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por Marcelo Copello
Comemorou-se na semana passada a aprovação
pelo Inpi (Instituto Nacional de Propriedade Industrial) da primeira
Indicação de Procedência (IP) para vinhos brasileiros.
Criada em 2001, a IP "Vale dos Vinhedos" é agora
oficialmente reconhecida para vinhos provenientes da região
de 81 quilômetros quadrados situada entre os municípios
de Bento Gonçalves, Garibaldi e Monte Belo do Sul, no estado
no Rio Grande do Sul.
Foi o Gran Duque Cosimo III, da mítica família
Médici de Florença, o responsável pelo ato
que marcou a primeira delimitação geográfica
de uma área vinícola. A região do Chianti,
na Toscana, Itália, teve assim seus limites fixados em 1716.
Foi, contudo, apenas em 1756 que, além de demarcada, uma
região foi regulamentada. O marquês de Pombal, ao criar
a Companhia Geral de Agricultura do Alto Douro, além de delimitar
as fronteiras do vinho do Porto, estabeleceu regras para sua produção.
A França, o mais importante produtor mundial, viria a ter
sua primeira classificação apenas em 1855. Estabelecida
pelos produtores do Médoc, sub-região de Bordeaux,
a famosa hierarquia dos Grand Crus Classés é até
hoje referência de qualidade e, sobretudo, preço.
A Aprovale (Associação dos Produtores
de Vinhos Finos do Vale dos Vinhedos) foi criada em 1995 por cinco
vinícolas pioneiras (Cordellier, Casa Valduga, Miolo, Don
Cândido e Don Laurindo) e hoje já conta com 22 produtores
afiliados.
Para entender o significado desta certificação
é preciso antes analisar o que é uma indicação
de procedência. Quando se trata deste nobre fermentado, a
origem e qualidade da matéria-prima são fundamentais.
O objetivo deste tipo de legislação é estabelecer
uma série de normas que garantam o nível a e tipicidade
dos produtos, orientando os consumidores.
Os critérios normalmente dizem respeito à
delimitação geográfica dos vinhedos, os tipos
de uvas autorizadas, grau alcoólico mínimo, grau máximo
de chaptalização (adição de açúcar
ao suco das uvas para aumento do grau alcoólico), rendimento
dos vinhedos (quantidade de uvas obtidas por hectare, quanto menos
melhor), método de plantio, de elaboração,
período mínimo de amadurecimento em madeira e de envelhecimento
em garrafa, denominações e tipologias constantes dos
rótulos e, finalmente, aprovação através
de análise química e degustação por
entidades reguladoras.
No que diz respeito a estes regulamentos a IP "Vale
dos Vinhedos" é bastante modesta, exigindo, por exemplo,
que apenas 85% das uvas venham da região delimitada. Além
disso, o rendimento autorizado é alto demais (150 hectolitros
por hectare) e bastam 60% de um tipo de uva para que esta venha
identificada no rótulo, ou seja, 40% das uvas podem ser de
um tipo que não aparece no rótulo. O critério
mais sensível do regulamento é, contudo, o que permite
que o método de plantio seja a "latada". A saber,
"latada" é um tipo de caramanchão, que produz
muito mais uvas, mas de qualidade inferior, pois estas ficam sob
as sombras das folhas, sendo menos expostas ao sol. O ideal seria
a "espaldeira", método tradicional praticado na
Europa, onde a vinha é baixa e recebe bastante sol. O fato
evidencia talvez o maior problema deste setor: cerca de 80% do nosso
vinho fino provém de vinhedos em "latada". A conversão
de parreirais é, contudo, cara (pode custar R$ 60 mil por
hectare), demorada (a vinha leva três anos para produzir a
primeira safra) e, principalmente, esbarra na mudança de
mentalidade de colonos que plantam assim por gerações.
Na prática, o verdadeiro controle de qualidade
previsto pelo regulamento da IP é a aprovação
final dos vinhos por meio de análises químicas e degustação
às cegas. Estas são realizadas por uma banca composta
por representantes da Aprovale, da Embrapa (Empresa Brasileira de
Pesquisa Agropecuária), da Universidade de Caxias do Sul
e da SBAV (Sociedade Brasileira dos Amigos do Vinho) seção
de Caxias do Sul. Das 22 vinícolas afiliadas apenas 13 tiveram
vinhos certificados este ano. Dos 48 exemplares submetidos a avaliação
apenas 32 receberam o selo de garantia e poderão ostentar
os dizeres "Vale dos Vinhedos" em seus rótulos.
Com todas estas deficiências esta IP é
positiva? Sim, e muito. O que temos a comemorar não é
a regulamentação em si, pois os melhores produtores
da região já praticam padrões de qualidade
até superiores aos exigidos, mas a congregação
de antigos concorrentes sob uma mesma bandeira, e a burocracia e
inércia vencidas, o que é o primeiro passo na direção
de uma verdadeira denominação de origem controlada.
Esta IP também facilita a exportação de nossos
produtos. A vinícola Miolo, por exemplo, acaba de receber
um pedido da Alemanha, motivado pela IP e o conseqüente enquadramento
nas leis da comunidade européia.
Este tipo de controle ajuda, mas a qualidade de um
vinho se julga mesmo é na taça. Aí a evolução
que o vinho brasileiro teve nos últimos anos é incontestável,
e acaba de ser registrada em livro. Lançado no último
dia 4, o "Guia dos Vinhos Brasileiros 2003" é dedicado
principalmente aos iniciantes, mas também interessa aos especialistas.
Traz avaliações e notas dadas a vinhos brasileiros
ao longo deste ano pelo corpo de degustadores da revista "Vinho
Magazine". O livro é bastante didático e assinado
por Eduardo Viotti, diretor desta revista e com grande experiência
no assunto.
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