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Mar de Vinho
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Sobre Marcelo Copello  


GAZETA MERCANTIL - Caderno Fim de Semana - 20/09/2002

O FRANCÊS EMERGENTE DA REGIÃO MEDITERRÂNEA

por Marcelo Copello - de Carcassonne (Languedoc, França)

Château Cabezac - por Magalí GacekPoucas regiões vitivinícolas conheceram tão grande salto qualitativo neste últimos anos quanto o Languedoc. A região, outrora chamada de Midi, situa-se no centro-sul do país, entre o Mar Mediterrâneo e os Pirineus. Toda uma nova geração de viticultores está realizando progressos extraordinários, como o aperfeiçoamento das cepas, a redução do rendimento de seus vinhedos, seleção dos melhores terrenos, elaboração de "cuvées" especiais, investimento em cubas de aço inox e em tonéis de carvalho. Por estar localizada entre mar e montanha, ter grande diversidade de terroirs e inúmeras cepas cultivadas essa parte do território francês possui um enorme potencial vinícola.

Desde os primórdios das civilizações, o Languedoc foi habitado pelos mais diversos povos: ibéricos, celtas, gregos, gauleses, romanos, visigodos, árabes, aragoneses e francos. No século VIII, se tornou Carolíngea. Como resultado, a região tem vasta tradição cultural e humanística, aberta ao grande turismo, a explorar suas montanhas, rios e cavernas. Com riquezas paleolíticas, monumentos, pontes, castelos e igrejas, o Canal do Midi, o Mediterrâneo, além de belas paisagens naturais.

As vinhas chegaram com os soldados romanos que, depois da expulsão dos cartagineses, as plantaram nas regiões hoje denominadas Corbières, Minervois e Côteaux du Languedoc. Este foi o primeiro grande vinhedo da França. Vários fatos contribuíram para que o Languedoc chegasse ao século XX como o abastecedor de vinho de toda a França e exportador para vários países.

Esta região foi uma das primeiras a sofrer com a praga da Phylloxera e a descobrir soluções de enxertadura. Conseqüentemente, foi a precursora a replantar vinhedos. Além disso pouco sofreu com a Revolução Francesa, ganhou novos mercados nos países conquistados por Napoleão e nos exércitos usados nestas conquistas.

Visando mais quantidade que qualidade, os produtores multiplicaram os vinhedos. Entre 1825 e 1850, duplicou-se a área plantada. O consumo de vinícola crescia em todo o mundo. Os agricultores do norte da França substituíram vinhedos por agricultura para alimentar a crescente população urbana. Enquanto no Languedoc replantaram em excesso depois da Phylloxera. Em 1875 possuíam 17% das vinhas da França, hoje têm 27%.

A euforia tomou conta dos vinhateiros e não demorou a chegar à superprodução. Os preços, inevitavelmente, desabaram. Na década de 1880, em pleno auge da Phylloxera, um hectolitro de vinho custava 30 francos. Em 1900, o preço caiu para 10 francos, enquanto o vinhateiro gastava 15 francos para produzi-lo.

Os agricultores da região lançaram um protesto contra a superprodução, baixos preços, baixa qualidade, competição dos trabalhadores marroquinos e argelinos e a chaptalização. Este processo, inventado pelo francês Chaptal para aumentar o teor alcoólico dos vinhos através da adição de açúcar à fermentação do mosto de uvas, possibilitava a concorrência dos vinhos mais fracos do norte. A revolução foi liderada por Albert Marcellin, conhecido como "Lo Cigal", ou "a cigarra" no dialeto local, por conta de discursos inflamados feitos de cima de árvores.

Marcellin, com seu slogan "vive la nature!", chegou a reunir 500 mil manifestantes em 1907 na cidade de Montpelier. O governo mandou tropas para contê-los e cinco pessoas morreram no conflito. Marcellin foi a Paris negociar com o primeiro-ministro Clemenceau. Como resultado, o governo apresentou um projeto de lei que começou um longo processo de recuperação da qualidade e da imagem dos vinhos da região, até hoje associada aos "vin ordinaire" produzidos para alimentar os trabalhadores da França.

