje são tão bons
quanto os das safras clássicas do passado. São vinhos
de terroir, que refletem o solo de onde vieram, e este não
mudou. A diferença está nos anos fracos. Enquanto
no passado praticamente perdia-se toda a produção,
hoje podemos ter bons resultados mesmo em anos não tão
bons. Nosso Château agregou, com o passar do tempo, diversas
técnicas que possibilitaram este avanço. Por exemplo:
antigamente, colhia-se antes da maturação ideal. A
podridão podia atacar rapidamente as uvas maduras. Algumas
safras do passado chegavam a produzir vinhos com apenas 9% de álcool,
impróprios para a comercialização. Hoje, através
de análise química é possível determinar
o momento ideal para a colheita. Além disso, novas técnicas
de poda permitem produzir cachos menores e mais espaçados
entre si, com uma melhor exposição ao sol. Tudo isso
aliado outras técnicas hoje conhecidas permite manter a qualidade
do vinho mesmo nos anos inferiores".
Sobre a chegada do "gosto Parker" (vinhos
pesados e com muito paladar de carvalho) à Bordeaux, Madame
é enfática: "Está acontecendo uma revolução
em Bordeaux. Alguns produtores buscam fama rápida. Preferem
investir em marketing, em barris de carvalho e se adaptar ao padrão
internacional. Estão cada vez mais com um olho no vinhedo
e outro no mercado. Fazem vinhos de sedução rápida,
que não resistem ao tempo, senhor de todas as verdades".
Este espírito feminino e de personalidade forte
se reflete plenamente em seus vinhos. O Pichon-Lalande 1997 que
provei é uma mescla de 45% Cabernet Sauvignon, 35% Merlot,
12% Cabernet Franc e 8% Petit-Verdot. O alto percentual de Merlot
dá o toque feminino. A cor é de um belíssimo
rubi, entre claro e escuro. Muito delicado e refinado no nariz,
com aromas de framboesas e amoras frescas além de minerais.
No palato tem médio corpo, com taninos agradáveis.
Um vinho para se beber agora.
Outro
personagem que marcou o evento foi Jacopo Biondi Santi. Um perfeccionista
que cuida de cada detalhe de seus vinhos, chegando a desenhar pessoalmente
seus rótulos e garrafas. Bem articulado e de figura imponente,
ele representa a sexta geração de um nome que entrou
para a história da vitivinicultura italiana. Na primeira
metade de século XIX, Clemente Santi, decidiu produzir um
vinho de guarda, bem diferente do Chianti que se produzia na Toscana.
Pesquisou e desenvolveu diferentes clones de uvas, baseando-se na
principal cepa italiana, a Sangiovese. O resultado foi a Sangiovese
Grosso ou Brunello, cujo clone levou o nome científico de
BBS (Brunello Biondi Santi), em homenagem a seu criador. Esta cepa
é bem diferente de uma Sangiovese normal, desde o formato
das folhas e dos cachos, até a disposição dos
bagos e a casca mais grossa, contendo mais tanino e cor. Quando
a praga Phyloxera atacou em fins daquele século, o clone
usado por vários produtores para o replantio enxertado foi
a BBS. Nos anos 60 viria finalmente a ser criada a DOCG (denominação
de origem controlada e garantida) Brunello de Montalcino, que prevê
o uso de 100% desta casta em seus vinhos. Hoje existem 183 produtores
fazendo este tipo de vinho.
A produção total de Jacopo Biondi Santi
é de 500.000 garrafas por ano, o que representa um faturamento
de 10 milhões de dólares. Para o Brasil são
enviadas 20 mil garrafas por ano, no valor de 400 mil dólares.
Sr. Jacopo vê o nosso mercado com entusiasmo, sua expectativa
é de que este número dobre a cada ano. Diz também
receber muitos convites para produzir vinho fora da Itália,
mas por enquanto prefere se dedicar à Toscana. Embora confesse
que se for fazer vinho fora de seu país, não terá
dúvida, será um Sauvignon Blanc na Nova Zelândia.
Seu produto mais tradicional é o Brunello di
Montalcino, mas ultimamente o Schidione, um supertoscano nascido
em 1993, tem roubado a cena. Seu nome significa "espeto de
churrasco" em toscano antigo. A intenção é
sugerir, com este nome impresso sobre um rótulo vermelho,
que o vinho seja consumido com carnes grelhadas. Trata-se de um
corte de 40% Sangiovese Grosso, 40% Cabernet Sauvignon, 20% Merlot,
com 13,5% de álcool. O que provei, da safra de 1995, para
os olhos é rubi intenso e denso. No nariz ameixa e amora,
quase geléias, dominam, seguidas de pimenta do reino, tabaco,
surgindo, no final, chocolate. No palato se apresenta pleno em corpo,
já com um ótimo equilibro, embora ainda possa se beneficiar
de alguns anos de guarda. Excelente.
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