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por Marcelo Copello - de Barbaresco (Piemonte, Itália)
Carismático, enérgico, falando num ritmo
alucinantemente rápido, com um gestual típico italiano,
Angelo Gaja é hoje, aos 61 anos, a personalidade do vinho
mais dinâmica e comentada da Itália. No recém
lançado Gambero Rosso 2002, mais importante publicação
do gênero naquele país, Gaja é 1ª lugar
absoluto. Recebeu 29 "tre bichiere" (a nota máxima)
ao longo da história da publicação, muito a
frente de qualquer outro concorrente. Em recente visita à
cidade de Barbaresco, no Piemonte, tive o privilégio de uma
conversa exclusiva com o vinhateiro mais importante daquele país.
Angelo Gaja foi eleito, em 1998, o "homem do ano"
pela importante revista inglesa Decanter. Seu Barbaresco Sorì
Tildin 1990 recebeu nota 100 dos severos críticos da revista
Wine Spectator, colocando o nome Gaja definitivamente entre os melhores
do mundo. A mesma revista elegeu, em fevereiro de 2001, os 50 maiores
vinhos da Itália da atualidade. Gaja conseguiu a façanha
de ter o seu Sorì San Lorenzo como o número um do
ranking e ainda colocar outros três na lista. Em 3o lugar,
o Costa Russi; em 14o, o Sorì Tildin; e em 22o, seu Barbaresco.
Sua produção é pequena, cerca
de 360 mil garrafas ao ano. Deste total, 80% é exportado.
No Brasil, seus vinhos, trazidos pelo Expand Group (tel.: 11 4613-3333),
se esgotam rapidamente.
Como se a busca da perfeição em sua produção
não fosse suficiente, Angelo, com sua empresa Gaja Distribuzione,
ainda encontra tempo para importar vinhos da Domaine de la Romanée-Conti,
do Châteu d´Yquem, Châteu Margaux, Domaine Guigal,
Robert Mondavi, entre outros. Comercializa, também, a linha
Riedel de cristais e taças, que ajudou pessoalmente a desenvolver.
Como se não bastasse, a marca Gaja está em elegantes
talheres e acessórios de mesa.
Recentemente adquiriu propriedades na rival Toscana:
a Pieve de Santa Restituta, na região do Brunello di Montalcino;
e a Ca' Marcanda, em Bolgheri. "A Toscana me parecia o lógico
próximo passo, mesmo que os piemonteses me acusem de traição",
afirma. Em Bolgheri, ficou impressionado com o lendário Sassicaia,
um Cabernet Sauvignon 100%, e com o Ornelaia, que mistura Cabernet
e Merlot. "Bolgheri é a região italiana mais
propícia a estas variedades", diz ele, que alí
plantou 65 hectares de Cabernet Sauvignon, Merlot e Sangiovese e,
em 2002, pretende lançar os vinhos Magari e Ca' Marcanda.
Além disso, comprou o Castello di Barbaresco,
do outro lado da rua onde fica sua vinícola, interligando-os
por via subterrânea. Neste está construindo uma adega
e um hotel que será inaugurado em 2002. Outro investimento
recente foi a fabricação própria de barris
de carvalho, onde amadurecem todos os seus vinhos com exceção
do Dolceto, o mais simples que produz.
Todo este sucesso não foi construído
da noite para o dia. A vinícola foi fundada em 1859 por Giuseppe,
bisavô de Angelo. Nesta época e até o fim da
II Guerra Mundial, o vinho na Itália era considerado uma
bebida alimentar popular. Era uma bebida para todos: ricos, poderosos,
artistas, mas principalmente para as pessoas pobres. Era um modo
de se obter energia a um baixo custo. Antes da guerra, não
havia a Indústria e ao menos 60% da população
se dedicava à agricultura. Eram trabalhadores braçais,
que produziam o vinho que eles mesmos bebiam.
A vinícola de Gaja foi sempre um pouco sui generis,
pois, desde sua fundação, optou pela qualidade, uma
estrada difícil naquela época. O sinal de qualidade
era produzir o Barbaresco, usar Nebbiolo, e não utilizar
outras variedades locais, menos caras. Este era o primeiro aspecto,
importantíssimo, num momento em que parecia que a única
maneira de ganhar dinheiro era vendendo vinhos mais baratos. E mais,
qualidade significava uma certa sensibilidade ao fazer a bebida.
"Meu avô sempre dizia que treinava seus empregados a
escutar o vinho. Sempre se referia ao vinho como se fosse uma pessoa,
a quem tratava com muita intimidade. Era uma coisa muito especial",
confidencia.
Ao chegar aos anos 50, com o pai de Angelo na direção,
a vinícola possuía uma clientela selecionada. Seus
vinhos já custavam caro para os padrões da época,
mas a diferença de preços não era tão
ampla quanto hoje. Os melhores Barbarescos custavam apenas duas
ou três vezes mais que os mais simples. "Não era
possível ficar rico fazendo vinho daquela maneira",
justifica.
