.:| COLUNAS 2003 |:.
Mar de Vinho
design 
Sobre Marcelo Copello  


GAZETA MERCANTIL - Caderno Fim de Semana - 11/07/2003

A CERVEJA EM PÍLULAS

por Marcelo Copello

Preferência nacional, a cerveja é tema de dois novos livros. Um deles, recém-chegado às livrarias, é o "O Catecismo da Cerveja", do alemão Conrad Seidl (Senac, 388 páginas, R$ 45), que ganhou caprichada tradução de Ingo Lütge e Flávio Quintiliano. O outro, "Os Primórdios da Cerveja no Brasil", de Sérgio de Paula Santos (Ateliê Editorial, 46 páginas, preço máximo estimado R$ 25), tem lançamento previsto para o início de agosto.

O cartilha de devoção escrita por Seidl, autodenominado "o papa da cerveja" e dono do registro desta alcunha, é uma leitura bem-humorada e riquíssima em informações. Tanto que o livro adora o formato de perguntas e respostas. Ao todo são 567 goles, ou pílulas, de conhecimento sobre as loiras, morenas e ruivas espumantes, o suficiente para embriagar de conhecimento o mais sedento dos "cervejistas". Jaguar ilustra a obra, enriquecendo-a e comentando o texto com suas charges, sempre muito bem-vindas.

Quer saber qual o teor de cálcio ideal da água para fabricação de cerveja?, o papa responde. E qual o texto da lei de pureza em alemão arcaico?, ou que gosto tinha a cerveja dos antigos egípcios? está tudo lá. Os assuntos vão dos técnicos, aos didáticos, passando por curiosidades, fatos históricos e pitorescos. São orações, canções, provérbios, regras e leis.

Tantas informações se ressentem da falta de um índice remissivo para facilitar as consultas. Numa próxima edição também seria interessante uma atualização dos números e estatísticas divulgados na obra, datados de 1997. Como a cerveja é tão apreciada pelos brasileiros, nas futuras reedições, também será interessante incluir sobre a realidade do bebedor nacional como estatísticas de consumo, hábitos regionais e as marcas do Brasil. Essas observações não roubam os méritos do ótimo "O Catecismo da Cerveja", que se encerra com a pergunta número 567: "Falar e escrever sobre cerveja não dá sede?" O sim como resposta é óbvio e inquestionável.

"Os Primórdios da Cerveja no Brasil", do médico Sérgio de Paula Santos, se propõe a "levantar alguns dados sobre as primeiras cervejas consumidas no País, dos primórdios, como diz o título, aos nossos dias, passando, naturalmente pelas duas maiores cervejarias citadas".

Sucinto, o livro dá algumas pinceladas na história da cerveja no Brasil, concentrando-se no passado das duas maiores empresas brasileiras do setor, a Antártica e a Brahma, fundidas desde 1999, sob o nome de AmBev (American Beverage Company).

O texto é documental, compilando dados históricos e relatando fatos curiosos, como a origem da expressão "marca barbante", que designava qualquer produto de baixa qualidade, inspirado no fato de as garrafas de cerveja serem outrora vedadas com rolhas amarradas com barbantes. Também estão lá dados como a relação entre o preço de uma Antártica, em 1919, e o salário mensal de uma faxineira na mesma época, o equivalente a apenas duas e meia garrafas.

A maior parte da obra é dedicada aos anais da Antártica, empresa resultante de uma associação entre uma cervejaria de origem alemã e um abatedouro de suínos. O motivo? O frigorífico possuía uma máquina de fazer gelo, item caro e importante da fabricação de cervejas na época. Assim, em 1888 fundou-se a "Companhia Antarctica Paulista - Fábrica de Gelo e Cerveja". A crônica da sucessão familiar no controle da empresa também é abordada. Item digno de nota é o testamento deixado por um dos herdeiros, datado de 1934. Segundo Paula Santos, neste documento estariam entre os beneficiários o Partido Nacional-Socialista Alemão, e o dinheiro legado ficaria aos cuidados do então presidente, nominalmente citado: Adolf Hitler.

O leitor chegará à última página estimulado a se aprofundar em análises históricas e em estabelecer contato com a realidade atual desta indústria de bebidas no Brasil. O livro concentra-se principalmente dos primórdios no século XIX aos anos 30 do século passado. Paula Santos fica devendo um complemento desta obra.