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Mar de Vinho
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Sobre Marcelo Copello  


GAZETA MERCANTIL - Caderno Fim de Semana - 14/06/2002

O IMPERADOR DOS VINHOS DO PIEMONTE

por Marcelo Copello - de Barbaresco (Piemonte, Itália)

Carismático, enérgico, falando num ritmo alucinantemente rápido, com um gestual típico italiano, Angelo Gaja é hoje, aos 61 anos, a personalidade do vinho mais dinâmica e comentada da Itália. No recém lançado Gambero Rosso 2002, mais importante publicação do gênero naquele país, Gaja é 1ª lugar absoluto. Recebeu 29 "tre bichiere" (a nota máxima) ao longo da história da publicação, muito a frente de qualquer outro concorrente. Em recente visita à cidade de Barbaresco, no Piemonte, tive o privilégio de uma conversa exclusiva com o vinhateiro mais importante daquele país.

Angelo Gaja foi eleito, em 1998, o "homem do ano" pela importante revista inglesa Decanter. Seu Barbaresco Sorì Tildin 1990 recebeu nota 100 dos severos críticos da revista Wine Spectator, colocando o nome Gaja definitivamente entre os melhores do mundo. A mesma revista elegeu, em fevereiro de 2001, os 50 maiores vinhos da Itália da atualidade. Gaja conseguiu a façanha de ter o seu Sorì San Lorenzo como o número um do ranking e ainda colocar outros três na lista. Em 3o lugar, o Costa Russi; em 14o, o Sorì Tildin; e em 22o, seu Barbaresco.

Sua produção é pequena, cerca de 360 mil garrafas ao ano. Deste total, 80% é exportado. No Brasil, seus vinhos, trazidos pelo Expand Group (tel.: 11 4613-3333), se esgotam rapidamente.

Como se a busca da perfeição em sua produção não fosse suficiente, Angelo, com sua empresa Gaja Distribuzione, ainda encontra tempo para importar vinhos da Domaine de la Romanée-Conti, do Châteu d´Yquem, Châteu Margaux, Domaine Guigal, Robert Mondavi, entre outros. Comercializa, também, a linha Riedel de cristais e taças, que ajudou pessoalmente a desenvolver. Como se não bastasse, a marca Gaja está em elegantes talheres e acessórios de mesa.

Recentemente adquiriu propriedades na rival Toscana: a Pieve de Santa Restituta, na região do Brunello di Montalcino; e a Ca' Marcanda, em Bolgheri. "A Toscana me parecia o lógico próximo passo, mesmo que os piemonteses me acusem de traição", afirma. Em Bolgheri, ficou impressionado com o lendário Sassicaia, um Cabernet Sauvignon 100%, e com o Ornelaia, que mistura Cabernet e Merlot. "Bolgheri é a região italiana mais propícia a estas variedades", diz ele, que alí plantou 65 hectares de Cabernet Sauvignon, Merlot e Sangiovese e, em 2002, pretende lançar os vinhos Magari e Ca' Marcanda.

Além disso, comprou o Castello di Barbaresco, do outro lado da rua onde fica sua vinícola, interligando-os por via subterrânea. Neste está construindo uma adega e um hotel que será inaugurado em 2002. Outro investimento recente foi a fabricação própria de barris de carvalho, onde amadurecem todos os seus vinhos com exceção do Dolceto, o mais simples que produz.

Todo este sucesso não foi construído da noite para o dia. A vinícola foi fundada em 1859 por Giuseppe, bisavô de Angelo. Nesta época e até o fim da II Guerra Mundial, o vinho na Itália era considerado uma bebida alimentar popular. Era uma bebida para todos: ricos, poderosos, artistas, mas principalmente para as pessoas pobres. Era um modo de se obter energia a um baixo custo. Antes da guerra, não havia a Indústria e ao menos 60% da população se dedicava à agricultura. Eram trabalhadores braçais, que produziam o vinho que eles mesmos bebiam.

A vinícola de Gaja foi sempre um pouco sui generis, pois, desde sua fundação, optou pela qualidade, uma estrada difícil naquela época. O sinal de qualidade era produzir o Barbaresco, usar Nebbiolo, e não utilizar outras variedades locais, menos caras. Este era o primeiro aspecto, importantíssimo, num momento em que parecia que a única maneira de ganhar dinheiro era vendendo vinhos mais baratos. E mais, qualidade significava uma certa sensibilidade ao fazer a bebida. "Meu avô sempre dizia que treinava seus empregados a escutar o vinho. Sempre se referia ao vinho como se fosse uma pessoa, a quem tratava com muita intimidade. Era uma coisa muito especial", confidencia.

