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Mar de Vinho
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Sobre Marcelo Copello  


GAZETA MERCANTIL - Caderno Fim de Semana - 02/08/2002

UM BRASILEIRO NO LOIRE

por Marcelo Copello

Foi uma experiência nova conversar com um produtor de vinhos franceses em português e, o mais notável, ser este seu idioma nativo. Eric Recchia, 60 anos, carioca de Santa Tereza, é, talvez, o único brasileiro a fazer vinhos no país que é a referência mundial para esta bebida.

Recchia esteve no Brasil na semana passada para rever familiares e promover os vinhos que está produzindo. Este filho de franco-italianos é engenheiro químico, carreira em que chegou à direção de uma multinacional com sede na França, onde está radicado há 12 anos.

Ao se aposentar, resolveu concretizar um velho sonho: morar no campo e fazer seu próprio vinho. Há 5 anos atrás seu desejo foi realizado em grande estilo, adquiriu uma propriedade no Vale do Loire, uma das regiões mais belas daquele país, onde produz ótimos vinhos que já exporta para alguns países.

O Vale do Loire é uma das regiões vinícolas mais variadas da França. Seus vinhos ainda são mais apreciados localmente. Por aqui pouco se conhece fora do Sancerre, Pouilly-Fumé e Vouvray. É, contudo, um dos vinhedos mais antigos e extensos do mundo. Os brancos secos dominam, com a Sauvignon Blanc reinando, passando por ótimos brancos doces, como o Quarts-de-Chaume, espumantes de qualidade, tintos leves de Cabernet Franc e Gamay, e rosés sem muita expressão.

A propriedade de Recchia chama-se "Les Grandes Vignes" e situa-se sub-região de Touraine, no coração do Loire, onde estão os famosos castelos que formam o chamado "vale dos reis". São 7 hectares que produzem cerca de 50 mil garrafas ao ano, sendo 90% brancos, feitos com a Sauvignon Blanc, e 10% tintos da uva Gamay. Recchia ainda representa a CVOT - Confrerie des Vignerons Oisly et Thesée, união dos produtores locais. No total, num primeiro lote para testar o mercado, chegaram ao Brasil apenas 3.600 garrafas. Quem importa é a Impexco (tel.: 11 3257-0653) e são 4 os rótulos disponíveis, todos com preços acessíveis:

Sauvignon Blanc Les Granes Vignes 2001, AOC Touraine (R$33,90). Um varietal 100% Sauvignon Blanc, a grande uva da região. Linda cor amarelo palha brilhante com reflexos esverdados, muito transparente. É uma festa para o olfato, com ataque marcante, lembrando hortelã, flores e, sobretudo, muitas frutas cítricas. Os franceses têm dificuldade em descrever os aromas de vinhos como este, referem-se apenas a "frutas exóticas". No Brasil quem soltar a imaginação vai identificar desde maracujá até cupuaçú. No aspecto gustativo é seco e mineral, com um bom equilíbrio, fresco e leve com 12% de álcool. Bom custo-benefício. Entre muito bom e excelente.

Baronnie D´Aignan Brut 1997, AOC Crémant de Loire (R$58,00). Um espumante de corte tradicional champenoise, de Chardonnay com Pinot Noir. Com segunda fermentação longa, de um ano no mínimo, na garrafa. Aos olhos é amarelo palha com uma tonalidade salmão muito sutil. Com fina e persistente perlage e aromas delicados de flores e cítricos. Na boca é bem equilibrado, com 12% de álcool e bastante vivo para um espumante de 5 anos de idade. Tem boa cremosidade com um toque de amêndoas. Muito bom.

Nectar des Anges 1997, AOC Touraine (R$76 - garrafa de 500ml). Um vendage tardive, corte de Sauvignon Blanc com Chenin Blanc, provenientes de vinhas com 40 anos de idade, onde as uvas são colhidas sobremaduras, o que nem todo ano é possível. Esta safra (1997) é a mais recente deste vinho de sobremesa que, por não ser excessivamente doce, é versátil podendo acompanhar sombremesas, queijos fortes ou simplesmente ser apreciado puro. Muito mel, damasco e abacaxi, com toques minerais e florais nos aromas. O paladar deste néctar é macio sem ser enjoativo, com 12% de álcool. Muito bom.

Cabernet Franc Domaine de La Chatoire 2000, AOC Touraine (R$33,90). Um tinto bastante leve, 100% Cabernet Franc. Rubi claro muito límpido e brilhante. Aromas de frutas vermelhas e minerais. No palato é pouco alcoólico (11,5%), sem deixar de ser bem equilibrado, com boa acidez e uma ponta de tanino que faz com que cresça se acompanhado de pratos de carne não muito condimentadas. Pronto para beber. Bom.