|
por Marcelo Copello - de Carcassonne (Languedoc, França)
Poucas
regiões vitivinícolas conheceram tão grande
salto qualitativo neste últimos anos quanto o Languedoc.
A região, outrora chamada de Midi, situa-se no centro-sul
do país, entre o Mar Mediterrâneo e os Pirineus. Toda
uma nova geração de viticultores está realizando
progressos extraordinários, como o aperfeiçoamento
das cepas, a redução do rendimento de seus vinhedos,
seleção dos melhores terrenos, elaboração
de "cuvées" especiais, investimento em cubas de
aço inox e em tonéis de carvalho. Por estar localizada
entre mar e montanha, ter grande diversidade de terroirs e inúmeras
cepas cultivadas essa parte do território francês possui
um enorme potencial vinícola.
Desde os primórdios das civilizações,
o Languedoc foi habitado pelos mais diversos povos: ibéricos,
celtas, gregos, gauleses, romanos, visigodos, árabes, aragoneses
e francos. No século VIII, se tornou Carolíngea. Como
resultado, a região tem vasta tradição cultural
e humanística, aberta ao grande turismo, a explorar suas
montanhas, rios e cavernas. Com riquezas paleolíticas, monumentos,
pontes, castelos e igrejas, o Canal do Midi, o Mediterrâneo,
além de belas paisagens naturais.
As vinhas chegaram com os soldados romanos que, depois
da expulsão dos cartagineses, as plantaram nas regiões
hoje denominadas Corbières, Minervois e Côteaux du
Languedoc. Este foi o primeiro grande vinhedo da França.
Vários fatos contribuíram para que o Languedoc chegasse
ao século XX como o abastecedor de vinho de toda a França
e exportador para vários países.
Esta região foi uma das primeiras a sofrer com
a praga da Phylloxera e a descobrir soluções de enxertadura.
Conseqüentemente, foi a precursora a replantar vinhedos. Além
disso pouco sofreu com a Revolução Francesa, ganhou
novos mercados nos países conquistados por Napoleão
e nos exércitos usados nestas conquistas.
Visando mais quantidade que qualidade, os produtores
multiplicaram os vinhedos. Entre 1825 e 1850, duplicou-se a área
plantada. O consumo de vinícola crescia em todo o mundo.
Os agricultores do norte da França substituíram vinhedos
por agricultura para alimentar a crescente população
urbana. Enquanto no Languedoc replantaram em excesso depois da Phylloxera.
Em 1875 possuíam 17% das vinhas da França, hoje têm
27%.
A euforia tomou conta dos vinhateiros e não
demorou a chegar à superprodução. Os preços,
inevitavelmente, desabaram. Na década de 1880, em pleno auge
da Phylloxera, um hectolitro de vinho custava 30 francos. Em 1900,
o preço caiu para 10 francos, enquanto o vinhateiro gastava
15 francos para produzi-lo.
Os agricultores da região lançaram um
protesto contra a superprodução, baixos preços,
baixa qualidade, competição dos trabalhadores marroquinos
e argelinos e a chaptalização. Este processo, inventado
pelo francês Chaptal para aumentar o teor alcoólico
dos vinhos através da adição de açúcar
à fermentação do mosto de uvas, possibilitava
a concorrência dos vinhos mais fracos do norte. A revolução
foi liderada por Albert Marcellin, conhecido como "Lo Cigal",
ou "a cigarra" no dialeto local, por conta de discursos
inflamados feitos de cima de árvores.
Marcellin, com seu slogan "vive la nature!",
chegou a reunir 500 mil manifestantes em 1907 na cidade de Montpelier.
O governo mandou tropas para contê-los e cinco pessoas morreram
no conflito. Marcellin foi a Paris negociar com o primeiro-ministro
Clemenceau. Como resultado, o governo apresentou um projeto de lei
que começou um longo processo de recuperação
da qualidade e da imagem dos vinhos da região, até
hoje associada aos "vin ordinaire" produzidos para alimentar
os trabalhadores da França.
