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Mar de Vinho
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Sobre Marcelo Copello  


GAZETA MERCANTIL - Caderno Fim de Semana - 28/11/2003

O EMERGENTE PORTUGUÊS

por Marcelo Copello

O Alentejo, no sul de Portugal, é a maior província do país. Em sua paisagem, plana e árida, perfilam-se sobreiros (a árvore da cortiça), olivais e parrais. Em recente visita feita à região, convite do Icep, órgão do governo português, e da Varig, pude ver de perto como a terra pobre e pouco povoada se tornou a grande região emergente na produção portuguesa de vinhos.

O Alentejo ocupa um terço da área de Portugal. Os 20 mil hectares de vinha lá plantados significam apenas 8% da área total da cultura de uvas viníferas do país. Parece um paradoxo, uma vez que o cultivo vitícola é uma tradição desde a dominação dos romanos. O declínio se verificou a partir do século XIX, quando a praga Phyloxera dizimou a maioria dos vinhedos.

Somente no século XX, políticas governamentais transformaram o Alentejo no celeiro do país, só que incentivando o plantio de cereais em detrimento de uvas. A partir dos anos 80, porém, a produção de vinhos na região voltou a alcançar os mesmos níveis obtidos 100 anos antes.

Esse renascimento foi alavancado por fatores como a entrada de Portugal na comunidade européia e a criação da Comissão Vitivinícola Regional Alentejana (CVRA). Também nesse período as sub-regiões alentejanas começaram a ser regulamentadas. Hoje, elas são: Portalegre, Borba, Redondo, Reguengos, Vidigueira, Évora, Moura e Granja-Amareleja. A produção vem crescendo nos últimos anos, a colheita de 2003 ultrapassou os 70 milhões de litros, o que representa cerca de 10% do vinho produzido no país.

Os solos são variados, dominantemente de origem granítica com manchas de xistos e quartzolitos de média a baixa fertilidade. O xisto proporciona um amadurecimento acelerado dos bagos, pois retém calor durante o dia, permitindo que o ciclo vegetativo da vinha continue à noite. Como resultado, os vinhos têm baixa acidez e evolução mais rápida. O clima é temperado com características mediterrâneas e continentais, primaveras e verões quentes e secos. Chove pouco no Alentejo. A média anual é de 600 mm e a insolação, muito alta, com cerca de 3 mil horas de sol ao ano. Esses fatores contribuem para uma perfeita maturação das uvas e concentração de sabores nos vinhos.

São várias as castas desenvolvidas na região. As principais brancas são: Roupeiro (bastante aromática, com perfumes citrinos, mas que se perdem com a idade), Rabo de Ovelha (a mais produtiva), Fernão Pires (contribui com aromas florais) e Antão Vaz, a grande branca da região, com corpo, complexidade e boa longevidade. Entre as tintas destacam-se: Castelão (também conhecida como Periquita, empresta caráter frutado e macio aos vinho, com alguma longevidade, mas sem muita complexidade), Trincadeira (chamada no Douro de Tinta Amarela, proporciona aromas, boa acidez e álcool aos vinhos) e Aragonez (originária da região de Rioja na Espanha, onde se chama Tempranillo, é uma casta de muita cor e corpo).

Os rendimentos normalmente ficam abaixo dos 40 hectolitro/hectare embora o limite permitido na região seja de 55 hectolitro/hectare para as castas tintas e 60 hectolitro/hectare para as brancas. Existem cerca de 3 mil viticultores donos de uma área média de 3,4 hectares, alta se comparada com a média de 0,9 hectares do país. Segundo Joaquim Madeira, presidente do CVRA, o Alentejo já tem com 120 produtores de vinho e mais de 300 rótulos.

