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por Marcelo Copello
O Templo de Baco na cidade de Baalbeck, no Líbano,
construído no século II da era cristã, imortalizou
em pedra o esplendor que a região viveu na Antigüidade.
Este monumento ao deus do vinho se localiza no vale do Bekaa, área
mediterrânea do Canaan e da antiga Fenícia, que nos
primórdios da civilização foi uma referência
mundial desta bebida. Hoje, neste vale, de solo pedregoso de base
calcária situado a 1.000 metros de altitude, estão
plantadas quase todas as vinhas libanesas. O país, de 3,6
milhões de habitantes e 10 mil km2, anualmente produz cerca
de 4 milhões de litros do fermentado, exportando 180 mil
litros, que correspondem a cerca de US$ 1 milhão.
Durante séculos a vinicultura local hibernou,
até que, na década de 1950, Serge Hochar, proprietário
de um vinhedo no mencionado vale, foi a Bordeaux estudar o assunto.
De lá, trouxe inovações como a desengaçadeira
(aparelho que separa os bagos de uva dos cachos, evitando o amargor)
e a fermentação em barris. O resultado veio no final
da década de 70, quando seu tinto Chateau Musar, alcançou
fama internacional. Hochar chegou a ser eleito em 1984 "Homem
do ano" pela revista inglesa Decanter. A honraria se deveu
à sua perseverança em não deixar de produzir
durante a guerra civil vivida pelo país nos anos 70 e 80.
Uma das conseqüências da devastação de
Beirute foi a queda da demanda pelo nobre fermentado. A guerra fez
com que a área plantada fosse reduzida, e a maior parte das
uvas restantes passou a se destinar ao consumo in natura, a produção
de passas ou de Arak (destilado nacional aromatizado com anis).
Hoje, o Chateau Musar exporta 95% de suas garrafas, já que
o consumo interno de vinhos de qualidade é mínimo.
Nos anos 80, os flying winemakers (consultores
internacionais) chegaram ao país. Os resultados foram notados
nos prêmios conquistados pelos Chateau Kefraya e Chateau Ksara,
que junto com o Chateau Musar, formam a elite do país. O
primeiro destes acaba de chegar ao Brasil trazido pela importadora
do libanês Antoine Zahil. "Para mim é uma questão
sentimental: nasci lá. É quase uma obrigação
trazê-los", afirma. O Chateau Kefraya faz anualmente
1,5 milhão de garrafas, sendo 100 mil de seu vinho bandeira,
que leva o nome da vinícola, e apenas 38 mil garrafas do
top Comte de M.
De maneira geral, os vinhos libaneses sofrem uma influência
claramente francesa, mais especificamente de Bordeaux e do Rhône.
Tanto nas castas, quanto no estilo. Mas, que gosto estes vinhos
têm? Vejamos:
Chateau Musar Blanc 1995, importado pela Mistral (tel.:
11 3285-1422, US$29.50). Feito com com uvas nativas, 70% Obaideh,
que lembra a Chardonnay, e 30% Meroué ou Merweh, parecida
com Sémillon. Vinificado em aço inox, amadurecido
6 meses em carvalho francês e depois mais 3 anos em adega.
No nariz é complexo e muito fino, com amêndoas, cítricos,
defumados e um toque exótico de ervas secas e especiarias.
Na boca é bem seco, com uma sutil oxidação
que faz lembrar um Jerez. Tem médio corpo e 12,5% de álcool,
equilibrados com uma boa acidez. Para quem gosta de brancos maduros.
Beber já. De muito bom a excelente.
Chateau Musar Rouge 1996, Mistral (US$39.50). Uma mistura
de iguais proporções das variedades francesas Cabernet
Sauvignon, Cinsault e Carignan. Estagia 12 a 15 meses em carvalho
francês e mais quatro anos em garrafa antes de chegar ao mercado.
Lembra um clássico do Rhône. De cor granada claro e
límpido, com os primeiros reflexos alaranjados. Elegante
e evoluído nos aromas, com couro, defumados, cereja madura
e especiarias (anis estrelado), vegetal (musgo), caramelo e cedro.
No palato é macio e quente (13% de álcool). Beber
agora, ou, para quem gosta de vinhos envelhecidos, este viverá
mais alguns anos com dignidade. Muito bom.
Chateau Kefraya 95, trazido pela Zahil (tel.: 11 5049-2400,
R$88,00). Um blend com a maior parte de Cabernet Sauvignon, completado
com Syrah e Mouvèdre, amarurecido 18 meses em carvalho. De
cor granada entre claro e escuro. Aromas de tabaco, côco queimado,
baunilha e geléia de frutas vermelhas. Na boca é denso
e macio (13,5% de álcool). Demonstra afinidades com o Chateau
Musar, porém com estilo mais moderno, mais encorpado e frutado,
mas não tão elegante quanto o anterior. Beber ou guardar
por uns 2 anos. Muito bom.
Comte de M. 1997, Zahil (R$196,00).
Com a mesma composição de uvas do vinho anterior,
este é mais rico e intenso. Feito à partir das vinhas
mais velhas do Château. De cor rubi escura, com aromas variados:
especiarias, ameixa madura, cereja, figos, couro, tabaco, defumados
e chocolate. No palato é encorpado, com taninos maduros e
bastante quente, com 14% de álcool. O melhor da prova. Beber
ou guardar. Excelente.
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