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Mar de Vinho
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Sobre Marcelo Copello  


GAZETA MERCANTIL - Caderno Fim de Semana - 21/11/2002

CAMPEÕES, APESAR DE TUDO

por Marcelo Copello

A vitória americana na II Guerra Mundial consolidou militar e economicamente uma mudança cultural global. A influência européia (sobretudo francesa e inglesa) foi substituída pela pujança ianque. No mundo do vinho, este efeito foi mais lento. Até os anos 70, os franceses reinavam absolutos, sem competição à altura, fosse esta no velho ou no Novo Mundo.

Nas últimas décadas, no entanto, as mudanças na produção e no perfil do consumo foram imensas. O vinho - assim como o mundo - se globalizou, se democratizou e, de certa forma, se padronizou. Austrália, Califórnia, Chile e, mais recentemente, Argentina, África do Sul e Nova Zelândia abalaram o establishment francês.

No mês passado, o site da revista "Wine Spectator" (www.winespectator.com) promoveu uma enquete sobre a maneira como os vinhos franceses são vistos hoje. O resultado vem ao encontro da opinião do consumidor brasileiro e pode ser resumido em uma frase: "São bons, mas custam muito caro".

No Brasil, esta realidade é cada vez mais evidente. A recente alta do dólar e a crise na Argentina já se refletiram nas estatísticas. Os gauleses acabam de perder para os vinhos andinos o 4° lugar entre os importados. A saber: em 1º lugar está a Itália, seguida por Chile e Portugal, praticamente empatados.

Percebendo isso, a Sopexa, empresa que promove o comércio de alimentos e bebidas franceses ao redor do mundo, está realizando o festival "Viva a França em Cada Taça". O evento acontece entre os dias 28 de novembro e 15 de dezembro simultaneamente em restaurantes de São Paulo e no Rio de Janeiro, onde será oferecida uma gama bastante variada de vinhos franceses em taça. Todos os restaurantes terão, na quinzena do festival, uma carta de vinhos especial, privilegiando os produtos franceses. A campanha, que ainda conta com o apoio de diversas importadoras, nasceu com o objetivo de informar consumidores e profissionais que há uma enorme gama de excelentes vinhos franceses de ótima relação custo-benefício.

Mas o problema do vinho francês é apenas o preço? Não, é possível relacionar alguns outros estorvos. A começar pela dificuldade em entender seus rótulos, um verdadeiro emaranhado de classificações e denominações. Para o consumidor comum, o ato de comprar uma garrafa da terra de Asterix é uma verdadeira aventura, com grande risco de uma decepção dispendiosa. Um dito popular inglês conta que um bom Borgonha custa 300 libras, 30 pela garrafa boa e 270 pelas outras 9 medíocres que você precisa comprar até achar a que interessa. Não resta dúvida de que, com os mesmos reais no bolso, compra-se, na maioria das vezes, um vinho de qualidade superior do Novo Mundo. Os melhores vinhos do planeta são franceses, e alguns dos piores também. Entender este fenômeno é simples. A vinificação clássica se baseia no terroir, ou seja, no solo e no clima. Quem possui bons terrenos, em bons anos, produz exemplares espetaculares. Os demais... Por isso, quando se trata de vinhos franceses, a origem e a safra são tão importantes.

Apesar de todos esses poréns, que se refletem em uma crescente perda de mercado, a França ainda é o padrão mundial para o nobre fermentado. A seu favor estão séculos de tradição e experiência. A originalidade é incomparável, país nenhum expressa tão bem o já citado terroir, nem mesmo a Itália, o concorrente mais próximo.

A variedade de regiões e estilos que o país de Napoleão proporciona é inesgotável. Os tintos de Bordeaux, os Sauternes, os Chardonnays e Pinot Noirs da Borgonha, os Syrah no Rhône, os Rieslings e Gewurztraminers da Alsácia, os Sauvignon Blancs do Loire, as novidades modernas do Languedoc. Sem mencionar o Champagne, um caso à parte, ainda sem paralelo em todo o mundo. Basta olhar em volta, quando um exemplar de outra nacionalidade se destaca é logo comparado ao seu similar francês. Além disso, as castas (tipos de uva), toda a terminologia e até mesmo formato de garrafas sofrem influência "bleu-blanc-rouge".

