.:| COLUNAS 2003 |:.
Mar de Vinho
design 
Sobre Marcelo Copello  


GAZETA MERCANTIL - Caderno Fim de Semana - 05/12/2003

PORTUGUÊS DESDE A RAIZ

por Marcelo Copello

Menos conhecido do grande público, o Quinta do Noval Nacional é o vinho português mais cobiçado no mundo. O preço e a raridade deste Porto o colocam no mesmo patamar de nomes de vinhos de mesa como o Pétrus e o La Romanée Conti. O Vintage Nacional 1931 foi eleito um dos 12 vinhos do século pela revista americana "Wine Spectator". Disputadas em leilões, garrafas do Vintage Nacional 1963, para muitos o ano de sua mais perfeita expressão, chegam a ultrapassar a cifra de € 3 mil cada. Enquanto isso, exemplares da mais recente, porém não menos cotada safra de 2000, saem por €1,5 mil, quando são encontrados.

A história desse objeto do desejo começa em 1715, data do primeiro registro da Quinta do Noval. A propriedade de 145 hectares, situada na encosta sul do vale do rio Pinhão, um dos locais mais privilegiados do Douro. No final do século XIX, a região foi duramente atacada pela praga Phyloxera, que destruiu muitos parreirais, incluindo toda a propriedade da Quinta do Noval. A empresa foi à falência, mudando de mãos em 1894. O novo proprietário, António José da Silva Júnior, reconverteu os vinhedos, enxertando as vinhas portuguesas em raízes de plantas americanas, resistentes à praga. O trabalho foi concluído por seu genro Luís de Vasconcelos Porto, que decidiu plantar um pequeno vinhedo de apenas 2,5 hectares, em seu melhor terreno, utilizando não a enxertia, mas o "pé franco" (plantio com raízes originais). Este método proporciona líquidos mais concentrados, mas deixa as plantas vulneráveis à praga, um grande risco.

O vinho produzido ali, pela primeira vez em 1925, foi um Porto Vintage, batizado de "Nacional". Esse nome se deve à utilização de parreiras com raízes nacionais e não o artifício importado.

Durante quase 300 anos de história, a Quinta pertenceu a quatro famílias até ser comprada em 1993 pela multinacional francesa AXA Millessimés. A empresa elabora, sempre com alto nível de qualidade, toda a gama de Portos: Ruby, Tawny, LBV... Entre os Vintages, além do Nacional, produzem o Quinta do Noval comum e o Quinta do Sival (a segunda marca, lançada há alguns anos com grande sucesso).

A quantidade de Nacional produzida é mínima: cerca de 2,4 mil garrafas ao ano. Para se ter uma idéia, o La Romanée Conti tem uma produção que equivale ao dobro desta e o Château Latour faz 100 vezes mais vinho, o que torna cada garrafa do Quinta do Noval Nacional tão rara quanto cara.