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Mar de Vinho
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Sobre Marcelo Copello  


GAZETA MERCANTIL - Caderno Fim de Semana - 12/07/2002

A OFENSIVA ESPANHOLA

por Marcelo Copello

Terceiro maior produtor e exportador mundial de vinhos, atrás de França e Itália, a Espanha amarga no mercado brasileiro um modesto e inexplicavelmente 8º lugar entre os importados. Com menos de 700 mil garrafas ao ano contra quase 11 milhões da líder Itália, as maravilhas da vinicultura espanhola ainda são pouco conhecidas pelo grande público, embora cultuados por nossos connasseurs. Para amenizar este gap, os últimos meses foram marcados por uma série de lançamentos, numa verdadeira ofensiva hispânica.

A riqueza histórica e a grande diversidade cultural Ibérica se refletem nos vinhos. A gama vai desde brancos secos à magníficos fortificados, passando por tintos que estão entre os maiores do mundo. A Espanha foi uma das maiores beneficiárias do aumento da tecnologia vinícola disponível a partir da década de 1980, quando seu ingresso na União Européia, em 1986, acelerou o processo de modernização.

O país, outrora conhecido apenas pelos tintos da região de Rioja, espumantes como o Codorniú da Cataluña, fortificados de Jerez e pelo vinho Vega Sicilia, da Ribera del Duero, considerado o maior do península, tem hoje a qualidade disseminada por todas as regiões. Nomes como Priorato, Costers del Segre, Toro, Rueda, Samontano e La Mancha surgiram para o mundo nos últimos anos.

Os tintos continuam sendo a vocação nacional, onde reina absoluta a uva Tempranillo. A recente entrada de castas internacionais, como Cabernet Sauvignon e Merlot, misturadas às uvas locais deram grandes resultados. Dentre as boas novidades disponíveis, avaliei e selecionei alguns tintos especialmente para esta coluna:

Gotim Bru 1998, da Castell del Remei, vinícola localizada na região Costers del Segre, Cataluña. Trazido pela Mistral (tel.: 11 3285-1422, US$21.50). Um corte de Tempranillo, Merlot e Cabernet Sauvignon, que passa 10 meses em barricas de carvalho americano. De cor granada clara, se apresenta ao olfato bastante frutado (groselha e framboesa), com timbres de carvalho, torrefação e uma leve pelica. Para o palato tem corpo médio, com 12,5% de álcool, e taninos equilibrados. Pronto para beber. Bom.

Faustino I Gran Reserva 1994, da Bodegas Faustino da Rioja. Importado pela La Rioja (tel.: 21 2568-0400, R$82,00). Este Rioja clássico, como todo Gran Reserva, amadureceu 2 anos em barris carvalho e outros 3 anos em garrafa antes de chegar ao mercado. Com um corte típico riojano de 85% Tempranillo, 12% Graciano e 3% Mazuelo. Tem 13% de álcool, muito carvalho, ameixa, cereja e baunilha, além de aromas de evolução como couro e caça. Com taninos educados, para se beber agora. Muito bom.

Hécula 1999, da Bodegas Castaño, de Yecla, na região de Murcia, sudeste do país. Representado pela First Food (tel.: 11 3822-1867, R$36,00). Um vinho feito com 100% de uvas Monastrell e envelhecido 6 meses em carvalho americano. Sua cor é vermelho-púrpura, entre claro e escuro. Intenso no nariz, é bastante achocolatado, lembrando cassis, baunilha e carvalho. No palato é muito bem equilibrado, com 13,5% de álcool e uma pequena e agradável aresta de tanino, o que indica mais um ano para o seu auge, embora já esteja boníssimo para consumo imediato. Tem ótimo custo-benefício, vale cada centavo. Entre muito bom e excelente.

Dominio de Valdepusa Syrah 1998, da Marqués de Griñon, trazido pela Expand (tel.: 11 4613-3333, US$39.00). Da região de La Mancha, no centro do país, estes vinhedos, um dos pioneiros na cultura da uva Syrah na Espanha, ficam próximos à belíssima cidade de Toledo. Elegante, muito intenso e apimentado no nariz, com aromas de chocolate amargo, especiarias, frutas passificadas (cereja preta) e carvalho no ponto certo. Muito encorpado e bastante vivo no paladar, com boa acidez, macio e quente com 14% de álcool. Equilibrado nos taninos, está pronto para beber, podendo ser guardado por alguns anos. Excelente.

Calvario 1999, produzido pela Finca Allende, da Rioja Alta, e trazido pela First Food por R$295,00. Um grande vinho, de estilo moderno, apesar de ser da região mais tradicional do país. Criado 14 meses em barricas de carvalho francês. Suas uvas (90% Tempranillo, 8% Garnacha e 2% Graciano ) vêm exclusivamente de vinhas velhas, plantadas no ano da vitória, 1945, o que garante grande concentração de aromas e sabores. Tem 14% de álcool e exuberantes perfumes de geléias de amoras e cassis, além de musgo, chocolate e um toque de aniz estrelado. Ainda tânico, merece ser decantado, exige pratos condimetados, ou mais alguns anos de guarda para ficar pronto. Um "vinhaço", de excelente a espetacular.