Ao chegar aos anos 50, com o pai de Angelo na direção, a vinícola possuía uma clientela selecionada. Seus vinhos já custavam caro para os padrões da época, mas a diferença de preços não era tão ampla quanto hoje. Os melhores Barbarescos custavam apenas duas ou três vezes mais que os mais simples. "Não era possível ficar rico fazendo vinho daquela maneira", justifica.

A maioria dos vinhos que chegava ao mercado era de comerciantes que compravam uvas de terceiros e o vinificavam ou compravam a bebida já pronta para engarrafar. O volume era grande e os preços inferiores. Mas, mesmo naquela época, haviam consumidores dispostos a pagar mais pela qualidade. Este mercado era, contudo, apenas o italiano, que para Gaja se restringia ao Piemonte e Lombardia. "Nosso vinho não era vendido na Toscana, porque lá se bebia o Chianti. O mesmo acontecia em outras regiões que tinham sua própria produção".

Nos anos seguintes à II Guerra Mundial, a Itália começou a exportar vinhos de baixo preço, principalmente para os EUA. Havia uma comunidade italiana importante naquele país, que ainda não era um grande produtor. Além disso, não havia um sistema de taxação que penalizasse o ingresso da bebida. Um exemplo foi o Lambrusco que, em 1982, bateu recordes vendendo 280 milhões de garrafas só para este país. Enquanto isso, a França vendia, em menores quantidades, vinhos de grande prestígio. Angelo conta que muitos importadores americanos estiveram na Europa como soldados e, de volta ao seu país de origem, começaram a importar vinho, principalmente da França. A Itália, por outro lado, continuou, até os anos 80, a exportar vinhos baratos.

Ao assumir a direção dos negócios, em 1961, Angelo decidiu se voltar para o mercado externo. "No início ataquei dois mercados: os EUA e a Alemanha. Este último porque era o país menos francófilo da Europa Ocidental. Os demais eram todos importadores de vinho franceses", revela. Gaja começou, então, a viajar para estes países. "Na Alemanha foi difícil pois como não falo alemão, tinha que falar inglês e a maioria dos possíveis clientes, que tinham entre 50 e 55 anos, não falava inglês. Já nos EUA foi mais fácil. Lá comecei a trabalhar não com a comunidade italiana, não sei bem porquê, mas com a comunidade israelita, pois muitos eram proprietários de grandes lojas e importadoras", conta.

Os primeiros anos em que se aventurou no mercado externo foram difíceis para Gaja. Robert Parker, influente crítico americano, foi duro com seus vinhos no início, principalmente quanto ao custo, pois os vinhos italianos de exportação eram notoriamente baratos. Lentamente esta realidade mudou e hoje os consumidores entendem que a grande garantia é o nome do produtor, mais do que a denominação de origem. O próprio Parker recentemente escreveu que o vinho de Gaja vale seu preço até o último centavo. "Isto se deve não apenas a mim, mas também aos meus colegas, pois cresceu enormemente o número de vitivinicultores italianos que investiram em qualidade", diz Angelo. No que tem toda razão. Em 1960, existiam 170 engarrafadores de Barolo e Barbaresco, hoje são 900. Isto significa que, nos últimos 40 anos, muitos produtores começaram a engarrafar seus próprios vinhos, garantindo a qualidade.

Gaja acredita no futuro da Itália e sugere que os produtores posicionem seus vinhos em três nichos. O primeiro seria o dos tradicionais, como o Chianti, com volume significativo, capaz de seguramente ocupar o mercado internacional com grandes resultados.

O segundo, o dos vinhos de uvas autoctones, aquelas que só a Itália possui. Com estas variedades, é possível, diminuindo o rendimento e aumentando a qualidade, fazer vinhos de um nível impensável, jamais conseguido no passado. "Se você reduz o rendimento (a quantidade de uvas produzias num mesmo hectare), mesmo com uma cepa modestíssima, como a Trebbiano, terá resultados incríveis", explica.

E o terceiro, os vinhos de variedades internacionais, como a Cabernet Sauvignon. "Neste nicho, é importante fazer vinhos de grande qualidade, e não os fazendo banais", diz. Na Itália é possível produzir com a Cabernet Sauvignon e Merlot, por exemplo, um vinho com padrão internacional, mas com individualidade, impossível de ser confundido com um da Califórnia ou Austrália. "A Itália deveria ser capaz, pela sua formação geográfica, pela riqueza e pela história, de competir nestes três nichos, com qualidade", afirma Gaja.

