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por Marcelo Copello
O
que tem uma grande pedra azulada na região serrana do Espírito
Santo a ver com vinho? Aparentemente nada, mas a simples menção
do nome "Pedra Azul" têm feito amantes do vinho
suspirarem. Há alguns anos, quando recebi um folheto anunciando
que um grupo de eno-entusiastas degustaria vinhos raros e caríssimos
no alto de uma montanha no interior do país, achei que fosse
alguma espécie de trote. Minha incredulidade foi motivada
por três fatores: a qualidade das garrafas reunidas, nunca
antes vista no continente; a importância dos palestrantes,
algumas das maiores autoridades mundiais na área; e o improvável
local, distante dos grandes centros de consumo deste país.
O Encontro Internacional do Vinho no Espírito
Santo teve sua 5ª edição no início deste
mês. Promovido pela SOAVES (Sociedade dos Amigos de Vinho
do Espírito Santo), este encontro acontece todos os anos
na região montanhosa de Pedra Azul, situada a 90km de Vitória.
O presidente da instituição e mentor do evento, Roberto
Gomes Serpa, alcunhado por muitos de "o Baco de Pedra Azul",
provou que teimosia move montanhas. Em um estado pequeno, fora do
eixo Rio-São Paulo, que não produz vinhos, longe dos
grandes importadores, com dificuldade de patrocínios e parcerias,
sem ajuda de órgãos governamentais, num local distante
de qualquer aeroporto, Serpa conseguiu consolidar este como o mais
importante evento de degustação do continente. A fórmula
é simples: doses maciças de entusiasmo seu e de seus
discípulos, cada vez mais numerosos. Sem visar o lucro e
sem vínculo com nenhum esquema de comércio, política
ou promoção pessoal, a SOAVES angaria facilmente simpatizantes
sinceros à sua causa, e qualquer iniciativa com este espírito
é fadada ao sucesso.
O preço é alto em termos absolutos, mas
relativamente baixo se enumerarmos algumas das provas realizadas
nos últimos anos, especialmente após a recente alta
do dólar. Podemos citar a primeira vertical do hemisfério
sul de Château Le Pin, e as de Vega Sicilia, Château
Margaux, Don Perignon e Château Mouton Rothschild. Além
das degustações de cult wines da Califórnia
e de vinhos nota 100 de Robert Parker e da Wine Spectator. A dificuldade
de conseguir exemplares como estes é imensa, muitos simplesmente
não estão à venda, sendo garimpados em adegas
particulares ou adquiridos diretamente dos produtores.
Este ano um dos principais palestrantes foi Patrick
Vallete, filho do recém falecido Jean Paul Vallete, ex-proprietário
do grande Château Pavie. Patrick faz parte de uma nova geração
de enólogos franceses, conhecidos como garagistes, que fazem
vinhos artesanais, de "garagem", em pequenas propriedades
na região de Bordeaux. Uma de suas criações,
o Château Berliquet, já é considerado um dos
melhores de St. Emilion. Valette também é um requisitado
"flying winemaker", com projetos no Uruguai e Chile, onde
é responsável pelo excelente tinto El Principal. Sua
apresentação no evento teve como objetivo quebrar
o mito da standartização dos vinhos do novo mundo
e reafirmar o conceito de "small is beautifull", verdade
incontestável quando se trata do nobre fermentado. Segundo
ele, "o vinho tem que dar prazer a quem bebe e não apenas
fazer bonito nas degustações. Cada um deve guardar
sua opinião e comprar o que gosta".
Pascal Marty foi outro nome importante entre os presentes.
Este francês do grupo Rothschild é o enólogo
criador do Almaviva, hoje o rótulo de maior prestígio
do Chile, e do Opus One, um ícone da viticultura californiana.
Marty falou em sua palestra sobre o estilo Mouton. "Nossos
vinhos são todos assemblages, não temos nenhum varietal,
pois, como na música, um solo é belo mas nada se compara
a sonoridade de uma orquestra. Fazemos vinhos não para ganhar
concursos, mas para nos dar orgulho ao vermos as garrafas vazias
sobre as mesas dos restaurantes. Não gostamos de líquidos
fortes demais, com excesso de carvalho, por isso nunca utilizamos
barricas americanas. Preservamos o terroir local: não queremos
fazer um Bordeaux no Chile ou na Califórnia, mas vinhos chilenos
no Chile e californianos na Califórnia, porém todos
com o estilo Mouton", afirma Marty. Após a palestra
ele comandou uma prova de Almaviva, Opus One, Château d´Armaillac,
Château Clerc Millon e, para encerrar, Château Mouton
Rothschild. Poucas vezes se viu uma degustação deste
nível para quase 200 pessoas.
Para quem já está trôpego peço
que guarde um último fôlego. Para o ano que vem, Serpa
e seus seguidores estão programando um evento dedicado à
Borgonha, com uma degustação vertical de, nada menos
que, o mítico La Romané Conti.
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