Os números impressionam. O Languedoc é
hoje a segunda região da França em exportação
de vinhos de Appellation d'Origine Contrôlée (AOC),
atrás apenas de Bordeaux. As exportações aumentaram
20% em volume e 60% em valor nos últimos três anos,
atingindo mais de 1 bilhão de francos e 70 mil hectolitros.
A Europa consome 74% deste montante.
O Languedoc é uma das maiores regiões
vinícolas do mundo e o maior vinhedo da França em
superfície, com 300.000 hectares que produzem cerca de 20
milhões de hectolitros por ano. Destes, 40.000 hectares e
1,8 milhões de hectolitros são de vinhos de origem
controlada, representando a quarta região francesa em produção
de vinhos desta categoria. São 83% de tintos, 11% de rosés
e 6% de brancos. Além disso, grande parte do Vin de Pays
d'OC francês é produzido nesta região, com mais
de 50 denominações, que incluem excelentes varietais.
A região é um grande mosaico de terroirs
e castas. Seu vinhedo é mediterrâneo pela localização
geográfica e pelo clima quente e seco, com chuvas raras e
irregulares. As influências são múltiplas: oceânica,
montanhosa e de altitude, atenuando os efeitos da seca. O confronto
entre ventos continentais e marítimos influencia de forma
extraordinária o comportamento da vinha e da uva.
As principais AOCs do Languedoc são:
Corbières - A mais importante apelação com
11 terroirs de montanha e mar com uma excelente gama de Crus. Localizada
num maciço selvagem, com grande diversidade geológica
e climática. Tintos ricos e com raça, os rosés
frescos e os brancos florais.
Côteaux du Languedoc - Compreende 12 terroirs,
cujo nome pode completar o da denominação. A zona
xistosa produz vinhos frutados e leves, enquanto as zonas argilo-calcárias
produzem vinhos mais encorpados.
Minervois
- O solo rochoso desta região precisa, muitas vezes, ser
triturado por tratores para que as vinhas possam ser plantadas junto
com um pouco de terra (foto ao lado). Seus vinhos tintos, à
base de Grenache Noir, Syrah e Mourvèdre, são amplos,
carnudos e frutados. Os brancos são florais e frescos.
Saint-Chinian - Encostas pedregosas viradas para o
mar, sobre xistos ou solos argilo-calcários. Tintos robustos,
com aromas vegetais. Ganham ao envelhecer.
Faugères - O terreno montanhoso e de solos xistosos
contribui para a tipicidade de seus tintos e rosés. Vinhos
capitosos e acetinados, com aromas de frutas vermelhas, alcaçuz
e pimenta.
Fitou - Foi o primeiro tinto da região a obter,
em 1948, a AOC. Tintos de cor rubi, carnudos e que fazem lembrar
flores campestres. Com o envelhecimento em garrafa adquirem aromas
de especiarias.
Limoux - No vale do Rio Aube, este vinhedo se beneficia
de influências marítimas. Suas encostas calcárias
e pedregosas produzem os mais antigos espumantes da França,
os Crémant de Limoux e Blanquete de Limoux, que também
são vinhos brancos tranqüilos ou doces naturais.
Além destas denominações, há
os famosos vinhos brancos doces naturais da região:
Muscat de Lunel - Solo silicioso, rico em pedras. Vinhos aveludados
de cor âmbar, aromas cítricos e florais de grande fineza.
Muscat Saint-Jean de Minervois - Situada a 200 metros
de altitude, sobre as planícies calcárias de Haut-Minervois,
as videiras são normalmente colhidas depois das outras regiões,
resultando em grande fineza e frescor. Aromas florais e frutados
delicados.
Muscat de Frontignan - Em declives argilo-calcários,
esta uva produz vinhos potentes e untuosos, com reflexos dourados
e com finos aromas de mel, amêndoas e doces de frutas cítricas.
Muscat de Mireval - Localizada ao sul do Maciço
de Gardiole, em encostas calcárias, a região favorece
vinhos de doçura notável, com aromas de uva madura,
rosa e mel.
As castas mais representativas são as tintas
Carignan, Grenache Noir, Grenache Gris, Syrah, Mourvèdre,
Cinsault, Merlot, Cot e Cabernet Sauvignon. As brancas Grenache
Blanc, Maccabeu, Bourboulenc, Mersanne, Rousanne, Piquepoul Blanc,
Mauzac, Chenin, Chardonnay, Clairette Blanche, Rolle e Muscat.
