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Mar de Vinho
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GAZETA MERCANTIL - Caderno Fim de Semana - 16/08/2002

O BACO DAS MONTANHAS

por Marcelo Copello

Foto: Magalí GacekO que tem uma grande pedra azulada na região serrana do Espírito Santo a ver com vinho? Aparentemente nada, mas a simples menção do nome "Pedra Azul" têm feito amantes do vinho suspirarem. Há alguns anos, quando recebi um folheto anunciando que um grupo de eno-entusiastas degustaria vinhos raros e caríssimos no alto de uma montanha no interior do país, achei que fosse alguma espécie de trote. Minha incredulidade foi motivada por três fatores: a qualidade das garrafas reunidas, nunca antes vista no continente; a importância dos palestrantes, algumas das maiores autoridades mundiais na área; e o improvável local, distante dos grandes centros de consumo deste país.

O Encontro Internacional do Vinho no Espírito Santo teve sua 5ª edição no início deste mês. Promovido pela SOAVES (Sociedade dos Amigos de Vinho do Espírito Santo), este encontro acontece todos os anos na região montanhosa de Pedra Azul, situada a 90km de Vitória. O presidente da instituição e mentor do evento, Roberto Gomes Serpa, alcunhado por muitos de "o Baco de Pedra Azul", provou que teimosia move montanhas. Em um estado pequeno, fora do eixo Rio-São Paulo, que não produz vinhos, longe dos grandes importadores, com dificuldade de patrocínios e parcerias, sem ajuda de órgãos governamentais, num local distante de qualquer aeroporto, Serpa conseguiu consolidar este como o mais importante evento de degustação do continente. A fórmula é simples: doses maciças de entusiasmo seu e de seus discípulos, cada vez mais numerosos. Sem visar o lucro e sem vínculo com nenhum esquema de comércio, política ou promoção pessoal, a SOAVES angaria facilmente simpatizantes sinceros à sua causa, e qualquer iniciativa com este espírito é fadada ao sucesso.

O preço é alto em termos absolutos, mas relativamente baixo se enumerarmos algumas das provas realizadas nos últimos anos, especialmente após a recente alta do dólar. Podemos citar a primeira vertical do hemisfério sul de Château Le Pin, e as de Vega Sicilia, Château Margaux, Don Perignon e Château Mouton Rothschild. Além das degustações de cult wines da Califórnia e de vinhos nota 100 de Robert Parker e da Wine Spectator. A dificuldade de conseguir exemplares como estes é imensa, muitos simplesmente não estão à venda, sendo garimpados em adegas particulares ou adquiridos diretamente dos produtores.

Este ano um dos principais palestrantes foi Patrick Vallete, filho do recém falecido Jean Paul Vallete, ex-proprietário do grande Château Pavie. Patrick faz parte de uma nova geração de enólogos franceses, conhecidos como garagistes, que fazem vinhos artesanais, de "garagem", em pequenas propriedades na região de Bordeaux. Uma de suas criações, o Château Berliquet, já é considerado um dos melhores de St. Emilion. Valette também é um requisitado "flying winemaker", com projetos no Uruguai e Chile, onde é responsável pelo excelente tinto El Principal. Sua apresentação no evento teve como objetivo quebrar o mito da standartização dos vinhos do novo mundo e reafirmar o conceito de "small is beautifull", verdade incontestável quando se trata do nobre fermentado. Segundo ele, "o vinho tem que dar prazer a quem bebe e não apenas fazer bonito nas degustações. Cada um deve guardar sua opinião e comprar o que gosta".

Pascal Marty foi outro nome importante entre os presentes. Este francês do grupo Rothschild é o enólogo criador do Almaviva, hoje o rótulo de maior prestígio do Chile, e do Opus One, um ícone da viticultura californiana. Marty falou em sua palestra sobre o estilo Mouton. "Nossos vinhos são todos assemblages, não temos nenhum varietal, pois, como na música, um solo é belo mas nada se compara a sonoridade de uma orquestra. Fazemos vinhos não para ganhar concursos, mas para nos dar orgulho ao vermos as garrafas vazias sobre as mesas dos restaurantes. Não gostamos de líquidos fortes demais, com excesso de carvalho, por isso nunca utilizamos barricas americanas. Preservamos o terroir local: não queremos fazer um Bordeaux no Chile ou na Califórnia, mas vinhos chilenos no Chile e californianos na Califórnia, porém todos com o estilo Mouton", afirma Marty. Após a palestra ele comandou uma prova de Almaviva, Opus One, Château d´Armaillac, Château Clerc Millon e, para encerrar, Château Mouton Rothschild. Poucas vezes se viu uma degustação deste nível para quase 200 pessoas.

Para quem já está trôpego peço que guarde um último fôlego. Para o ano que vem, Serpa e seus seguidores estão programando um evento dedicado à Borgonha, com uma degustação vertical de, nada menos que, o mítico La Romané Conti.