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Sobre Marcelo Copello  


GAZETA MERCANTIL - Caderno Fim de Semana - 31/01/2003

A VOLTA DE UM CLÁSSICO POPULAR DE ORIGEM TOSCANA

por Marcelo Copello

Uma das mais antigas lendas do rico folclore vinícola remonta ao medievo e tem como personagem principal uma ave faminta. O galo mais famoso da história viveu na Toscana, há mais de 400 anos, e teve atuação decisiva numa disputa política, chegando a evitar uma guerra.

As cidades-estados de Siena e Florença não se entendiam no estabelecimento das fronteiras de seus vinhedos. Decidiu-se por uma disputa entre cavaleiros. Um representante de cada lado partiria, de madrugada, na direção do oponente. O local onde estes se encontrassem marcaria o limite territorial. A largada seria dada ao cantar de um galo. Os habitantes de Siena selecionaram um garboso animal bem nutrido e de penas mui brancas. Os florentinos optaram por um galo preto e mal alimentado. Este último, despertado pela fome, cantou primeiro. O cavaleiro de Florença partiu na frente, estendendo as fronteiras da cidade até o Castello de Fonterutoli.

O "Gallo Nero" (galo negro) tornou-se, desta maneira, o símbolo deste que é o vinho mais famoso do mundo, o Chianti. O nome etrusco Clante-i, para designar a região, é citado em documentos do século VIII e as primeiras menções ao seu vinho datam do século XIV. Mas foi apenas em 1716 que o Gran Duque Cosimo III, da mítica família Médici de Florença, outorgou o ato que fez desta uma das primeiras áreas vinícolas geograficamente demarcadas.

Não se sabe bem como era o gosto deste vinho nos seus primórdios. Sua "fórmula" tem sido aperfeiçoada ao longo dos séculos. O padrão do Chianti moderno foi estabelecido pelo barão Bettino Ricasoli (1808-1890). Depois de décadas de experimentações ele chegou ao corte que é usado como base até hoje: 70% da tinta Sangiovese, que dá o caráter, corpo e cor; 20% da tinta Canaiolo, que contribui com maciez, e 10% das uvas brancas Trebbiano e Malvasia, que conferem leveza e frescor à mistura.

A receita do barão fez sucesso o a popularidade do vinho cresceu ainda mais no início do século XX. Com isto os viticultores de regiões próximas começaram a produzir vinhos seme-lhantes e engarrafá-los sob o nome de Chianti. Os produtores da região original se sentiram prejudicados e criaram, em 1924, o "Consorzio del Marchio Storico" ou "Consorzio Chianti Classico", cujas garrafas vêm identificadas por um selo próximo ao gargalo, que traz como símbolo o inconfundível galinho preto.

Nos anos 50 e 60 a qualidade caiu e Chianti virou sinônimo de vinho de trattoria, com as inconfundíveis garrafas do tipo Fiasco, com fundo de palha, penduradas no teto. Atualmente, este tipo de embalagem está totalmente descartada pelos produtores de qualidade, que usam vasilhames do tipo bordalês.

Em 1966, a região ganhou sua DOC (Denominação de Origem Controlada) baseada nos já antiquados métodos do barão Ricasoli. A qualidade continuou caindo e a produção aumentando, o que, de certa forma, motivou o aparecimento do que hoje chamamos de "supertoscanos" (vinhos "fora-da-lei", feitos na Toscana utilizando uvas estrangeiras). O Tignanelo, pioneiro desta categoria, foi criado neste contexto pelo marquês Piero Antinori em 1971. E este grande vinho não é nada além de um Chianti, da região clássica, porém feito com 80% Sangiovese e o restante de Cabernet Sauvignon, sem utilizar as uvas brancas, até então obrigatórias.

A região foi elevada a DOCG (Denominação de Origem Controlada e Garantida) - grau mais alto da lei italiana, em 1984. As novas regras, seguindo tendência dos supertoscanos, diminuíram o uso das uvas brancas e permitiram o uso de até 10% de quaisquer outras uvas, o que na prática era um sinal verde para as castas estrangeiras, como a francesa Cabernet Sauvignon. Hoje, os produtores já pensam em propor uma flexibilização ainda maior destas regras, aumentando o percentual de outras uvas de 10% para 15%.

Depois do crescimento, a região foi subdividida em 8 sub-regiões, conforme sua origem, e assim expressas nos rótulos: Chianti Clássico, região entre Siena e Florença - não é garantia de qualidade, mas a maioria dos bons vem daqui; Chianti Colli Fiorentini, das colinas próximas a Florença; Chianti Rufina (não confundir com Rufino, nome de um produtor), próxima à cidade de Rufina, com bons produtores, mas difícil de achar no Brasil; Chianti Montalbano, nos arredores da cidade de Montecarlo, noroeste de Florença; Chianti Colline Pisane, das colinas de Pisa; Chianti Colli Senesi, ao redor de Siena; Chianti Colli Aretini, próximo a Arezzo. Além disso, o vinho pode ostentar apenas a palavra "Chianti" em sua etiqueta, o que significa que vem de outras partes menos nobres da região. Os Chianti podem ainda ser divididos em duas categorias, os "riserva" e os "normale".