A maioria dos vinhos que chegava ao mercado era de
comerciantes que compravam uvas de terceiros e o vinificavam ou
compravam a bebida já pronta para engarrafar. O volume era
grande e os preços inferiores. Mas, mesmo naquela época,
haviam consumidores dispostos a pagar mais pela qualidade. Este
mercado era, contudo, apenas o italiano, que para Gaja se restringia
ao Piemonte e Lombardia. "Nosso vinho não era vendido
na Toscana, porque lá se bebia o Chianti. O mesmo acontecia
em outras regiões que tinham sua própria produção".
Nos anos seguintes à II Guerra Mundial, a Itália
começou a exportar vinhos de baixo preço, principalmente
para os EUA. Havia uma comunidade italiana importante naquele país,
que ainda não era um grande produtor. Além disso,
não havia um sistema de taxação que penalizasse
o ingresso da bebida. Um exemplo foi o Lambrusco que, em 1982, bateu
recordes vendendo 280 milhões de garrafas só para
este país. Enquanto isso, a França vendia, em menores
quantidades, vinhos de grande prestígio. Angelo conta que
muitos importadores americanos estiveram na Europa como soldados
e, de volta ao seu país de origem, começaram a importar
vinho, principalmente da França. A Itália, por outro
lado, continuou, até os anos 80, a exportar vinhos baratos.
Ao assumir a direção dos negócios,
em 1961, Angelo decidiu se voltar para o mercado externo. "No
início ataquei dois mercados: os EUA e a Alemanha. Este último
porque era o país menos francófilo da Europa Ocidental.
Os demais eram todos importadores de vinho franceses", revela.
Gaja começou, então, a viajar para estes países.
"Na Alemanha foi difícil pois como não falo alemão,
tinha que falar inglês e a maioria dos possíveis clientes,
que tinham entre 50 e 55 anos, não falava inglês. Já
nos EUA foi mais fácil. Lá comecei a trabalhar não
com a comunidade italiana, não sei bem porquê, mas
com a comunidade israelita, pois muitos eram proprietários
de grandes lojas e importadoras", conta.
Os primeiros anos em que se aventurou no mercado externo
foram difíceis para Gaja. Robert Parker, influente crítico
americano, foi duro com seus vinhos no início, principalmente
quanto ao custo, pois os vinhos italianos de exportação
eram notoriamente baratos. Lentamente esta realidade mudou e hoje
os consumidores entendem que a grande garantia é o nome do
produtor, mais do que a denominação de origem. O próprio
Parker recentemente escreveu que o vinho de Gaja vale seu preço
até o último centavo. "Isto se deve não
apenas a mim, mas também aos meus colegas, pois cresceu enormemente
o número de vitivinicultores italianos que investiram em
qualidade", diz Angelo. No que tem toda razão. Em 1960,
existiam 170 engarrafadores de Barolo e Barbaresco, hoje são
900. Isto significa que, nos últimos 40 anos, muitos produtores
começaram a engarrafar seus próprios vinhos, garantindo
a qualidade.
Gaja acredita no futuro da Itália e sugere que
os produtores posicionem seus vinhos em três nichos. O primeiro
seria o dos tradicionais, como o Chianti, com volume significativo,
capaz de seguramente ocupar o mercado internacional com grandes
resultados.
O segundo, o dos vinhos de uvas autoctones, aquelas
que só a Itália possui. Com estas variedades, é
possível, diminuindo o rendimento e aumentando a qualidade,
fazer vinhos de um nível impensável, jamais conseguido
no passado. "Se você reduz o rendimento (a quantidade
de uvas produzias num mesmo hectare), mesmo com uma cepa modestíssima,
como a Trebbiano, terá resultados incríveis",
explica.
E o terceiro, os vinhos de variedades internacionais,
como a Cabernet Sauvignon. "Neste nicho, é importante
fazer vinhos de grande qualidade, e não os fazendo banais",
diz. Na Itália é possível produzir com a Cabernet
Sauvignon e Merlot, por exemplo, um vinho com padrão internacional,
mas com individualidade, impossível de ser confundido com
um da Califórnia ou Austrália. "A Itália
deveria ser capaz, pela sua formação geográfica,
pela riqueza e pela história, de competir nestes três
nichos, com qualidade", afirma Gaja.
Angelo já apostou nas castas internacionais
com seu vinho "Darmagi", feito com Cabernet Sauvignon
e que tem uma história curiosa. Seu pai, Giuseppe, não
queria, mas concordou em plantar um pouco desta uva em suas terras.
Para ele, a Nabbiolo era a variedade principal. "Naquela época,
tínhamos apenas quatro vinhedos. Meu pai preferia que está
uva indesejada fosse plantada num lugar distante", recorda.
