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Mar de Vinho
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Sobre Marcelo Copello  


GAZETA MERCANTIL - Caderno Fim de Semana - 13/09/2002

A FEBRE DOURADA - PARTE I

por Marcelo Copello

Por vezes já ouvi a frase: "Não entendo muito de vinho, mas uma coisa eu já aprendi: vinho bom é vinho tinto". O pouco prestígio que os vinhos brancos gozam no Brasil é um fenômeno incompreensível para a maioria dos produtores estrangeiros que nos visitam. Afinal, o país é majoritariamente tropical e os peixes, frutos do mar, frutas e saladas têm papel importante em nossa culinária. Este preconceito só pode ser entendido com uma analise do histórico da evolução do nosso mercado, que ainda engatinha, onde a desinformação impera e a moda se impõe.

Nos anos 70, a mania foi o rosado português Matheus Rosé, frisante e semi-doce. Nos anos 80, dominaram os pseudo-alemães da garrafa azul, cuja intensidade do consumo foi inversamente proporcional à qualidade. Como conseqüência, associou-se qualquer vinho branco àqueles caldos açucarados intragáveis.

Hoje estão em voga os tintos super-encorpados, super-alcoólicos, super-madeirados e, na maioria das vezes, super-caros. Todavia, os verdadeiros amantes do nobre fermentado não se dividem em bebedores de vinhos tintos ou brancos. São apenas apreciadores de produtos de categoria. E esta não se exprime necessariamente em cor escura ou teor alcoólico alto. Lembro que o Château Margaux raramente ultrapassa os 12% de álcool e o La Romanée Conti tem cor clara.

Outros fatores que explicam a preferência pelos tintos são: a pouca oferta de brancos nacionais de bom nível; a popularidade de rótulos de classe inferior, como a maioria dos Frascatti e o fenômeno Prosecco (a ponto de ouvir do importador dos espumantes espanhóis Cava Codorniú que muitos clientes pedem "Prosecco Codorniú"...); e, por fim, a associação dos tintos à saúde.

Que nossa bebida favorita faz bem, sobretudo os tintos, sabemos. Mas isto não deveria ser um argumento para o abandono dos brancos. Não esqueçamos que o "paradoxo francês" (baixo índice de problemas causados pelo colesterol em um país de alto consumo de gorduras saturadas) vem da nação que produz os maiores brancos do mundo. Quem quiser uma justificativa para se conceder o prazer dos vinhos brancos, já tem: recentemente, cientistas do departamento de anatomia humana da Universidade de Milão, comprovaram que substâncias contidas nestes reduzem a tendência a doenças como artrite reumática e osteoporose.

A primazia dos tintos chegou ao extremo de motivar alguns os vitivinicultores brasileiros a arrancar vinhas de castas brancas para plantar tintas em seu lugar. Os rubros também contribuem com cerca de 80% do volume dos vinhos de mesa importados para o Brasil.

Uma iniciativa admirável contra esta onda é a "SuperWhites". Esta organização foi criada em 1999 por vinhateiros do Friuli, nordeste da Itália, onde se produzem os maiores brancos daquele país. O movimento é um filhote da Slow Food International, poderosa entidade fundada em 1985 na pequena vila italiana de Bra, no Piemonte, por um grupo de intelectuais liderados por Carlo Petrini, seu atual presidente. A SuperWhites, através de rígidos padrões de qualidade atestados pela Slow Food, selecionou e reuniu os melhores produtores da região, criando um website, o www.superwhites.it. Pretendem, assim, promover o grupo em bloco, disseminando o consumo dos vinhos brancos ao redor do mundo.

Iniciativa semelhante deveria ser tomada pelos produtores brasileiros de espumantes. Desta maneira poderiam ganhar o mercado internacional. Associar a imagem alegre do Brasil à das comemorações inerentes aos espumantes não é tarefa difícil.

Quando o consumidor brasileiro estiver mais seguro de seu gosto pessoal e comprar pelo prazer de beber, e não por modismos, o vinho branco certamente irá prevalecer. Ele combina com uma grande variedade de pratos e queijos, com nosso clima e, sobretudo, com o temperamento expansivo da população, o que sugere uma maior afinidade com a fragrância dos brancos do que com os tintos mais sérios e cerebrais. É o caminho para o aumento de consumo desta bebida no Brasil.

Na próxima semana trataremos da nova febre que contagiou os EUA: os brancos italianos da uva Pinot Grigio.