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Mar de Vinho
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Sobre Marcelo Copello  


GAZETA MERCANTIL - Caderno Fim de Semana - 07/06/2002

PORTUGAL E A NOVA CONQUISTA DO BRASIL

por Marcelo Copello

Portugal continua não medindo esforços para recuperar o posto de segundo lugar entre os vinhos mais importados pelo Brasil (foram ultrapassados pelos chilenos, enquanto os líderes são os italianos). Dois recentes eventos comprovam o fato. O palco de ambos foi o belíssimo Palácio São Clemente, residência oficial do Cônsul Geral de Portugal no Rio de Janeiro. Nada mais apropriado do que degustar rodeado por arquitetura imponente, obras de arte e um belo jardim, onde reina uma mangueira centenária, tudo no clima da notória hospitalidade portuguesa.

No primeiro, o vinho esteve, mais uma vez, de mãos dadas com a arte. A Herdade do Esporão, vinícola portuguesa do Alentejo, acaba de lançar a safra 1999 do seu Garrafeira, que todos os anos traz em seu rótulo uma obra de arte. Para este o escolhido foi Rubens Gerchman, artista plástico carioca de 60 anos, que é tido como o maior nome de sua geração. Gerchman é o primeiro pintor não português a receber tal homenagem.

A Herdade do Esporão produz nada menos do que 7 milhões de garrafas anuais, sendo 30 mil do seu top Garrafeira. Este é uma criação de Luiz Duarte, eleito o melhor enólogo de Portugal em 1998. Segundo ele, este vinho possou por mudanças profundas. Antes não era feito todos os anos (houve Garrafeira em 1987, 1990, 1994, e 1997). A partir deste lançamento será produzido regularmente, em uma nova cantina construída especialmente para este fim. Outra novidade é que sua fórmula será diferente conforme a colheita. Na de 1999, por exemplo, é 20% Syrah, 35% Touriga Nacional, 30% Aragonês e 10% Alicante Bouchet. O resultado é um líquido de cor escura, transitando entre rubi e granada, com reflexos violáceos. Os aromas são de frutas vermelhas maduras, ameixas, especiarias e carvalho bem integrado ao todo (fica 18 meses em barricas novas francesas). Tem 14% de álcool e taninos surpreendentemente macios para um vinho de guarda como este. Duarte explica que o segredo é utilizar uvas ultra-maduras e, antes da pisa (o tradicional método de pisar as uvas), 80% dos engaços (ramo que prende as uvas ao cacho e dá adstringência à bebida) são retirados. A importação é da Qualimpor (tel.: 11 5181-4492, cerca de R$100,00).

O segundo evento, promovido pelo IVP (Instituto do Vinho do Porto) teve como objetivo ampliar a abrangência desta bebida. Para tal foi apresentado um novo cálice, projetado especialmente para ela e oferecido um jantar para mostrar que esta pode acompanhar vários pratos em uma refeição.

Para conceber o novo cálice, foi escolhido Álvaro Siza Vieira, um dos maiores nomes da arquitetura portuguesa, agraciado com o premio Pritzker, o "Nobel" da arquitetura, da Hyatt Foundation de Chicago em 1992. Carlos Soares, diretor de Marketing do IVP, explicou a importância desta novidade: "O cálice antigo parecia o irmão menor das degustações. Era pequeno demais perto das taças de tintos e brancos de mesa. Agora está mais alto, para tirar este complexo de inferioridade e nos dar mais orgulho". O resultado é uma peça elegante, no formato clássico de taça de degustação, apoiado numa haste quadrada, com uma pequena concavidade para se apoiar o polegar.

Para testar a nova taça foram degustados 23 ótimos portos, dos quais destaco:
Cockburn 10 Years Tawny. Importado pela Allied Domeq (21 2556-4100), ainda não está sendo comercializado. Encanta o olhar com sua cor alaranjada com lindos reflexos rubi muito clara e brilhante. Intenso no nariz com passas, avelãs. Muito fino e delicado na boca, muito equilibrado, é menos doce que seus pares. Muito bom.

Duque de Bragança 20 anos, A.A. Ferreira (Aurora, R$254,00). Este é um corte de vinhos de 15 a 40 anos, assim alia frescor a complexidade, com aromas de frutas secas, figos secos, tâmaras, mel e especiarias. Vinho muito elegante e com final prolongado. Frescor acentuado pela, ótima acidez, meio-doce, com longa persistência na boca. Um clássico.
Royal O Porto Colheita 1977, da Real Companhia Velha. Trazido pela Barrinhas (tel.: 21 2584-9596, R$125,00). Muito claro, alaranjado quase âmbar. Intenso nos aromas, bastante etéreo pela oxidação. Grande persistência gustativa. Excelente.

Cockburn Vintage Quinta dos Canais 99. Da Allied Domeq, ainda não comercializado no Brasil. Cor quase preta, com reflexos púrpura. Muito vegetal, com manjericão e bananas nos aromas. Na boca é denso e ainda muito fechado e tânico. Para se guardar por mais uns 20 anos. Muito bom.

Taylor's Vintage 87, Quinta Terra Feita. Expand (11 4613-3300, US$79.00). Talvez o melhor da prova. Cor rubi escuro com certa opacidade. Rico de aromas, com chocolate, uva passa e vegetais. Ainda pode evoluir muito. Excepcional.

O desfecho da noite foi o jantar foi elaborado por Flavia Quaresma, um dos grandes chefs do Rio, onde ficou plenamente provado que o Porto também pode ser um vinho para a mesa. Os destaques foram a Terrine de Foie Gras reduzido no vinho do Porto, escoltada por um Porto 10 anos e o Moelleux de chocolate e avelãs casado com Porto LBV. Divino.