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por Marcelo Copello
Uma das mais antigas lendas do rico folclore vinícola
remonta ao medievo e tem como personagem principal uma ave faminta.
O galo mais famoso da história viveu na Toscana, há
mais de 400 anos, e teve atuação decisiva numa disputa
política, chegando a evitar uma guerra.
As cidades-estados de Siena e Florença não
se entendiam no estabelecimento das fronteiras de seus vinhedos.
Decidiu-se por uma disputa entre cavaleiros. Um representante de
cada lado partiria, de madrugada, na direção do oponente.
O local onde estes se encontrassem marcaria o limite territorial.
A largada seria dada ao cantar de um galo. Os habitantes de Siena
selecionaram um garboso animal bem nutrido e de penas mui brancas.
Os florentinos optaram por um galo preto e mal alimentado. Este
último, despertado pela fome, cantou primeiro. O cavaleiro
de Florença partiu na frente, estendendo as fronteiras da
cidade até o Castello de Fonterutoli.
O "Gallo Nero" (galo negro) tornou-se, desta
maneira, o símbolo deste que é o vinho mais famoso
do mundo, o Chianti. O nome etrusco Clante-i, para designar a região,
é citado em documentos do século VIII e as primeiras
menções ao seu vinho datam do século XIV. Mas
foi apenas em 1716 que o Gran Duque Cosimo III, da mítica
família Médici de Florença, outorgou o ato
que fez desta uma das primeiras áreas vinícolas geograficamente
demarcadas.
Não se sabe bem como era o gosto deste vinho
nos seus primórdios. Sua "fórmula" tem sido
aperfeiçoada ao longo dos séculos. O padrão
do Chianti moderno foi estabelecido pelo barão Bettino Ricasoli
(1808-1890). Depois de décadas de experimentações
ele chegou ao corte que é usado como base até hoje:
70% da tinta Sangiovese, que dá o caráter, corpo e
cor; 20% da tinta Canaiolo, que contribui com maciez, e 10% das
uvas brancas Trebbiano e Malvasia, que conferem leveza e frescor
à mistura.
A receita do barão fez sucesso o a popularidade
do vinho cresceu ainda mais no início do século XX.
Com isto os viticultores de regiões próximas começaram
a produzir vinhos seme-lhantes e engarrafá-los sob o nome
de Chianti. Os produtores da região original se sentiram
prejudicados e criaram, em 1924, o "Consorzio del Marchio Storico"
ou "Consorzio Chianti Classico", cujas garrafas vêm
identificadas por um selo próximo ao gargalo, que traz como
símbolo o inconfundível galinho preto.
Nos anos 50 e 60 a qualidade caiu e Chianti virou sinônimo
de vinho de trattoria, com as inconfundíveis garrafas do
tipo Fiasco, com fundo de palha, penduradas no teto. Atualmente,
este tipo de embalagem está totalmente descartada pelos produtores
de qualidade, que usam vasilhames do tipo bordalês.
Em 1966, a região ganhou sua DOC (Denominação
de Origem Controlada) baseada nos já antiquados métodos
do barão Ricasoli. A qualidade continuou caindo e a produção
aumentando, o que, de certa forma, motivou o aparecimento do que
hoje chamamos de "supertoscanos" (vinhos "fora-da-lei",
feitos na Toscana utilizando uvas estrangeiras). O Tignanelo, pioneiro
desta categoria, foi criado neste contexto pelo marquês Piero
Antinori em 1971. E este grande vinho não é nada além
de um Chianti, da região clássica, porém feito
com 80% Sangiovese e o restante de Cabernet Sauvignon, sem utilizar
as uvas brancas, até então obrigatórias.
A região foi elevada a DOCG (Denominação
de Origem Controlada e Garantida) - grau mais alto da lei italiana,
em 1984. As novas regras, seguindo tendência dos supertoscanos,
diminuíram o uso das uvas brancas e permitiram o uso de até
10% de quaisquer outras uvas, o que na prática era um sinal
verde para as castas estrangeiras, como a francesa Cabernet Sauvignon.
Hoje, os produtores já pensam em propor uma flexibilização
ainda maior destas regras, aumentando o percentual de outras uvas
de 10% para 15%.
Depois do crescimento, a região foi subdividida
em 8 sub-regiões, conforme sua origem, e assim expressas
nos rótulos: Chianti Clássico, região entre
Siena e Florença - não é garantia de qualidade,
mas a maioria dos bons vem daqui; Chianti Colli Fiorentini, das
colinas próximas a Florença; Chianti Rufina (não
confundir com Rufino, nome de um produtor), próxima à
cidade de Rufina, com bons produtores, mas difícil de achar
no Brasil; Chianti Montalbano, nos arredores da cidade de Montecarlo,
noroeste de Florença; Chianti Colline Pisane, das colinas
de Pisa; Chianti Colli Senesi, ao redor de Siena; Chianti Colli
Aretini, próximo a Arezzo. Além disso, o vinho pode
ostentar apenas a palavra "Chianti" em sua etiqueta, o
que significa que vem de outras partes menos nobres da região.
