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por Marcelo Copello
Por vezes já ouvi a frase: "Não
entendo muito de vinho, mas uma coisa eu já aprendi: vinho
bom é vinho tinto". O pouco prestígio que os
vinhos brancos gozam no Brasil é um fenômeno incompreensível
para a maioria dos produtores estrangeiros que nos visitam. Afinal,
o país é majoritariamente tropical e os peixes, frutos
do mar, frutas e saladas têm papel importante em nossa culinária.
Este preconceito só pode ser entendido com uma analise do
histórico da evolução do nosso mercado, que
ainda engatinha, onde a desinformação impera e a moda
se impõe.
Nos anos 70, a mania foi o rosado português Matheus
Rosé, frisante e semi-doce. Nos anos 80, dominaram os pseudo-alemães
da garrafa azul, cuja intensidade do consumo foi inversamente proporcional
à qualidade. Como conseqüência, associou-se qualquer
vinho branco àqueles caldos açucarados intragáveis.
Hoje estão em voga os tintos super-encorpados,
super-alcoólicos, super-madeirados e, na maioria das vezes,
super-caros. Todavia, os verdadeiros amantes do nobre fermentado
não se dividem em bebedores de vinhos tintos ou brancos.
São apenas apreciadores de produtos de categoria. E esta
não se exprime necessariamente em cor escura ou teor alcoólico
alto. Lembro que o Château Margaux raramente ultrapassa os
12% de álcool e o La Romanée Conti tem cor clara.
Outros fatores que explicam a preferência pelos
tintos são: a pouca oferta de brancos nacionais de bom nível;
a popularidade de rótulos de classe inferior, como a maioria
dos Frascatti e o fenômeno Prosecco (a ponto de ouvir do importador
dos espumantes espanhóis Cava Codorniú que muitos
clientes pedem "Prosecco Codorniú"...); e, por
fim, a associação dos tintos à saúde.
Que nossa bebida favorita faz bem, sobretudo os tintos,
sabemos. Mas isto não deveria ser um argumento para o abandono
dos brancos. Não esqueçamos que o "paradoxo francês"
(baixo índice de problemas causados pelo colesterol em um
país de alto consumo de gorduras saturadas) vem da nação
que produz os maiores brancos do mundo. Quem quiser uma justificativa
para se conceder o prazer dos vinhos brancos, já tem: recentemente,
cientistas do departamento de anatomia humana da Universidade de
Milão, comprovaram que substâncias contidas nestes
reduzem a tendência a doenças como artrite reumática
e osteoporose.
A primazia dos tintos chegou ao extremo de motivar
alguns os vitivinicultores brasileiros a arrancar vinhas de castas
brancas para plantar tintas em seu lugar. Os rubros também
contribuem com cerca de 80% do volume dos vinhos de mesa importados
para o Brasil.
Uma iniciativa admirável contra esta onda é
a "SuperWhites". Esta organização foi criada
em 1999 por vinhateiros do Friuli, nordeste da Itália, onde
se produzem os maiores brancos daquele país. O movimento
é um filhote da Slow Food International, poderosa entidade
fundada em 1985 na pequena vila italiana de Bra, no Piemonte, por
um grupo de intelectuais liderados por Carlo Petrini, seu atual
presidente. A SuperWhites, através de rígidos padrões
de qualidade atestados pela Slow Food, selecionou e reuniu os melhores
produtores da região, criando um website, o www.superwhites.it.
Pretendem, assim, promover o grupo em bloco, disseminando o consumo
dos vinhos brancos ao redor do mundo.
Iniciativa semelhante deveria ser tomada pelos produtores
brasileiros de espumantes. Desta maneira poderiam ganhar o mercado
internacional. Associar a imagem alegre do Brasil à das comemorações
inerentes aos espumantes não é tarefa difícil.
Quando o consumidor brasileiro estiver mais seguro
de seu gosto pessoal e comprar pelo prazer de beber, e não
por modismos, o vinho branco certamente irá prevalecer. Ele
combina com uma grande variedade de pratos e queijos, com nosso
clima e, sobretudo, com o temperamento expansivo da população,
o que sugere uma maior afinidade com a fragrância dos brancos
do que com os tintos mais sérios e cerebrais. É o
caminho para o aumento de consumo desta bebida no Brasil.
Na próxima semana trataremos da nova febre que
contagiou os EUA:
os brancos italianos da uva Pinot Grigio.
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