Os números impressionam. O Languedoc é hoje a segunda região da França em exportação de vinhos de Appellation d'Origine Contrôlée (AOC), atrás apenas de Bordeaux. As exportações aumentaram 20% em volume e 60% em valor nos últimos três anos, atingindo mais de 1 bilhão de francos e 70 mil hectolitros. A Europa consome 74% deste montante.

O Languedoc é uma das maiores regiões vinícolas do mundo e o maior vinhedo da França em superfície, com 300.000 hectares que produzem cerca de 20 milhões de hectolitros por ano. Destes, 40.000 hectares e 1,8 milhões de hectolitros são de vinhos de origem controlada, representando a quarta região francesa em produção de vinhos desta categoria. São 83% de tintos, 11% de rosés e 6% de brancos. Além disso, grande parte do Vin de Pays d'OC francês é produzido nesta região, com mais de 50 denominações, que incluem excelentes varietais.

A região é um grande mosaico de terroirs e castas. Seu vinhedo é mediterrâneo pela localização geográfica e pelo clima quente e seco, com chuvas raras e irregulares. As influências são múltiplas: oceânica, montanhosa e de altitude, atenuando os efeitos da seca. O confronto entre ventos continentais e marítimos influencia de forma extraordinária o comportamento da vinha e da uva.

As principais AOCs do Languedoc são:
Corbières - A mais importante apelação com 11 terroirs de montanha e mar com uma excelente gama de Crus. Localizada num maciço selvagem, com grande diversidade geológica e climática. Tintos ricos e com raça, os rosés frescos e os brancos florais.

Côteaux du Languedoc - Compreende 12 terroirs, cujo nome pode completar o da denominação. A zona xistosa produz vinhos frutados e leves, enquanto as zonas argilo-calcárias produzem vinhos mais encorpados.

Casta Minervois - por Magalí GacekMinervois - O solo rochoso desta região precisa, muitas vezes, ser triturado por tratores para que as vinhas possam ser plantadas junto com um pouco de terra (foto ao lado). Seus vinhos tintos, à base de Grenache Noir, Syrah e Mourvèdre, são amplos, carnudos e frutados. Os brancos são florais e frescos.

Saint-Chinian - Encostas pedregosas viradas para o mar, sobre xistos ou solos argilo-calcários. Tintos robustos, com aromas vegetais. Ganham ao envelhecer.

Faugères - O terreno montanhoso e de solos xistosos contribui para a tipicidade de seus tintos e rosés. Vinhos capitosos e acetinados, com aromas de frutas vermelhas, alcaçuz e pimenta.

Fitou - Foi o primeiro tinto da região a obter, em 1948, a AOC. Tintos de cor rubi, carnudos e que fazem lembrar flores campestres. Com o envelhecimento em garrafa adquirem aromas de especiarias.

Limoux - No vale do Rio Aube, este vinhedo se beneficia de influências marítimas. Suas encostas calcárias e pedregosas produzem os mais antigos espumantes da França, os Crémant de Limoux e Blanquete de Limoux, que também são vinhos brancos tranqüilos ou doces naturais.

Além destas denominações, há os famosos vinhos brancos doces naturais da região:
Muscat de Lunel - Solo silicioso, rico em pedras. Vinhos aveludados de cor âmbar, aromas cítricos e florais de grande fineza.

Muscat Saint-Jean de Minervois - Situada a 200 metros de altitude, sobre as planícies calcárias de Haut-Minervois, as videiras são normalmente colhidas depois das outras regiões, resultando em grande fineza e frescor. Aromas florais e frutados delicados.

Muscat de Frontignan - Em declives argilo-calcários, esta uva produz vinhos potentes e untuosos, com reflexos dourados e com finos aromas de mel, amêndoas e doces de frutas cítricas.

Muscat de Mireval - Localizada ao sul do Maciço de Gardiole, em encostas calcárias, a região favorece vinhos de doçura notável, com aromas de uva madura, rosa e mel.

As castas mais representativas são as tintas Carignan, Grenache Noir, Grenache Gris, Syrah, Mourvèdre, Cinsault, Merlot, Cot e Cabernet Sauvignon. As brancas Grenache Blanc, Maccabeu, Bourboulenc, Mersanne, Rousanne, Piquepoul Blanc, Mauzac, Chenin, Chardonnay, Clairette Blanche, Rolle e Muscat.

