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Mar de Vinho
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GAZETA MERCANTIL - Caderno Fim de Semana - 18/10/2002

DA UVA AO VINHO - PARTE II

por Marcelo Copello

Na semana passada abordamos o processo de elaboração dos vinhos brancos. Vejamos agora, em linhas gerais, como se dá a produção de tintos.

O que caracteriza a elaboração dos vinhos tintos é a extração de sua cor. Esta provém unicamente das cascas das uvas tintas, o que possibilita que os vinhos brancos sejam produzidos a partir tanto de uvas brancas quanto de uvas tintas sem as cascas, enquanto os tintos são feitos unicamente a partir de uvas tintas com as cascas.

Após serem esmagadas e separadas de seus engaços (caule que prende as uvas ao cacho), as uvas tintas, já em forma de suco ou mosto, recebem adição de leveduras e conservante SO2 (anidrido sulfuroso). Neste momento inicia-se a fermentação alcoólica, que, para os tintos, acontece a temperaturas mais altas do que os brancos, entre 25º e 28º C. O processo de contato mais ou menos prolongado do suco com as cascas das uvas, quando ocorre a dissolução de pigmentos e outras substâncias contidos nas cascas, chama-se maceração. Esta pode durar cerca de dois ou três dias para vinhos muito leves e até mais de 30 dias para a obtenção de vinhos com muita cor e corpo.

Os pigmentos naturais e componentes de aromas e sabores contidos nas cascas das uvas são extraídos pelo álcool produzido pelas leveduras durante a fermentação e maceração, que pode acontecer em recipientes de madeira, inox ou cimento.

Após esta etapa, a parte líquida, que já pode ser chamada de vinho, será separada da parte sólida, que será prensada para extração de vinhos secundários, para produção de destilados ou mesmo de vinagre.

O próximo passo é a redução da acidez do vinho, que em alto grau é indesejada nos tintos. Este processo se chama fermentação malolática, na qual o ácido málico (da maçã) se transforma em ácido lático (do leite), menos agressivo ao paladar que o primeiro. Esta fermentação pode acorrer naturalmente ou ser provocada pela adição de leveduras.

Os tintos mais leves, destinados ao consumo enquanto jovens, estarão imediatamente prontos para o consumo. Boa parte dos deles, entretanto, beneficia-se de uma fase de maturação antes do engarrafamento. Para tal estágio, o ideal são recipientes de madeira, e a mais usada é o carvalho. Durante este período, que pode durar de poucos meses a alguns anos, o vinho passa pelo processo de "educação". Sofre uma micro-oxigenação através dos poros da madeira, o que o torna mais resistente a oxidação. Além disso, o líquido interage com a celulose. Existem centenas de espécies de carvalho, mas os mais usados são o americano Quercus alba e os europeus Quercus sessiliflora e Quercus robur, provenientes principalmente da França e da Eslovênia. O presença de carvalho americano é a mais óbvia, com aromas nítidos de baunilha, enquanto os europeus se manifestam mais discretamente. Os barris, tostados a fogo, conferem ao vinho aromas de coco queimado, especiarias como cravo-da-índia, amêndoas torradas e caramelo, além do madeira e baunilha.

O estágio em madeira também diminui a adstringência do vinho, tornando-o mais macio, e encoraja a clarificação e estabilização natural do líquido.

O próximo passo (opcional) é o corte, que consiste na mistura de vinhos diferentes para obter um resultado mais equilibrado e complexo. Mistura-se, por exemplo, Merlot e Cabernet Sauvignon para ter a maciez do Merlot com a estrutura da Cabernet Sauvignon. Vinhos compostos somente por um tipo de uva são chamados de varietais, os demais são os cortes ou "assemblages".

A bebida é então engarrafada e passa ao estágio de sua vida que chamamos de envelhecimento. Esta é a etapa na qual o vinho completa sua educação, faz sua pós-graduação. Muda de cor, perde taninos e acidez, tornando-se mais macio, e adquire aromas de evolução que chamamos de buquê. A grande diversidade de componentes dos tintos (cerca de 400) e a evolução e interação entre eles ao longo do tempo são os motivos que fazem o envelhecimento tomar importância. Mas note que nem todo vinho se presta a tal fenômeno. Somente os que têm estrutura (muito álcool, tanino e acidez) evoluem por longos anos em garrafas bem armazenadas em adegas, preferencialmente climatizadas.

O processo descrito aqui é uma simplificação didática. Existem outras etapas menos importantes e muitas variações, como a maceração carbônica, os vinhos botrytizados (uvas que têm ataque de um fungo que as torna um concentrado de açúcar), os passificados (extraído de uvas quase passas), os fortificados (acrescidos de aguardente vínica), etc. O que evidencia o quão complexa e fascinante é esta maravilhosa bebida.