Angelo mandou para um especialista em Montpelier amostras dos quatro
solos para análise. "Este foi o primeiro Cabernet Sauvignon
plantado no Piemonte depois de 1900. Esta casta esteve presente
aqui no passado, mas com a Phyloxera desapareceu", conta. O
especialista recomendou, infelizmente para seu pai Giuseppe, o terreno
que era justamente o quintal da casa da família e seu melhor
terroir. Angelo, então, fez o seguinte: quando seu pai saiu
de férias para San Remo, mandou replantar as vinhas. Quando
Giuseppe retornou, já estava tudo pronto. Não se podia
notar qual era a casta, pois ainda não havia folhas. Guiseppe
chamou o responsável pelo plantio e disse: "aqui neste
vinhedo, que é o nosso melhor, faremos um grande Barbaresco!".
"Não creio", respondeu o homem, "Angelo mandou
plantar uma variedade francesa". Resposta imediata: "Darmagi!",
uma palavra do dialeto piemontes que quer dizer "que pecado",
que pecado ter plantado Cabernet Sauvignon ao invés de Nabbiolo.
Trata-se de um vinho magnífico e bastante original,
com produção de apenas 12 mil garrafas por ano. É
100% Cabernet Sauvignon, mas nos últimos 4 anos têm
recebido 2% de Cabernet Franc. Não tem tanta acidez como
um Médoc ou um californiano. É um vinho que se destingue
por sua personalidade. Angelo admite que a criação
do Darmagi foi uma estratégia de marketing: "Ele me
deu a oportunidade de participar de concursos e degustações
comparando varietais de Cabernet Sauvignon no mundo inteiro. Não
teria esta oportunidade com o Barbaresco". Os bons resultados
do Darmagi em concursos mundo afora levaram o nome de Gaja ao exterior,
e ajudaram a vender Barbaresco, seu principal produto.
Dos colegas produtores do Piemonte, poucos seguiram
sua inicativa. Menos de 5% dos vinhos locais fogem das variedades
tradicionais. O que, segundo Gaja, é um erro: "deveriam
experimentar mais misturas, com outros tipos de uva. Deveríamos
ser capazes de fazer grandes vinhos assim também", sugere.
Outro aspecto alertado por Angelo é quanto à
característica das uvas tradicionais do Piemonte. A Nebbiolo
e a Barbera, variedades de maturação tardia, têm
uma deficiência: produzem melhores vinhos se plantadas do
lado sul das colinas da região, pois recebem maior insolação.
No lado norte não alcaçam o mesmo resultado. Aos poucos
alguns produtores começam a trocar estas variedades por outras
tardias. Estão utilizando castas como a Pinot Noir, Cabernet
Sauvignon e Chardonnay, obtendo vinhos interessantíssimos.
"Esta evolução, a meu ver, ainda é lenta
demais. Existe muita resistência. Os toscanos são mais
dinâmicos, enquanto os piemonteses são resistentes
à mudanças".
Há ainda um outro aspecto, o da mistura das
próprias uvas locais. Desde 1997, por exemplo, em seus vinhos
feitos de Nebbiolo, sob a apelação Langhe, Gaja vêm
acrescentando 5% de Barbera, o que é uma inovação
na região. "A safra de 1997 foi excepcional, mas a Nebbiolo
resultou com baixa acidez. Com um pouco de Barbera, acrescentamos
acidez e cor ao vinho. E a Barbera jamais vai se sobrepor à
Nebbiolo, que tem uma personalidade mais marcante", diz.
Para Angelo, outro ponto importantíssimo para
os Premium Wines, categoria como classifica seus vinhos, é
o consumo em restaurantes. "O restaurante representa um lugar
para comemorações, fechamento de grandes negócios,
celebração de casamentos ou outra data importante
qualquer. Ocasiões para abrir uma grande garrafa. Sempre
procurei colocar meus vinhos nas cartas, é uma publicidade
gratuita".
Angelo Gaja é um apaixonado pela Itália.
Acredita ser um país extraordinário, com riquezas
que ainda não foram exploradas. Diz que a pequena península,
imersa no mediterrâneo, cortada pelos Apeninos, com os Alpes
ao norte, oferece, em miniatura, as condições de terroir
achadas em todas as outras parte do mundo. "Se acha de tudo
na Itália, desde o cultivo a mil metros de altitude, no Vale
d'Aosta, até a beira do mar, na Sicilia. Existem condições
na Sicilia, Puglia, Basilicata ou Campânia de ensolação
muito forte e poucas chuvas. Encontra-se, também, vinhos
de condições continentais frias, como aqui no Piemonte.
Temos desde terrenos aluviais até vulcânicos. Outra
riqueza de meu país são as 250 variedades autóctones
cultivadas. É um patrimônio riquíssimo".
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