O Languedoc é terreno fértil para um dos principais esportes dos apreciadores de vinho: a descoberta de boas novidades a bom preço. Robert Parker também sabe disso e já indicou alguns, como o excelente Prieure de Saint-Jean de Bebian, da AOC Coteaux du Languedoc feito com Syrah, Grenache e Mourvèdre. O vinho da safra de 1998 é bem estruturado, de cor rubi com reflexos alaranjados, muito fino e intenso no nariz, com aromas de cereja, chocolate, café e especiarias. Excelente, deve evoluir na garrafa por alguns anos. Expand (tel. 11 4613-3333).

Outro destaque é o La Glorie de Mon Père 1999, - título do romance de Marcel Pagnol - do produtor Clos Bagatelle da AOC Saint-Chinian, ainda sem representante no Brasil. Feito com as uvas Grenache, Mourvèdre e Syrah, tem grande finesse. Tem cor rubi escuro e predominam aromas de frutas vermelhas. Na boca é pleno, sem perder a elegância.

Château Cabezac - por Magalí GacekO Château Cabezac (foto acima e ao lado), produtor da AOC Minervois que está investindo pesado na qualidade de seus vinhos, tem como top o Cuvée Arthur, feito das uvas Grenache e Mourvèdre que amadurece 15 meses em barris de carvalho. É encorpado e complexo no nariz, com aromas de torrefação, especiarias, frutas negras e um toque de carvalho. Bom representante do terroir local. O mesmo produtor, representado no Brasil pela Expand, faz ainda outros bons vinhos, como o Vin de Pays d'OC Merlot, um varietal 100%, denso, aveludado e equilibrado nos taninos.

Há também bons brancos entre os Vin de Pays d'OC, como o Avarus Chardonnay, também descoberto por Parker, mas ainda sem representante no Brasil. É fermentado em barris de carvalho, com cor dourada e aromas de baunilha, torrefação, anis estrelado e carvalho. Um estilo internacional.

Um Cru da região é o Château Chenaie, Cuvée Les Douves da AOC Faugères. As uvas Grenache, Mourvèdre e Syrah sofrem longa maceração (60 dias) com temperaturas controladas, sendo amadurecidas por um ano em carvalho novo. Com cor púrpura, aromas de café torrado, baunilha e cereja, ainda um pouco tânico, o vinho é excelente. A produção é de apenas 15 mil garrafas.

A Domain Galtier, da AOC Coteaux du Languedoc, representada no Brasil pelo Club du Taste Vin (tel. 21 2240-0350), produz um tinto muito interessante. Feito com vinhas velhas (de até cem anos) de Carignan, além de Grenache Noir e Syrah, é bastante jovem e frutado, com aromas de frutas cristalizadas e pimenta-do-reino.

O produtor Le Prieuré Saint Sever, da AOC Faugères, faz o Mas Gabinèle. O vinho, das variedades Grenache, Mourvèdre, Syrah e Carignan, é o que os americanos chamam de "full bodied", muito encorpado. Amadurecido um ano em barris novos de carvalho, tem cor roxa profunda e equilíbrio impecável. Aromas de cravo, defumado, musgo, nozes e avelãs. Este produtor também faz o interessantíssimo Mas Gabinèle Late Harvest, um vinho tinto meio-doce, feito com as uvas Grenache preta e Grenache cinza, colhidas tardiamente, rendendo só 10 hectolitros por hectare, o que é pouquíssimo. Amadurecido em carvalho sete meses, o vinho é muito original e expressivo, com uma bela cor rubi brilhante e aromas de chocolate, um casamento interessante entre acidez, tanicidade e doçura.

O potencial do Languedoc apenas começa a emergir. Os últimos preconceitos quanto aos vinhos desta região cairão por terra. Algumas de suas sub-regiões só receberam a AOC em meados dos anos 80. Outros produtores evoluíram fora destas regulamentações, plantando castas não tradicionais da região, como Merlot e Chardonnay.