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Mar de Vinho
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Sobre Marcelo Copello  


GAZETA MERCANTIL - Caderno Fim de Semana - 21/11/2002

PARAÍSO DE PERSONALIDADE ÚNICA

por Marcelo Copello

Um verdadeiro paraíso para os amantes do vinho. Assim podemos descrever a Alsácia, com seus lindos vinhedos, vilas encantadoras, castelos, ruínas, uma das melhores cozinhas da França e, é claro, grandes vinhos.

A região não conseguiu escapar impune do destino de se localizar entre as duas maiores potências na Europa. Separada da Alemanha pelo rio Reno e da França pelos montes Vosges, a Alsácia, ou Elsass em alemão, pertenceu a estas duas nações sucessivas vezes ao longo da história. As conseqüentes feridas tiveram um aspecto benigno, uma certa crise de identidade criou uma personalidade única em seus vinhos. As guerras, no entanto, retardaram a melhoria da qualidade e o reconhecimento. Somente em 1962 seus vinhedos foram demarcados, e apenas em 1983 os melhores (cerca de 50) ganharam a denominação de Grand Cru.

Ao contrário de outras regiões francesas onde os rótulos privilegiam a origem da bebida, na Alsácia a uva se põe em evidência. As denominações de origem são apenas três: Alsace, Alsace Grand Cru e Alsace Cremant (para os espumantes). Estes nomes são associados ao da casta, podendo ainda aparecer as indicações: vendage tardive (colheita tardia, mais doces); selection des grains nobles (vinhos de sobremesa, feitos de uvas botrytizados - atacadas por um fungo que as torna concentradas); ou, para o caso dos Grand Crus, o nome do vinhedo deve constar do rótulo.

As condições locais são abençoadas: muito sol, clima seco, grande variedade de solos aliados à diversidade de castas, quase todas brancas. As mais nobres são Riesling, Gewurztraminer, Pinot Gris (ou Tokai d'Alsace, como também é conhecida) e Muscat.

Quando se pensa em Alsácia não se pensa apenas em Gewurztraminer, mas quando se pensa nesta casta se pensa logo em Alsácia, pois é lá que ela chega a sua expressão máxima. A Gewurz, como é comumente chamada, não permite indiferença: ame-se ou deixe-se.

Esta cepa é uma mutação da Traminer, do norte da Itália. O prefixo alemão Gewürz significa exótico e perfumado. O nome é difícil, mas os aromas são inconfundíveis, normalmente descritos como opulentos, inebriantes, lembrando rosas, lichias e especiarias como gengibre e canela. No paladar seus vinhos são normalmente muito macios, alguns, mesmo secos, podem dar a sensação de doçura, por seu alto teor alcoólico e baixa acidez. Costumam viver bem por cinco ou seis anos, os doces podem chegar a mais de dez anos. É talvez a casta que gera os brancos mais encorpados, sendo por vezes difícil escolher um prato para acompanhá-los. Para os secos, combinações clássicas seriam o salmão defumado ou o queijo Munster. Ousadias seriam, por exemplo, pratos indianos, tailandeses ou chineses. Para os doces o típico é comer foie gras ou queijos azuis.

Potente no nariz, porém sensível no cultivo, esta casta pode causar decepções. Em anos ruins ou em lugares quentes demais tende a gerar líquidos chatos e desinteressantes. No Brasil seu cultivo é bastante limitado e difícil.

A seguir, relaciono alguns bons exemplares secos presentes no mercado nacional:
Gewurztraminer Cuvée des Princes Abbés 1999, Domaines Schlumberger (Club du Taste Vin, tel. 11 3257-6941, R$ 85,80). Este é o maior produtor da Alsácia, cuja casa foi fundada em 1810, mas alguns de seus vinhedos e adegas remontam à Idade Média. Amarelo palha com reflexos dourados, com frutos maduros (pêras, figos, maçã) e flores (acácias) nos aromas, além de um toque de mel. Na boca é encorpado e macio, com acidez discreta e 12,5% de álcool. Muito bom.

St. Hippolyte Gewurztraminer 1997, Marcel Deiss (Mistral, tel. 11 3285-1422, US$ 35). Deiss é um perfeccionista, conhecido por seus vinhos de sobremesa. Bastante aromático, com amêndoas, muitos cítricos e flores. Concentrado, com um belo corpo com 13% de álcool e uma acidez equilibrada, muito persistente no palato. Muito bom a excelente.

Grand Cru Steinklotz Gewurztraminer 1998, Maison Laugel (World Wine (tel.: 11 3315-7477, R$ 76). Amarelo palha brilhante, muito intenso e exótico no nariz, com muitas especiarias, frutas como abricó e um toque de baunilha no fim de boca. Palato macio com média acidez e 13% de álcool. Um bom preço para um Grand Cru. Muito bom a excelente.

Gewurztraminer Wintsenheim Vieilles Vignes 1999, Domaine Zind Humbrecht (Expand, tel.: 11 4613-3333, US$ 85,83). Humbrecht é um dos nomes mais importantes da região e este exemplar um ótimo representante do que pode ser um Gewurz da Alsácia. Macio e suculento, quase sedutor, com muito pêssego, mel, abacaxi, maracujá. Boa estrutura, com 12,5% de álcool e longo final. Excelente, o melhor da prova.

Gewurztraminer Réserve 2000, Dopff au Moulin (Mistral, US$ 24,50). O termo "Réserve" significa que este vinho passou por duas etapas de seleção. A primeira antes da prensagem das uvas, quando são selecionadas as que tiveram melhor exposição ao sol, gerando um suco mais rico. A segunda acontece na cave, depois da fermentação, quando, após uma série de degustações às cegas as melhores parcelas são selecionadas. Este reserva tem bom ataque aromático, muitas frutas tropicais e amêndoas. É seco, bem estruturado, acidez média e muita maciez, quase amanteigado com seus 13% de álcool. Beba agora ou guarde. Muito bom.