|
por Marcelo Copello
Engana-se quem pensa que os afilhados de Baco se interessam
apenas pelos aspectos diretamente ligados ao vinho. Além
do prazer etílico, um dos grandes charmes da bebida é
proporcionar a aproximação com diversas culturas,
mais a geografia e história de cada região produtora.
Ao ser colocado na taça, esse líquido equivale a um
convite a dar voltas ao mundo, descobrindo a expressão gustativa
de cada lugar. Siga o roteiro e embarque nesta viagem de prazer
proposta no texto abaixo e na tabela ao lado. O mais barato parte
de R$ 12 (Terra-nova Cabernet-Shiraz, da Miolo), o mais caro, R$
1.193 Château l' Angelus, da Mistral):
Portugal
É na terra de nossos colonizadores e de muitas de nossas
raízes culturais o ponto de partida. A primeira sugestão
é um típico vinho verde da região do Minho,
o Portal do Fidalgo. Ao sul do Minho, no Douro, há grandes
tintos, entre eles o aclamado Quinta da Gaivosa ou o Duas Quintas
Reserva elaborado pelo craque João Nicolau de Almeida. A
jóia do Douro é, porém, o Porto em seus diversos
estilos, do branco, passando pelos aloirados e envelhecidos Tawnys,
à nobreza dos Vintages. O Taylor Quinta da Terra Feita 1987
está no ponto e merece ser provado. Ainda mais ao sul, no
Dão, região em ascensão, se encontram produtoras
como a Quinta das Maias Jaen. Na Bairrada, são cobiçadas
as garrafas do maior produtor local, Luis Pato. Que tal o Vinha
Pan 1996? Tinto de raça, com cor rubi e aromas de baunilha,
coco queimado, taninos presentes, porém finos. O Alentejo,
que despontou nos últimos anos como a mais promissora região
lusitana, produz, a meu ver, o melhor tinto do país, o Mouchão
Tonel 3-4, possivelmente a maior expressão mundial da cepa
francesa Alicante Bouchet.
Espanha
A Espanha é a terra do aperitivo perfeito, o Jerez. O Palo
Cortado Viejo é um fortificado branco e seco de dar orgulho
a qualquer cidadão desse país. Para quem conhece a
Alvarinho como uma uva eminentemente portuguesa, a dica é
experimentar o "Albariño" Veigadares, elegante
e amadurecido em carvalho. A verdadeira vocação da
terra de Cervantes, porém, são os tintos. De regiões
clássicas como a Rioja vem o Calvário, um líquido
mastigável, feito exclusivamente de vinhas velhas, plantadas
no ano da vitória, 1945. De áreas menos conhecidas,
como Yecla, sai o Hécula, um tinto de excelente custo-benefício.
Mas o pedaço de terra espanhola que mais se valorizou nos
últimos anos foi o Priotato. Quer saber por que? Prove o
Miserere 1999, de longa guarda, com estrutura e elegância
para os paladares mais exigentes. A Catalunha, terra de Gaudí,
Picasso, Dalí, também lega bons espumantes Cava e
de bons tintos como o Mas La Plana, um Cabernet Sauvignon 100%,
que conseguiu projeção internacional.
França
A França motiva várias viagens enológicas.
São diversas as regiões clássicas com muitos
exemplares que já transcenderam a categoria de vinho e ingressaram
na de obras de arte e de símbolos de nobreza e sofisticação.
No sentido horário, tomamos como ponto de partida o Languedoc-Roussillon,
que é um "Novo Mundo" dentro do "Velho Mundo",
por causa de seus vinhos modernos, fáceis de beber e a preços
acessíveis. Prove o Cuvée Arthur, do belo Château
Cabezac, e verá. Dali para Bordeaux onde temos o muito bom
e acessível Château de la Croix, obras de arte como
o Château l'Angélus e vinhos luxuriantes como Sauternes
Château Suduiraut. Ao norte, numa das partes mais lindas do
país, o Val de Loire tem belos castelos e magníficos
vinhos brancos, como o seco Pouilly Fumé La Moynerie. Em
Champagne, há rótulos irresistíveis como Mumm
Brut Cordon Rouge, com aromas de frutas e textura viva e macia,
e o mais complexo e evoluído Grande Sendrée Brut 1995.
Na Alsacia, fronteira com a Alemanha, a pedida é a untuosidade,
potência aromática e doçura do Pinot Gris Vendanges
Tardives Grand Cru "Altenbourg". Mais abaixo, em Chablis
uma garrafa da Domaine Laroche mostra a nobreza dos brancos. Nessa
mesma região, tintos como Grevrey Chambertin 1er Cru, de
Louis Latour, são lendários. Localizado a leste, o
Jura apresenta curiosidades como Château Chalon, branco seco
envelhecido e oxidado que, sem ser fortificado. Lembra um Jerez.
A festa continua com a deliciosa futilidade de um Beaujolais - o
melhor é o de Joseph Drouhin. No Vallée du Rhône,
merecem atenção tintos clássicos como o Châteauneuf-du-pape.
