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Mar de Vinho
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GAZETA MERCANTIL - Caderno Fim de Semana - 27/06/2003

VINHO BRASILEIRO PERTO DO PADRÃO INTERNACIONAL

por Marcelo Copello

Michel Rolland, talvez o enólogo de maior prestígio do mundo, está finalmente trabalhando no Brasil. Após quase dois anos de negociações, este especialista aceitou o convite da Vinícola Miolo para desenvolver seus vinhos. Esta coluna visitou a vinícola gaúcha e conferiu o trabalho do especialista francês.

O "estilo Rolland" é de líquidos concentrados, feitos a partir de uvas ultramaduras, com taninos amaciados por longo estágio em barris de carvalho novo, respeitando o solo e o clima de sua origem. Este mestre sabe que não existe receita de bolo para se fazer vinho. Trata-se de um processo complexo, por suas inúmeras variáveis e muitos mistérios, quase uma alquimia.

A assinatura de Rolland em um rótulo garante o acesso aos formadores de opinião mais poderosos do planeta, como a revista "Wine Spectator" ou o crítico Robert Parker, que costuma conferir notas altas aos produtos da grife Rolland. A contratação desta consultoria faz parte de uma estratégia da empresa para penetração no mercado internacional. Segundo seu enólogo-chefe, Adriano Miolo, a empresa detém uma fatia de 80% do mercado de vinhos finos nacionais quando se fala de garrafas com preço acima de R$ 10. Uma fatia de cerca de 4 milhões de litros anuais. Contudo, apenas 3% da produção é exportada, principalmente para os EUA. O objetivo da Miolo é multiplicar este volume por dez nos próximos anos. Um consórcio chegou a ser criado, agregando 5 dos mais importantes produtores brasileiros: Miolo, Salton, Valduga, Aurora e Lovara, que já atuaram em bloco em eventos como a London Wine Fair e Vinexpo de Nova York em 2002. O trabalho do expert francês se estende às três unidades da Miolo: Bento Gonçalves, na Serra Gaúcha; Campanha Gaúcha, fronteira com o Uruguai, e Vale do São Francisco, no nordeste do País. Vai desde a escolha das castas, o plantio, os cuidados com o vinhedo, a poda e a seleção das barricas de carvalho, até o projeto das cantinas e o marketing, com o posicionamento dos produtos no mercado. O sistema de plantio é o de espaldeira, método milenar usado na Europa com plantas mantidas na forma arbustiva, o que permite maior insolação, com adaptações a cada uma das três regiões. Por exemplo, cultivo de mais vinhas por hectare para que concorram entre si em busca de nutrientes do solo, inclinação do terreno e baixo rendimento controlado.

Em Bento Gonçalves, um novo modelo de tanque de aço inox para a fermentação dos tintos já foi instalado. Difere dos outros que a empresa dispõe por ser mais baixo e de maior diâmetro, proporcionando um maior contato das cascas, que bóiam junto com o líquido, aumentando a extração de cor e estrutura na bebida. O método de remontagem - bombeamento do mosto do fundo do tanque para a superfície - também será diferente, as cascas serão mecanicamente empurradas para o fundo do tanque, melhorando a extração do suco. Toda a movimentação do mosto será feita por gravidade ao invés da utilização de bombas, que prejudicam as uvas, dilacerando suas cascas e liberando substancias indesejadas.

Rolland já auxiliou no corte do Lote 43 (atualmente o vinho top da empresa) da safra 2002. O projeto culminará com o lançamento, daqui a dois ou três anos, de três novos rótulos. A linha já tem nome definido - "Miolo Terroir" - e será composta por um vinho de cada uma das três unidades da empresa, expressando o terroir (condições de solo e clima) de seu local de origem.

Além dessa, a Miolo prepara ainda uma série de boas novidades para os consumidores. Dentre os novos vinhos provados, o Miolo Gran Reserva, que estará posicionado entre a linha Reserva e o Lote 43, e o maior destaque, um exemplar feito a partir de castas portuguesas plantadas na Estância Fortaleza do Seival, na Campanha Gaúcha. A amostra provada, ainda não totalmente acabada, demonstra bom potencial. A cor é retinta e o corte de Tinta Roriz, Alfroucheiro Preto e Touriga Nacional empresta aromas de frutas secas bem ao estilo do Douro. O teor alcoólico é de 12,8%, obtido naturalmente, sem necessidade de nenhum artifício. O projeto é uma parceria com a portuguesa DãoSul. O vinho deve chegar ao mercado em 2004, com a marca ‘Quinta do Seival", custando entre R$ 30 e R$ 40.