O grande ícone da região é o Pera Manca, um dos mais notáveis vinhos portugueses, com uma personalidade inconfundível. O vinho, citado em crônicas quinhentistas e que teria vindo com Pedro Álvares Cabral na viagem do descobrimento, teve sua produção interrompida por décadas. A marca foi ressuscitada a partir da safra de 1990 pela Fundação Eugênio de Almeida, que o devolveu a seu pódio. Mas o Alentejo é muito mais do que o Pera Manca. Esta região é capaz de produzir qualidade razoável com quantidade, o que se traduz em bons preços, e ao mesmo tempo pode nos proporcionar alguns grandes vinhos.

Um dos melhores é, sem dúvida, o Mouchão. Pertencente à família Reynolds, a Herdade do Mouchão, produz seus vinhos quase da mesma maneira desde o início do século XX. As uvas são pisadas a pé, em lagares abertos e o vinho é amadurecido em velhos tonéis de 5,5 mil litros, de carvalho, mogno e macaúba. O vinho era vendido apenas na porta da adega até 1954, quando foi engarrafado pela primeira vez. Resultou numa surpresa, pois descobriu-se que o vinho se beneficiava muito do envelhecimento em garrafa. Sua composição é peculiar, 70% Alicante Bouchet e 30% Trincadeira. A primeira, uma cepa de origem francesa, produz vinhos muito taninosos e longevos, mas agressivos na juventude. A segunda é mais amável e empresta maciez à mistura.

Hoje, sob o comando do respeitado enólogo Paulo Laureano, os lagares ganharam controle de temperatura e barris novos de carvalho francês fazem par com os velhos tonéis. O resultado é sui generis. O Mouchão 2000 provado tem aromas muito intensos de eucalipto, chocolate e frutas maduras. Na boca, demonstra bom corpo e uma ponta de tanino, mas é macio e com boa persistência (A). O Mouchão Tonel 3-4 é o top da casa, lançado antes somente na safra de 1996, ora ganha sua versão da safra 1999 (e deverá ganhar também reedições nas safras de 2001 e 2003). O Mouchão Tonel 3-4 1999, ainda sem rótulo, é muito complexo, com aromas de eucalipto, algo resinoso, tabaco, cacau, especiarias e carvalho muito bem integrados. No palato, não é tão concentrado e potente quando o famoso 1996, mas é elegante e com grande frescor (A/A+). O segundo vinho da casa também merece atenção, o Don Rafael 2002 é uma mistura de Alicante Bouchet, Trincadeira, Aragonês, Syrah e Touriga Nacional, pisado em lagar e amadu-recido em barricas francesas por 1 ano (B/B+).

Outro destaque da região é a adega Cortes de Cima, do dinamarquês Hans Kristian Jorgensen. Seu Incógnito, um Syrah 100% bem conhecido no Brasil, é um vinho moderno, bem ao estilo novo mundo. O Incógnito 2002 provado chega aos 15% de álcool, de cor muito escura, com aromas de compotas (ameixa) e madeira bem integrada (passa 7 meses em carvalho americano e francês), encorpado e elegante (B+/A). O Incógnito 2003, provado no barril promete ser ainda melhor. Uma novidade deste produtor é o lançamento do monocasta Touriga Nacional 2002, perfumado (até um pouco demais), floral com violetas e rosas, bom corpo e macio na boca com seus 14% de álcool (B+).

Um alentejano que não pode ser esquecido é o Tapada do Chaves. O Reserva Especial Vinhas Velhas 1997 é um clássico, feito apenas em grandes anos. Seu segundo vinho, o Tapada do Chaves Reserva 1999, mantém o estilo da casa, elegante e macio, com médio corpo, com frutas vermelhas e um toque defumado e de pimenta (B+). O tinto básico da casa, o Almojanda 1999, tem um bom custo-benefício, é frutado e floral, com médio corpo, para ser bebido jovem (B).