Na Provence, os alegres rosados, e quem melhor os faz é a
Domaines Ott.
Itália
Pode-se visitar este pequeno país cem vezes e jamais conhecer
todas as possibilidades que ele oferece em garrafas. O Piemonte
proporciona os tintos mais sérios e de maior guarda do país.
Os Barolos e os Langue, à base da uva Nebbiolo, exigem tempo
de garrafa e experiência do degustador. Gaja e Icardi são
artistas neste tipo de vinho. Mais ao sul, fica a Toscana, principal
região vinícola do país. Um dos ícones
da região, eleito em 2000 o melhor do mundo pela revista
"Winespectator", é o Solaia. Também da Toscana
é o vinho italiano mais famoso no mundo, o Chianti, e o produtor
Querciabella faz um ótimo exemplar. Da vizinha Úmbria,
é possível provar grandes vinhos tintos como o Sagrantino
de Montefalco 25 anni de Arnaldo Caprai, e, o Cervaro della Sala,
feito pelo Marquês Antinori, talvez o maior branco do país.
Em Abruzzo, econtram-se vinhos modernos como os da Vinícola
Farnese, que oferece preço e qualidade. No salto da bota,
na região da Puglia, podemos encontrar excepcionais tintos
como o Patriglione 1990, feito da casta Nero Romano. As ilhas Sicília,
Sardenha e Pantelleria oferecem tintos encorpados e bons brancos
de sobremesa. No outro extremo, o Veneto é berço do
Prosecco e, é claro, um Amarone della Valpolicella - neste
caso, o de Allegrini, é magnífico. Quase na fronteira
está a mais importante região de brancos italianos,
o Friuli, onde há vários bons produtores, como Shiopetto
e Volpe Pasini.
Suíça
No coração da Europa, se produz branco de classe,
o Ambassadeur Fumé.
Alemanha
A Riesling, para muitos a maior entre as uvas brancas, chega à
melhor expressão em terras germânicas, e Dr. Burklin-Wolf
conhece a casta como ninguém. Seu Foster Pechstein Riesling
é um Premier Cru com classe e estrutura.
Áustria
A terra de Mozart é conhecida pelos brancos. Para quebrar
o protocolo, vale investir no bom tinto, o Oxhoft, uma boa surpresa.
Hungria
A capital Budapest é de uma beleza fria e doce como o principal
vinho do país, o Tokaji. Quem aprecia vinhos de meditação
deve provar este Tokaji 5 Puttonyos de Jean-Marc Brocard.
Israel
Da Europa, chega-se ao Oriente Médio dos vinhos. O Grand
Vin da Domaine du Castel, um corte de Cabernet-Sauvignon e Merlot,
no melhor estilo Bordeaux, representa muito bem o país.
Líbano
Como Israel, o Líbano tem seus vinhos pouco divulgados no
Brasil. Produtores como o Château Musar e o Château
Kefraya adicionam à tradição milenar modernidade,
qualidade e exotismo.
África do Sul
A casta mais associada à África do Sul é a
tinta francesa Pinotage e um boa opção é o
Spice Route Flagship Pinotage 1999, com notas de chocolate, café
e muitas frutas maduras.
Austrália
Quando, em 1995, a revista "Wine Spectator" elegeu o Penfolds
Grange como o melhor do mundo, para muitos foi uma surpresa. Até
então, pensar em Austrália era pensar em cangurus
e bumerangues. Hoje, o país nos proporciona uma ótima
gama de tintos (nestes a uva símbolo é a Shiraz),
brancos, doces e até fortificados, de diversas regiões.
Nova Zelândia
Um dos mais novos países produtores e um dos que mais cresceu
nos últimos anos, a Nova Zelândia ficou famosa pelos
Sauvignon Blancs, como o Claudy Bay e o Palliser. Os Pinot Noirs,
entre eles Wither Hills, e Chardonnays como o Neudorf, também
merecem atenção.
Estados Unidos
A terra de Tio Sam oferece vinhos de excelente custo-benefício,
como o Delicato Shiraz, "Cult Wines", como o Cardinalle,
Cabernet Sauvignons consistentes, como o Buena Vista Cerneros e
bebidas mais bem descritas como "um soco no queijo", como
o Dry Creek Old Vines Zinfaldel.
Chile
Um dos campeões de venda no Brasil, o Chile, oferece também
vinhos superpremium como o Altazor e o Montes Folly Shiraz. Lá
a uva Carmenére é uma atração e o Carmenére
Private Reserve da Canepa, bom representante.
Argentina
As maiores pechinchas em importados hoje vêm de nossos hermanos.
Desde Tops como o Enzo Bianchi até Malbecs como os de Luigi
Bosca, são todos ótimas compras.
Uruguai
A ex-colônia brasileira tem chamado a atenção
por seus exemplares da tinta Tannat, encorpados e acessíveis,
como o Don Pascual Tannat Roble.
Brasil
Já podemos degustar sem medo bons tintos do Sul e do Nordeste
e, acima de tudo, estourar neste fim de ano muitos espumantes, com
excepcional qualidade.
|