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por Marcelo Copello
A vitória americana na II Guerra Mundial consolidou
militar e economicamente uma mudança cultural global. A influência
européia (sobretudo francesa e inglesa) foi substituída
pela pujança ianque. No mundo do vinho, este efeito foi mais
lento. Até os anos 70, os franceses reinavam absolutos, sem
competição à altura, fosse esta no velho ou
no Novo Mundo.
Nas últimas décadas, no entanto, as mudanças
na produção e no perfil do consumo foram imensas.
O vinho - assim como o mundo - se globalizou, se democratizou e,
de certa forma, se padronizou. Austrália, Califórnia,
Chile e, mais recentemente, Argentina, África do Sul e Nova
Zelândia abalaram o establishment francês.
No mês passado, o site da revista "Wine
Spectator" (www.winespectator.com) promoveu uma enquete sobre
a maneira como os vinhos franceses são vistos hoje. O resultado
vem ao encontro da opinião do consumidor brasileiro e pode
ser resumido em uma frase: "São bons, mas custam muito
caro".
No Brasil, esta realidade é cada vez mais evidente.
A recente alta do dólar e a crise na Argentina já
se refletiram nas estatísticas. Os gauleses acabam de perder
para os vinhos andinos o 4° lugar entre os importados. A saber:
em 1º lugar está a Itália, seguida por Chile
e Portugal, praticamente empatados.
Percebendo isso, a Sopexa, empresa que promove o comércio
de alimentos e bebidas franceses ao redor do mundo, está
realizando o festival "Viva a França em Cada Taça".
O evento acontece entre os dias 28 de novembro e 15 de dezembro
simultaneamente em restaurantes de São Paulo e no Rio de
Janeiro, onde será oferecida uma gama bastante variada de
vinhos franceses em taça. Todos os restaurantes terão,
na quinzena do festival, uma carta de vinhos especial, privilegiando
os produtos franceses. A campanha, que ainda conta com o apoio de
diversas importadoras, nasceu com o objetivo de informar consumidores
e profissionais que há uma enorme gama de excelentes vinhos
franceses de ótima relação custo-benefício.
Mas o problema do vinho francês é apenas
o preço? Não, é possível relacionar
alguns outros estorvos. A começar pela dificuldade em entender
seus rótulos, um verdadeiro emaranhado de classificações
e denominações. Para o consumidor comum, o ato de
comprar uma garrafa da terra de Asterix é uma verdadeira
aventura, com grande risco de uma decepção dispendiosa.
Um dito popular inglês conta que um bom Borgonha custa 300
libras, 30 pela garrafa boa e 270 pelas outras 9 medíocres
que você precisa comprar até achar a que interessa.
Não resta dúvida de que, com os mesmos reais no bolso,
compra-se, na maioria das vezes, um vinho de qualidade superior
do Novo Mundo. Os melhores vinhos do planeta são franceses,
e alguns dos piores também. Entender este fenômeno
é simples. A vinificação clássica se
baseia no terroir, ou seja, no solo e no clima. Quem possui bons
terrenos, em bons anos, produz exemplares espetaculares. Os demais...
Por isso, quando se trata de vinhos franceses, a origem e a safra
são tão importantes.
Apesar de todos esses poréns, que se refletem
em uma crescente perda de mercado, a França ainda é
o padrão mundial para o nobre fermentado. A seu favor estão
séculos de tradição e experiência. A
originalidade é incomparável, país nenhum expressa
tão bem o já citado terroir, nem mesmo a Itália,
o concorrente mais próximo.
A variedade de regiões e estilos que o país
de Napoleão proporciona é inesgotável. Os tintos
de Bordeaux, os Sauternes, os Chardonnays e Pinot Noirs da Borgonha,
os Syrah no Rhône, os Rieslings e Gewurztraminers da Alsácia,
os Sauvignon Blancs do Loire, as novidades modernas do Languedoc.
Sem mencionar o Champagne, um caso à parte, ainda sem paralelo
em todo o mundo. Basta olhar em volta, quando um exemplar de outra
nacionalidade se destaca é logo comparado ao seu similar
francês. Além disso, as castas (tipos de uva), toda
a terminologia e até mesmo formato de garrafas sofrem influência
"bleu-blanc-rouge".
Enquanto isso, os vinhos não europeus tendem
a se parecer uns com os outros. Quem está acostumado ao paladar
francês, quando prova um "estilo Novo Mundo", muitas
vezes o acha um "picolé de carvalho", pesado e
sem elegância. É verdade também que, quando
se trata de rótulos de baixo custo, australianos e chilenos
dominam o mercado, com uma qualidade média invejável.
A França ainda é, contudo, imbatível
nos vinhos de altíssima qualidade, embora, nas últimas
décadas, várias nações tenham incluído
nomes na lista dos maiores do mundo. Ninguém questiona que
um Penfolds Grange (Austrália) ou um Solaia (Itália)
estejam no "dream team" dos afilhados de Baco. Mas o idioma
oficial desta seleção ainda é, sem dúvida,
o de Baudelaire. Isto falando de tintos. Em se tratando de brancos,
espumantes ou doces naturais, o domínio é ainda maior.
O contexto só muda nos vinhos fortificados, ou "do tipo
Porto", palavras que já explicam tudo, mas esta é
outra história.
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