Os Chianti podem ainda ser divididos em duas categorias, os "riserva"
e os "normale".
A indicação "riserva" pode
aparecer associada a qualquer das subzonas acima. A diferença
no estilo (não necessariamente na qualidade) é grande.
Por lei, os reservados precisam envelhecer 38 meses antes de chegar
ao mercado, enquanto os outros apenas de quatro a sete meses. Na
prática os primeiros terão um estágio maior
em carvalho, mais corpo e álcool. Para muitos isto descaracteriza
o Chianti, historicamente um vinho jovem, leve e vivo. Os "normale"
cumprem melhor seu papel à mesa, enquanto os "riserva"
marcam mais presença em degustações, por seu
caráter e estrutura. É uma questão de escolha.
É bom lembrar que leis determinam apenas um
mínimo de padrão, mas não qualidade. Os Chianti
continuam irregulares, indo dos quase intragáveis aos excelentes.
A classe sempre virá da vontade e capacidade do produtor.
A seguir estão alguns dos bons exemplares disponíveis
em nosso mercado, três "normale" e três "riserva":
Chianti Classico 1999, Badia a Coltibuono (Mistral,
tel. (11) 3372-3400, US$ 24,50). Um Chianti estilo "old fashion",
com qualidade. Feito de 90% Sangiovese e 10% Canaiolo, com estágio
de um ano em carvalho esloveno. Vermelho rubi claro com reflexos
violáceos. Lembrando frutos maduros, como cereja, além
de cogumelos, terra molhada e cacau. Médio corpo, muito fresco
e com taninos agradáveis. Bem equilibrado com seus 13% de
álcool. Pronto para beber ao longo de mais um ano. "B+"
Chianti Classico 1999, Isole e Olena (Mistral, US$
36,50). Do mesmo produtor do ótimo supertoscano Cepparello,
este é um corte de 80% Sangiovese, 15 a 20% de Canaiolo e
até 5% de Syrah. Vermelho rubi claro, brilhante. Muita ameixa
fresca, com um toque de chocolate e de minerais nos aromas. Médio
corpo, taninos presentes, porém delicados, com 13% de álcool
e boa acidez. Beber agora ou no próximo ano. "B+"
Chianti Classico Castello di Brolio 1998, Barone Ricasoli
(World Wine, tel. 11 3315-7477, R$ 176). Amadurecido 18 meses em
barricas. De cor escura muito viva e violácea. Profusão
de frutas para nosso olfato, como cerejas pretas maduras, além
de alcaçuz, defumados e um toque fresco de menta. Encorpado
com os taninos ainda nervosos e 13,5% de álcool, tem potencial
para guarda de mais uns quatro anos. Um belo Chianti, moderno sem
perder a tipicidade. O melhor entre os "normale" da prova.
"A"
Chianti Classico Castello di Monna Lisa Riserva 1997,
Vignamaggio (Cellar, tel. 11 5531-2419, US$ 41). 90% Sangiovese
e 10% de outras não declaradas, com 18 a 20 meses em carvalho
francês. Muito frutado e macio, de novo, ameixas e frutas
vermelhas em geral com um toque de carvalho. Bom corpo com 13% e
taninos bem resolvidos. Beber agora ou em mais dois anos. "B+"
Chianti Classico Cellole Riserva 1998, San Fabiano
Calcinaia (Decanter, tel.: 11 3071-3055, R$ 94,80). Muito intenso
e agradável nos aromas típicos de alcaçuz,
frutas vermelhas e minerais. Corpo médio e bom, elegante
e macio (13,5% de álcool), menos ácido que a média
dos Chiantis. Do mesmo produtor do supertoscano Cerviolo. Beber
agora ou guardar até dois anos. "B+"
Chianti Classico Riserva 1997, Castello di Fonterutoli
(Expand, tel.: 11 4613-3333, US$ 59). Do mesmo produtor do supertoscano
Siepi. Este é composto de 90% Sangiovese e 10% Cabernet Sauvignon.
Educado 12 meses em barricas. Vermelho granada escuro, com carvalho,
frutas maduras e secas (cereja e ameixa), chocolate, café,
baunilha e um sopro de violetas. Macio ao palato, com corpo, álcool
(13,5%) e taninos evoluídos e finos. Ainda pode crescer por
uns quatro anos. O mais consistente dos "riserva" da prova.
"A"
| Legenda |
|
| A+ |
Extraordinário |
(95 a 100) |
| A |
Excelente |
(90 a 94) |
| B+ |
Muito bom |
(85 a 89) |
| B |
Bom |
(80 a 84) |
| C |
Médio |
(70 a 79) |
| D |
Fraco |
(50 a 69) |
| E |
Abaixo do padrão |
(0 a 49) |
|
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