O Languedoc é terreno fértil para um
dos principais esportes dos apreciadores de vinho: a descoberta
de boas novidades a bom preço. Robert Parker também
sabe disso e já indicou alguns, como o excelente Prieure
de Saint-Jean de Bebian, da AOC Coteaux du Languedoc feito com Syrah,
Grenache e Mourvèdre. O vinho da safra de 1998 é bem
estruturado, de cor rubi com reflexos alaranjados, muito fino e
intenso no nariz, com aromas de cereja, chocolate, café e
especiarias. Excelente, deve evoluir na garrafa por alguns anos.
Expand (tel. 11 4613-3333).
Outro destaque é o La Glorie de Mon Père
1999, - título do romance de Marcel Pagnol - do produtor
Clos Bagatelle da AOC Saint-Chinian, ainda sem representante no
Brasil. Feito com as uvas Grenache, Mourvèdre e Syrah, tem
grande finesse. Tem cor rubi escuro e predominam aromas de frutas
vermelhas. Na boca é pleno, sem perder a elegância.
O
Château Cabezac (foto acima e ao lado), produtor da AOC Minervois
que está investindo pesado na qualidade de seus vinhos, tem
como top o Cuvée Arthur, feito das uvas Grenache e Mourvèdre
que amadurece 15 meses em barris de carvalho. É encorpado
e complexo no nariz, com aromas de torrefação, especiarias,
frutas negras e um toque de carvalho. Bom representante do terroir
local. O mesmo produtor, representado no Brasil pela Expand, faz
ainda outros bons vinhos, como o Vin de Pays d'OC Merlot, um varietal
100%, denso, aveludado e equilibrado nos taninos.
Há também bons brancos entre os Vin de
Pays d'OC, como o Avarus Chardonnay, também descoberto por
Parker, mas ainda sem representante no Brasil. É fermentado
em barris de carvalho, com cor dourada e aromas de baunilha, torrefação,
anis estrelado e carvalho. Um estilo internacional.
Um Cru da região é o Château Chenaie,
Cuvée Les Douves da AOC Faugères. As uvas Grenache,
Mourvèdre e Syrah sofrem longa maceração (60
dias) com temperaturas controladas, sendo amadurecidas por um ano
em carvalho novo. Com cor púrpura, aromas de café
torrado, baunilha e cereja, ainda um pouco tânico, o vinho
é excelente. A produção é de apenas
15 mil garrafas.
A Domain Galtier, da AOC Coteaux du Languedoc, representada
no Brasil pelo Club du Taste Vin (tel. 21 2240-0350), produz um
tinto muito interessante. Feito com vinhas velhas (de até
cem anos) de Carignan, além de Grenache Noir e Syrah, é
bastante jovem e frutado, com aromas de frutas cristalizadas e pimenta-do-reino.
O produtor Le Prieuré Saint Sever, da AOC Faugères,
faz o Mas Gabinèle. O vinho, das variedades Grenache, Mourvèdre,
Syrah e Carignan, é o que os americanos chamam de "full
bodied", muito encorpado. Amadurecido um ano em barris novos
de carvalho, tem cor roxa profunda e equilíbrio impecável.
Aromas de cravo, defumado, musgo, nozes e avelãs. Este produtor
também faz o interessantíssimo Mas Gabinèle
Late Harvest, um vinho tinto meio-doce, feito com as uvas Grenache
preta e Grenache cinza, colhidas tardiamente, rendendo só
10 hectolitros por hectare, o que é pouquíssimo. Amadurecido
em carvalho sete meses, o vinho é muito original e expressivo,
com uma bela cor rubi brilhante e aromas de chocolate, um casamento
interessante entre acidez, tanicidade e doçura.
O potencial do Languedoc apenas começa a emergir.
Os últimos preconceitos quanto aos vinhos desta região
cairão por terra. Algumas de suas sub-regiões só
receberam a AOC em meados dos anos 80. Outros produtores evoluíram
fora destas regulamentações, plantando castas não
tradicionais da região, como Merlot e Chardonnay.
|