Angelo já apostou nas castas internacionais com seu vinho "Darmagi", feito com Cabernet Sauvignon e que tem uma história curiosa. Seu pai, Giuseppe, não queria, mas concordou em plantar um pouco desta uva em suas terras. Para ele, a Nabbiolo era a variedade principal. "Naquela época, tínhamos apenas quatro vinhedos. Meu pai preferia que está uva indesejada fosse plantada num lugar distante", recorda. Angelo mandou para um especialista em Montpelier amostras dos quatro solos para análise. "Este foi o primeiro Cabernet Sauvignon plantado no Piemonte depois de 1900. Esta casta esteve presente aqui no passado, mas com a Phyloxera desapareceu", conta. O especialista recomendou, infelizmente para seu pai Giuseppe, o terreno que era justamente o quintal da casa da família e seu melhor terroir. Angelo, então, fez o seguinte: quando seu pai saiu de férias para San Remo, mandou replantar as vinhas. Quando Giuseppe retornou, já estava tudo pronto. Não se podia notar qual era a casta, pois ainda não havia folhas. Guiseppe chamou o responsável pelo plantio e disse: "aqui neste vinhedo, que é o nosso melhor, faremos um grande Barbaresco!". "Não creio", respondeu o homem, "Angelo mandou plantar uma variedade francesa". Resposta imediata: "Darmagi!", uma palavra do dialeto piemontes que quer dizer "que pecado", que pecado ter plantado Cabernet Sauvignon ao invés de Nabbiolo.

Trata-se de um vinho magnífico e bastante original, com produção de apenas 12 mil garrafas por ano. É 100% Cabernet Sauvignon, mas nos últimos 4 anos têm recebido 2% de Cabernet Franc. Não tem tanta acidez como um Médoc ou um californiano. É um vinho que se destingue por sua personalidade. Angelo admite que a criação do Darmagi foi uma estratégia de marketing: "Ele me deu a oportunidade de participar de concursos e degustações comparando varietais de Cabernet Sauvignon no mundo inteiro. Não teria esta oportunidade com o Barbaresco". Os bons resultados do Darmagi em concursos mundo afora levaram o nome de Gaja ao exterior, e ajudaram a vender Barbaresco, seu principal produto.

Dos colegas produtores do Piemonte, poucos seguiram sua inicativa. Menos de 5% dos vinhos locais fogem das variedades tradicionais. O que, segundo Gaja, é um erro: "deveriam experimentar mais misturas, com outros tipos de uva. Deveríamos ser capazes de fazer grandes vinhos assim também", sugere.

Outro aspecto alertado por Angelo é quanto à característica das uvas tradicionais do Piemonte. A Nebbiolo e a Barbera, variedades de maturação tardia, têm uma deficiência: produzem melhores vinhos se plantadas do lado sul das colinas da região, pois recebem maior insolação. No lado norte não alcaçam o mesmo resultado. Aos poucos alguns produtores começam a trocar estas variedades por outras tardias. Estão utilizando castas como a Pinot Noir, Cabernet Sauvignon e Chardonnay, obtendo vinhos interessantíssimos. "Esta evolução, a meu ver, ainda é lenta demais. Existe muita resistência. Os toscanos são mais dinâmicos, enquanto os piemonteses são resistentes à mudanças".

Há ainda um outro aspecto, o da mistura das próprias uvas locais. Desde 1997, por exemplo, em seus vinhos feitos de Nebbiolo, sob a apelação Langhe, Gaja vêm acrescentando 5% de Barbera, o que é uma inovação na região. "A safra de 1997 foi excepcional, mas a Nebbiolo resultou com baixa acidez. Com um pouco de Barbera, acrescentamos acidez e cor ao vinho. E a Barbera jamais vai se sobrepor à Nebbiolo, que tem uma personalidade mais marcante", diz.

Para Angelo, outro ponto importantíssimo para os Premium Wines, categoria como classifica seus vinhos, é o consumo em restaurantes. "O restaurante representa um lugar para comemorações, fechamento de grandes negócios, celebração de casamentos ou outra data importante qualquer. Ocasiões para abrir uma grande garrafa. Sempre procurei colocar meus vinhos nas cartas, é uma publicidade gratuita".

Angelo Gaja é um apaixonado pela Itália. Acredita ser um país extraordinário, com riquezas que ainda não foram exploradas. Diz que a pequena península, imersa no mediterrâneo, cortada pelos Apeninos, com os Alpes ao norte, oferece, em miniatura, as condições de terroir achadas em todas as outras parte do mundo. "Se acha de tudo na Itália, desde o cultivo a mil metros de altitude, no Vale d'Aosta, até a beira do mar, na Sicilia. Existem condições na Sicilia, Puglia, Basilicata ou Campânia de ensolação muito forte e poucas chuvas. Encontra-se, também, vinhos de condições continentais frias, como aqui no Piemonte. Temos desde terrenos aluviais até vulcânicos. Outra riqueza de meu país são as 250 variedades autóctones cultivadas. É um patrimônio riquíssimo".