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Mar de Vinho
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Sobre Marcelo Copello  


GAZETA MERCANTIL - Caderno Fim de Semana - 06/09/2002

UMA QUESTÃO SENTIMENTAL

por Marcelo Copello

O Templo de Baco na cidade de Baalbeck, no Líbano, construído no século II da era cristã, imortalizou em pedra o esplendor que a região viveu na Antigüidade. Este monumento ao deus do vinho se localiza no vale do Bekaa, área mediterrânea do Canaan e da antiga Fenícia, que nos primórdios da civilização foi uma referência mundial desta bebida. Hoje, neste vale, de solo pedregoso de base calcária situado a 1.000 metros de altitude, estão plantadas quase todas as vinhas libanesas. O país, de 3,6 milhões de habitantes e 10 mil km2, anualmente produz cerca de 4 milhões de litros do fermentado, exportando 180 mil litros, que correspondem a cerca de US$ 1 milhão.

Durante séculos a vinicultura local hibernou, até que, na década de 1950, Serge Hochar, proprietário de um vinhedo no mencionado vale, foi a Bordeaux estudar o assunto. De lá, trouxe inovações como a desengaçadeira (aparelho que separa os bagos de uva dos cachos, evitando o amargor) e a fermentação em barris. O resultado veio no final da década de 70, quando seu tinto Chateau Musar, alcançou fama internacional. Hochar chegou a ser eleito em 1984 "Homem do ano" pela revista inglesa Decanter. A honraria se deveu à sua perseverança em não deixar de produzir durante a guerra civil vivida pelo país nos anos 70 e 80. Uma das conseqüências da devastação de Beirute foi a queda da demanda pelo nobre fermentado. A guerra fez com que a área plantada fosse reduzida, e a maior parte das uvas restantes passou a se destinar ao consumo in natura, a produção de passas ou de Arak (destilado nacional aromatizado com anis). Hoje, o Chateau Musar exporta 95% de suas garrafas, já que o consumo interno de vinhos de qualidade é mínimo.

Nos anos 80, os flying winemakers (consultores internacionais) chegaram ao país. Os resultados foram notados nos prêmios conquistados pelos Chateau Kefraya e Chateau Ksara, que junto com o Chateau Musar, formam a elite do país. O primeiro destes acaba de chegar ao Brasil trazido pela importadora do libanês Antoine Zahil. "Para mim é uma questão sentimental: nasci lá. É quase uma obrigação trazê-los", afirma. O Chateau Kefraya faz anualmente 1,5 milhão de garrafas, sendo 100 mil de seu vinho bandeira, que leva o nome da vinícola, e apenas 38 mil garrafas do top Comte de M.

De maneira geral, os vinhos libaneses sofrem uma influência claramente francesa, mais especificamente de Bordeaux e do Rhône. Tanto nas castas, quanto no estilo. Mas, que gosto estes vinhos têm? Vejamos:

Chateau Musar Blanc 1995, importado pela Mistral (tel.: 11 3285-1422, US$29.50). Feito com com uvas nativas, 70% Obaideh, que lembra a Chardonnay, e 30% Meroué ou Merweh, parecida com Sémillon. Vinificado em aço inox, amadurecido 6 meses em carvalho francês e depois mais 3 anos em adega. No nariz é complexo e muito fino, com amêndoas, cítricos, defumados e um toque exótico de ervas secas e especiarias. Na boca é bem seco, com uma sutil oxidação que faz lembrar um Jerez. Tem médio corpo e 12,5% de álcool, equilibrados com uma boa acidez. Para quem gosta de brancos maduros. Beber já. De muito bom a excelente.

Chateau Musar Rouge 1996, Mistral (US$39.50). Uma mistura de iguais proporções das variedades francesas Cabernet Sauvignon, Cinsault e Carignan. Estagia 12 a 15 meses em carvalho francês e mais quatro anos em garrafa antes de chegar ao mercado. Lembra um clássico do Rhône. De cor granada claro e límpido, com os primeiros reflexos alaranjados. Elegante e evoluído nos aromas, com couro, defumados, cereja madura e especiarias (anis estrelado), vegetal (musgo), caramelo e cedro. No palato é macio e quente (13% de álcool). Beber agora, ou, para quem gosta de vinhos envelhecidos, este viverá mais alguns anos com dignidade. Muito bom.

Chateau Kefraya 95, trazido pela Zahil (tel.: 11 5049-2400, R$88,00). Um blend com a maior parte de Cabernet Sauvignon, completado com Syrah e Mouvèdre, amarurecido 18 meses em carvalho. De cor granada entre claro e escuro. Aromas de tabaco, côco queimado, baunilha e geléia de frutas vermelhas. Na boca é denso e macio (13,5% de álcool). Demonstra afinidades com o Chateau Musar, porém com estilo mais moderno, mais encorpado e frutado, mas não tão elegante quanto o anterior. Beber ou guardar por uns 2 anos. Muito bom.

Comte de M. 1997, Zahil (R$196,00). Com a mesma composição de uvas do vinho anterior, este é mais rico e intenso. Feito à partir das vinhas mais velhas do Château. De cor rubi escura, com aromas variados: especiarias, ameixa madura, cereja, figos, couro, tabaco, defumados e chocolate. No palato é encorpado, com taninos maduros e bastante quente, com 14% de álcool. O melhor da prova. Beber ou guardar. Excelente.