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por Marcelo Copello
Um verdadeiro paraíso para os amantes do vinho.
Assim podemos descrever a Alsácia, com seus lindos vinhedos,
vilas encantadoras, castelos, ruínas, uma das melhores cozinhas
da França e, é claro, grandes vinhos.
A região não conseguiu escapar impune
do destino de se localizar entre as duas maiores potências
na Europa. Separada da Alemanha pelo rio Reno e da França
pelos montes Vosges, a Alsácia, ou Elsass em alemão,
pertenceu a estas duas nações sucessivas vezes ao
longo da história. As conseqüentes feridas tiveram um
aspecto benigno, uma certa crise de identidade criou uma personalidade
única em seus vinhos. As guerras, no entanto, retardaram
a melhoria da qualidade e o reconhecimento. Somente em 1962 seus
vinhedos foram demarcados, e apenas em 1983 os melhores (cerca de
50) ganharam a denominação de Grand Cru.
Ao contrário de outras regiões francesas
onde os rótulos privilegiam a origem da bebida, na Alsácia
a uva se põe em evidência. As denominações
de origem são apenas três: Alsace, Alsace Grand Cru
e Alsace Cremant (para os espumantes). Estes nomes são associados
ao da casta, podendo ainda aparecer as indicações:
vendage tardive (colheita tardia, mais doces); selection des grains
nobles (vinhos de sobremesa, feitos de uvas botrytizados - atacadas
por um fungo que as torna concentradas); ou, para o caso dos Grand
Crus, o nome do vinhedo deve constar do rótulo.
As condições locais são abençoadas:
muito sol, clima seco, grande variedade de solos aliados à
diversidade de castas, quase todas brancas. As mais nobres são
Riesling, Gewurztraminer, Pinot Gris (ou Tokai d'Alsace, como também
é conhecida) e Muscat.
Quando se pensa em Alsácia não se pensa
apenas em Gewurztraminer, mas quando se pensa nesta casta se pensa
logo em Alsácia, pois é lá que ela chega a
sua expressão máxima. A Gewurz, como é comumente
chamada, não permite indiferença: ame-se ou deixe-se.
Esta cepa é uma mutação da Traminer,
do norte da Itália. O prefixo alemão Gewürz significa
exótico e perfumado. O nome é difícil, mas
os aromas são inconfundíveis, normalmente descritos
como opulentos, inebriantes, lembrando rosas, lichias e especiarias
como gengibre e canela. No paladar seus vinhos são normalmente
muito macios, alguns, mesmo secos, podem dar a sensação
de doçura, por seu alto teor alcoólico e baixa acidez.
Costumam viver bem por cinco ou seis anos, os doces podem chegar
a mais de dez anos. É talvez a casta que gera os brancos
mais encorpados, sendo por vezes difícil escolher um prato
para acompanhá-los. Para os secos, combinações
clássicas seriam o salmão defumado ou o queijo Munster.
Ousadias seriam, por exemplo, pratos indianos, tailandeses ou chineses.
Para os doces o típico é comer foie gras ou queijos
azuis.
Potente no nariz, porém sensível no cultivo,
esta casta pode causar decepções. Em anos ruins ou
em lugares quentes demais tende a gerar líquidos chatos e
desinteressantes. No Brasil seu cultivo é bastante limitado
e difícil.
A seguir, relaciono alguns bons exemplares secos presentes
no mercado nacional:
Gewurztraminer Cuvée des Princes Abbés 1999, Domaines
Schlumberger (Club du Taste Vin, tel. 11 3257-6941, R$ 85,80). Este
é o maior produtor da Alsácia, cuja casa foi fundada
em 1810, mas alguns de seus vinhedos e adegas remontam à
Idade Média. Amarelo palha com reflexos dourados, com frutos
maduros (pêras, figos, maçã) e flores (acácias)
nos aromas, além de um toque de mel. Na boca é encorpado
e macio, com acidez discreta e 12,5% de álcool. Muito bom.
St. Hippolyte Gewurztraminer 1997, Marcel Deiss (Mistral,
tel. 11 3285-1422, US$ 35). Deiss é um perfeccionista, conhecido
por seus vinhos de sobremesa. Bastante aromático, com amêndoas,
muitos cítricos e flores. Concentrado, com um belo corpo
com 13% de álcool e uma acidez equilibrada, muito persistente
no palato. Muito bom a excelente.
Grand Cru Steinklotz Gewurztraminer 1998, Maison Laugel
(World Wine (tel.: 11 3315-7477, R$ 76). Amarelo palha brilhante,
muito intenso e exótico no nariz, com muitas especiarias,
frutas como abricó e um toque de baunilha no fim de boca.
Palato macio com média acidez e 13% de álcool. Um
bom preço para um Grand Cru. Muito bom a excelente.
Gewurztraminer Wintsenheim Vieilles Vignes 1999, Domaine
Zind Humbrecht (Expand, tel.: 11 4613-3333, US$ 85,83). Humbrecht
é um dos nomes mais importantes da região e este exemplar
um ótimo representante do que pode ser um Gewurz da Alsácia.
Macio e suculento, quase sedutor, com muito pêssego, mel,
abacaxi, maracujá. Boa estrutura, com 12,5% de álcool
e longo final. Excelente, o melhor da prova.
Gewurztraminer Réserve 2000, Dopff au Moulin
(Mistral, US$ 24,50). O termo "Réserve" significa
que este vinho passou por duas etapas de seleção.
A primeira antes da prensagem das uvas, quando são selecionadas
as que tiveram melhor exposição ao sol, gerando um
suco mais rico. A segunda acontece na cave, depois da fermentação,
quando, após uma série de degustações
às cegas as melhores parcelas são selecionadas. Este
reserva tem bom ataque aromático, muitas frutas tropicais
e amêndoas. É seco, bem estruturado, acidez média
e muita maciez, quase amanteigado com seus 13% de álcool.
Beba agora ou guarde. Muito bom.
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