A indicação "riserva" pode aparecer associada a qualquer das subzonas acima. A diferença no estilo (não necessariamente na qualidade) é grande. Por lei, os reservados precisam envelhecer 38 meses antes de chegar ao mercado, enquanto os outros apenas de quatro a sete meses. Na prática os primeiros terão um estágio maior em carvalho, mais corpo e álcool. Para muitos isto descaracteriza o Chianti, historicamente um vinho jovem, leve e vivo. Os "normale" cumprem melhor seu papel à mesa, enquanto os "riserva" marcam mais presença em degustações, por seu caráter e estrutura. É uma questão de escolha.

É bom lembrar que leis determinam apenas um mínimo de padrão, mas não qualidade. Os Chianti continuam irregulares, indo dos quase intragáveis aos excelentes. A classe sempre virá da vontade e capacidade do produtor. A seguir estão alguns dos bons exemplares disponíveis em nosso mercado, três "normale" e três "riserva":

Chianti Classico 1999, Badia a Coltibuono (Mistral, tel. (11) 3372-3400, US$ 24,50). Um Chianti estilo "old fashion", com qualidade. Feito de 90% Sangiovese e 10% Canaiolo, com estágio de um ano em carvalho esloveno. Vermelho rubi claro com reflexos violáceos. Lembrando frutos maduros, como cereja, além de cogumelos, terra molhada e cacau. Médio corpo, muito fresco e com taninos agradáveis. Bem equilibrado com seus 13% de álcool. Pronto para beber ao longo de mais um ano. "B+"

Chianti Classico 1999, Isole e Olena (Mistral, US$ 36,50). Do mesmo produtor do ótimo supertoscano Cepparello, este é um corte de 80% Sangiovese, 15 a 20% de Canaiolo e até 5% de Syrah. Vermelho rubi claro, brilhante. Muita ameixa fresca, com um toque de chocolate e de minerais nos aromas. Médio corpo, taninos presentes, porém delicados, com 13% de álcool e boa acidez. Beber agora ou no próximo ano. "B+"

Chianti Classico Castello di Brolio 1998, Barone Ricasoli (World Wine, tel. 11 3315-7477, R$ 176). Amadurecido 18 meses em barricas. De cor escura muito viva e violácea. Profusão de frutas para nosso olfato, como cerejas pretas maduras, além de alcaçuz, defumados e um toque fresco de menta. Encorpado com os taninos ainda nervosos e 13,5% de álcool, tem potencial para guarda de mais uns quatro anos. Um belo Chianti, moderno sem perder a tipicidade. O melhor entre os "normale" da prova. "A"

Chianti Classico Castello di Monna Lisa Riserva 1997, Vignamaggio (Cellar, tel. 11 5531-2419, US$ 41). 90% Sangiovese e 10% de outras não declaradas, com 18 a 20 meses em carvalho francês. Muito frutado e macio, de novo, ameixas e frutas vermelhas em geral com um toque de carvalho. Bom corpo com 13% e taninos bem resolvidos. Beber agora ou em mais dois anos. "B+"

Chianti Classico Cellole Riserva 1998, San Fabiano Calcinaia (Decanter, tel.: 11 3071-3055, R$ 94,80). Muito intenso e agradável nos aromas típicos de alcaçuz, frutas vermelhas e minerais. Corpo médio e bom, elegante e macio (13,5% de álcool), menos ácido que a média dos Chiantis. Do mesmo produtor do supertoscano Cerviolo. Beber agora ou guardar até dois anos. "B+"

Chianti Classico Riserva 1997, Castello di Fonterutoli (Expand, tel.: 11 4613-3333, US$ 59). Do mesmo produtor do supertoscano Siepi. Este é composto de 90% Sangiovese e 10% Cabernet Sauvignon. Educado 12 meses em barricas. Vermelho granada escuro, com carvalho, frutas maduras e secas (cereja e ameixa), chocolate, café, baunilha e um sopro de violetas. Macio ao palato, com corpo, álcool (13,5%) e taninos evoluídos e finos. Ainda pode crescer por uns quatro anos. O mais consistente dos "riserva" da prova. "A"

Legenda
A+ Extraordinário (95 a 100)
A Excelente (90 a 94)
B+ Muito bom (85 a 89)
B Bom (80 a 84)
C Médio (70 a 79)
D Fraco (50 a 69)
E Abaixo do padrão (0 a 49)