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Mar de Vinho
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GAZETA MERCANTIL - Caderno Fim de Semana - 30/08/2002

O ESTILO NOVO MUNDO

por Marcelo Copello

O Chile está em segundo lugar entre os vinhos mais importados para o Brasil. Provavelmente estaria em primeiro se não fossem os fenômenos italianos Prosecco, Frascatti e Valpolicella.

A história do vinho chileno é antiga e possui 3 grandes momentos. O primeiro, em meados do século XVI, quando a colonização se iniciou e vinhas espanholas chegaram àquele país. Na segunda metade do século XIX, castas francesas, entre elas a Carménère, foram importadas e grandes empresas familiares fundadas, como a Concha y Toro (1883) e a Undurraga (1885). No século da globalização, o ano de 1985 foi marcado pela entrada das multinacionais e dos flying winemakers, fazendo do vinho chileno um símbolo do que se convencionou chamar o "estilo Novo Mundo": vinhos a bom preço, bem feitos, fáceis de beber e que agradam a uma ampla gama de consumidores.

É apostando neste estilo que a Gómez Carrera, uma das mais maiores e mais antigas importadoras brasileiras, está diversificando seu portfólio. Os primeiros a chegar são os novos rótulos chilenos da Viña Undurraga. Mário José Gómez Delgado, diretor desta importadora, promete não parar por aí. Seu plano é trazer mais vinhos do Novo Mundo, como australianos, neo-zelandeses e californianos. "Isto se o câmbio do dólar permitir", diz. Segundo Delgado, o cenário da economia é desanimador, tornando qualquer plano incerto. Aposta, contudo, num consumidor cada vez mais exigente e em busca de novidades.

Em 1948, Mário Gómez Carrera, sócio da extinta Sociedade União de Laticínios, criou nesta empresa um departamento de importação de alimentos e bebidas. Este seria o embrião da Gómez Carrera Importação e Exportação Ltda., fundada em 1978 por ele e seus filhos Mário José e Maria Luiza Gómez Delgado. Desde seu início, a empresa se associou à grandes marcas do Velho Mundo, notadamente espanholas. Nomes como a Lopez Hermanos de Málaga (conhecida pelos vinhos de sobremesa Lagrima Christi), Bodegas Peñalba Lopez, da Ribera del Duero, Williams & Humbert, de Jerez, e os famosos riojanos Marqués de Riscal, cujo enólogo é casado com Maria Luiza.

A Viña Undurraga é uma das únicas empresas familiares remanescentes do Chile. Foi também uma das pioneiras na exportação, com o primeiro embarque em 1903 para os EUA. Esta e todas as outras grandes vinícolas daquele país se voltam cada vez mais para a exportação, já que nos últimos 10 anos o consumo interno despencou, caindo de 30 para 13 litros anuais per capita. Hoje, 60% da produção chilena é exportada, e o Brasil é visto como mercado estratégico.

Uma curiosidade: os vinhos da Viña Undurraga são tradicionalmente vendidos em seu país natal em garrafas do formato "caramanhola", baixas e bojudas, como as do conhecido Matheus Rosé. Para exportação, todavia, o líquido é engarrafado em recipientes de formato tradicional bordalês. A razão é simples e de ordem prática: cada vasilhame original ocupa o espaço de dois convencionais nas prateleiras dos supermercados, aumentando o custo do produto. Além disso, seu transporte e armazenamento é complicado, até mesmo em adegas particulares. É a padronização internacional se impondo e descaracterizando um produto.

Esta coluna avaliou três dos rótulos que já estão nos supermercados:

Undurraga Carmenère Reserva 1999, Vale Conchagua (R$36,00). Um varietal da uva que é a menina dos olhos dos viticultores do Chile. De cor rubi com os primeiros traços granada, levemente turvo. 25% deste vinho passa 1 ano em carvalho novo francês. No nariz, tem cereja em primeiro plano, com aromas herbáceos, uma marca chilena, dominando depois de alguns minutos. É melhor no nariz que na boca, onde os 13% de álcool parecem pouco para uma acidez e tanicidade em ligeira supremacia. Bom.

Undurraga Cabernet Sauvignon Founder's Collection 1997, Vale do Maipo (R$70,00). 100% do líquido é guardado em barricas novas de carvalho francês por 16 meses. De cor granada claro com os primeiros reflexos alaranjados. Este é um vinho bem evoluído e redondo. Identifiquei aromas de caixa de charuto (cedro), defumados, frutas maduras (ameixa) e baunilha. Na boca é macio e equilibrado (12,5% de álcool) e está pronto para consumo. Muito bom.

Undurraga Sauvignon Blanc 2001, Valle Lotué (R$ 18,00). Um varietal 100%, feito para consumo imediato. Amarelo palha claro e brilhante, com reflexos esverdeados. Oferece aromas sutis de flores e minerais, seguidos de pêssegos e ervas. Leve no corpo, com um teor alcoólico de 12,5%, é refrescante. Para aperitivo ou pratos leves de peixe. Bom.

O grande vinho da casa, contudo, só chega ao Brasil na próxima semana. Trata-se do tinto premium Altazor, que aporta junto com outra novidade: o branco Gewurztraminer.