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GAZETA MERCANTIL - Caderno Fim de Semana - 06/12/2002

MAIS UM PASSO NUMA EVOLUÇÃO INCONTESTÁVEL

por Marcelo Copello

Comemorou-se na semana passada a aprovação pelo Inpi (Instituto Nacional de Propriedade Industrial) da primeira Indicação de Procedência (IP) para vinhos brasileiros. Criada em 2001, a IP "Vale dos Vinhedos" é agora oficialmente reconhecida para vinhos provenientes da região de 81 quilômetros quadrados situada entre os municípios de Bento Gonçalves, Garibaldi e Monte Belo do Sul, no estado no Rio Grande do Sul.

Foi o Gran Duque Cosimo III, da mítica família Médici de Florença, o responsável pelo ato que marcou a primeira delimitação geográfica de uma área vinícola. A região do Chianti, na Toscana, Itália, teve assim seus limites fixados em 1716. Foi, contudo, apenas em 1756 que, além de demarcada, uma região foi regulamentada. O marquês de Pombal, ao criar a Companhia Geral de Agricultura do Alto Douro, além de delimitar as fronteiras do vinho do Porto, estabeleceu regras para sua produção. A França, o mais importante produtor mundial, viria a ter sua primeira classificação apenas em 1855. Estabelecida pelos produtores do Médoc, sub-região de Bordeaux, a famosa hierarquia dos Grand Crus Classés é até hoje referência de qualidade e, sobretudo, preço.

A Aprovale (Associação dos Produtores de Vinhos Finos do Vale dos Vinhedos) foi criada em 1995 por cinco vinícolas pioneiras (Cordellier, Casa Valduga, Miolo, Don Cândido e Don Laurindo) e hoje já conta com 22 produtores afiliados.

Para entender o significado desta certificação é preciso antes analisar o que é uma indicação de procedência. Quando se trata deste nobre fermentado, a origem e qualidade da matéria-prima são fundamentais. O objetivo deste tipo de legislação é estabelecer uma série de normas que garantam o nível a e tipicidade dos produtos, orientando os consumidores.

Os critérios normalmente dizem respeito à delimitação geográfica dos vinhedos, os tipos de uvas autorizadas, grau alcoólico mínimo, grau máximo de chaptalização (adição de açúcar ao suco das uvas para aumento do grau alcoólico), rendimento dos vinhedos (quantidade de uvas obtidas por hectare, quanto menos melhor), método de plantio, de elaboração, período mínimo de amadurecimento em madeira e de envelhecimento em garrafa, denominações e tipologias constantes dos rótulos e, finalmente, aprovação através de análise química e degustação por entidades reguladoras.

No que diz respeito a estes regulamentos a IP "Vale dos Vinhedos" é bastante modesta, exigindo, por exemplo, que apenas 85% das uvas venham da região delimitada. Além disso, o rendimento autorizado é alto demais (150 hectolitros por hectare) e bastam 60% de um tipo de uva para que esta venha identificada no rótulo, ou seja, 40% das uvas podem ser de um tipo que não aparece no rótulo. O critério mais sensível do regulamento é, contudo, o que permite que o método de plantio seja a "latada". A saber, "latada" é um tipo de caramanchão, que produz muito mais uvas, mas de qualidade inferior, pois estas ficam sob as sombras das folhas, sendo menos expostas ao sol. O ideal seria a "espaldeira", método tradicional praticado na Europa, onde a vinha é baixa e recebe bastante sol. O fato evidencia talvez o maior problema deste setor: cerca de 80% do nosso vinho fino provém de vinhedos em "latada". A conversão de parreirais é, contudo, cara (pode custar R$ 60 mil por hectare), demorada (a vinha leva três anos para produzir a primeira safra) e, principalmente, esbarra na mudança de mentalidade de colonos que plantam assim por gerações.

Na prática, o verdadeiro controle de qualidade previsto pelo regulamento da IP é a aprovação final dos vinhos por meio de análises químicas e degustação às cegas. Estas são realizadas por uma banca composta por representantes da Aprovale, da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), da Universidade de Caxias do Sul e da SBAV (Sociedade Brasileira dos Amigos do Vinho) seção de Caxias do Sul. Das 22 vinícolas afiliadas apenas 13 tiveram vinhos certificados este ano. Dos 48 exemplares submetidos a avaliação apenas 32 receberam o selo de garantia e poderão ostentar os dizeres "Vale dos Vinhedos" em seus rótulos.

Com todas estas deficiências esta IP é positiva? Sim, e muito. O que temos a comemorar não é a regulamentação em si, pois os melhores produtores da região já praticam padrões de qualidade até superiores aos exigidos, mas a congregação de antigos concorrentes sob uma mesma bandeira, e a burocracia e inércia vencidas, o que é o primeiro passo na direção de uma verdadeira denominação de origem controlada. Esta IP também facilita a exportação de nossos produtos. A vinícola Miolo, por exemplo, acaba de receber um pedido da Alemanha, motivado pela IP e o conseqüente enquadramento nas leis da comunidade européia.

Este tipo de controle ajuda, mas a qualidade de um vinho se julga mesmo é na taça. Aí a evolução que o vinho brasileiro teve nos últimos anos é incontestável, e acaba de ser registrada em livro. Lançado no último dia 4, o "Guia dos Vinhos Brasileiros 2003" é dedicado principalmente aos iniciantes, mas também interessa aos especialistas. Traz avaliações e notas dadas a vinhos brasileiros ao longo deste ano pelo corpo de degustadores da revista "Vinho Magazine". O livro é bastante didático e assinado por Eduardo Viotti, diretor desta revista e com grande experiência no assunto.