Enquanto isso, os vinhos não europeus tendem a se parecer uns com os outros. Quem está acostumado ao paladar francês, quando prova um "estilo Novo Mundo", muitas vezes o acha um "picolé de carvalho", pesado e sem elegância. É verdade também que, quando se trata de rótulos de baixo custo, australianos e chilenos dominam o mercado, com uma qualidade média invejável.

A França ainda é, contudo, imbatível nos vinhos de altíssima qualidade, embora, nas últimas décadas, várias nações tenham incluído nomes na lista dos maiores do mundo. Ninguém questiona que um Penfolds Grange (Austrália) ou um Solaia (Itália) estejam no "dream team" dos afilhados de Baco. Mas o idioma oficial desta seleção ainda é, sem dúvida, o de Baudelaire. Isto falando de tintos. Em se tratando de brancos, espumantes ou doces naturais, o domínio é ainda maior. O contexto só muda nos vinhos fortificados, ou "do tipo Porto", palavras que já explicam tudo, mas esta é outra história.

 

DEGUSTAR SEM MEDO

Para quem quer provar o sabor tradicional francês, sem ardis ou pesadelos com a fatura do cartão de crédito, sugerimos 12 rótulos de três regiões consagradas. Todos muito bons, a menos de R$ 100* cada:

Bordeaux tinto
Château D'Archambeau 1999, Graves (Zahil, R$ 72). Com médio corpo e uma ponta de tanino, este é um bom exemplo do estilo clássico.

Château de La Garde 1998, Bordeaux Supérieur (Expand, R$ 73,44). Vigoroso, com aromas de frutas vermelhas e um toque de chocolate.

Château de la Croix 1997, Médoc (Club du Taste Vin, R$ 69,20). Muito vivo e agradável no palato, frutado e vegetal (musgo) no olfato. Um Cru Bourgeois a este preço...

Bordeaux branco
Château Le Sartre 98, Pessac-Léognan (Expand, R$ 84,96). Muito fresco, com aromas de frutas tropicais (abacaxi, maracujá e manga) e um toque de baunilha. Atraente e requintado.

Borgonha tinto
Côtes de Nuits Villages Vieilles Vignes 1998, Domaine Anne-Marie Gille (Club du Taste Vin, R$ 90,50). Claro, elegante, ótimo ataque aromático, com aromas típicos de frutas do bosque e um longo e envolvente final.

Domaine de la Croix Jacquelet 2000, Mercurey (Mistral, R$ 68,37). Do bom produtor J. Faiveley. Muito fino, de cor clara, textura macia e aromas de framboesa e cerejas frescas.

Côtes de Beaune Villages 1999, Champy Père & Cie (Mistral, R$ 93,81). De cor clara, com aromas que lembram groselhas e morangos e uma grande vivacidade para acordar o paladar.

Borgonha branco
Chablis 2001 (World Wine, R$ 64). Da consagrada Domaine Laroche. Leve, fresco, com aromas de pêras, cítricos, baunilha e notas minerais. Ótimo custo-benefício.

Vallée du Rhône tinto
Gigondas 1998 (Expand, R$ 97,96). Da renomada Domaine Guigal. Macio, bom corpo e intensidade, com muito café, ameixas e especiarias no nariz.

Châteauneuf-du-pape Louis Bernard 1999 (World Wine, R$ 90). Sedoso e encorpado, bastante torrefação, especiarias e frutas maduras. Campeão.

Saint Joseph Deschants 1998 (Mistral, R$ 87,45). Escuro, macio, de médio corpo, com frutas frescas e um toque de especiarias nos aromas.

Vallée du Rhône branco
Condrieu 94, Guigal (Expand, R$90,72). Uma jóia para quem curte as delícias dos brancos maduros. Ouro para os olhos, mel e frutas amarelas maduras para o nariz e maciez comovente para a boca.