Dentre os novos produtores, um dos destaques é Francisco Nunes Garcia, que, em 1996, resolveu trocar o cultivo de cereais por uvas e, desde então, vem ampliando seus vinhedos. A adega, inaugurada em 2002, é pequena e moderna, com capacidade para produzir 120 mil garrafas ao ano, com cubas baixas de inox e barris novos de carvalho francês. Seu primeiro rótulo a chamar a atenção foi o Aragonez 1999, hoje esgotado. O Reserva 2000, feito com Aragonês, Alicante Bouchet e Trincadeira, ainda está se abrindo, tem boa complexidade, aliando fruta e carvalho bem integrado (B+). Boas surpresas prometem vir da safra 2001, cuja amostra já engarrafada deve gerar um bom Reserva, e também da safra 2002, cuja amostra de barril de um Cabernet Sauvignon com 14,2% álcool entusiasmou.

A Adegas Cooperativas portuguesas são quase sinônimo de vinhos de baixa qualidade, feitos em grandes quantidades. A Adega Cooperativa Borba é uma exceção e a prova de que o modelo pode funcionar. Basta querer. Mesmo com 300 agricultores cooperados, que produziram 19 milhões de quilos de uva em 2003, a qualidade não foi esquecida. Cada caminhão que entra na adega tem amostras de sua carga colhidas e analisadas em tempo real, em 18 quesitos (podridão, atividades fermentativas, grau alcoólico, etc), e o preço pago pela uva varia de acordo com sua qualidade. O Montes Claros Reserva Antão Vaz 2002 é um branco muito fino, com aromas delicados de melão, pêra, cítricos e flores amarelas, com boa presença na boca por sua acidez e corpo (B/B+). O Borba Reserva 1999, top da casa, com seu conhecido rótulo de cortiça, também pede atenção, de cor granada, com notas de couro, musgo e frutas secas, de médio corpo e macio (B).

Um ex-sócio da Adega Cooperativa Borba, Gabriel Francisco Dias, em 1991, decidiu alçar vôo solo e teve sucesso. Construiu a própria adega, modernizou os vinhedos e investiu em qualidade. Hoje, o Vale de Ancho já faz parte do primeiro time do Alentejo, e o básico, Couteiro Mor, é popular em Portugal. O Vale de Ancho 2001 é feito com Alicante Bouchet e Aragonez, pede para ser decantado para que respire antes, pois está um pouco fechado. Mostra frutas muito maduras, um toque de frescor, tem bom corpo, com taninos bem presentes, pedindo mais tempo de garrafa (B+/A).

Uma das maiores referências do Alentejo, a Herdade do Esporão, além de rótulos consagrados está, desde o ano passado, com uma agradável novidade ainda pouco conhecida no Brasil. O Esporão Private Selection Branco 2001 contraria a teoria de que em locais de muito calor não é possível produzir bons brancos. É um excelente vinho feito com Antão Vaz, Arinto e Semillon pelos conceituados enólogos David Baverstock e Luís Duarte. A madeira é presente, com tostados e manteiga, além de frutas amarelas como pêssego. Na boca, é quente (14%), untuoso e elegante (A).

Propriedade de Joaquim Madeira, presidente do CVRA, a Casa de Sabicos conta com a consultoria do enólogo Paulo Laureano, o mesmo do Mouchão. A evolução dos vinhos deste produtor é flagrante. O Casa de Sabicos 2001, esgotado em Portugal, é um bom vinho, mas o Casa de Sabicos 2002, que será lançado em breve, é superior, com ótimo ataque aromático, muita fruta, chocolate e especiarias, aliando força e elegância (B+/A). A novidade que mais empolgou também veio da Casa de Sabicos, uma mistura de 60% Alicante Bouchet e 40% Cabernet Sauvignon da safra de 2002. O vinho, com potencial para muitos anos de guarda, ainda não tem nome, poderá ser um Casa de Sabicos Reserva Especial, a ser lançado no ano que vem. Vale a pena aguardar com a taça em punho.

Legenda
A+ Extraordinário (95 a 100)
A Excelente (90 a 94)
B+ Muito bom (85 a 89)
B Bom (80 a 84)
C Médio (70 a 79)
D Fraco (50 a 69)
E Abaixo do padrão (0 a 49)