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por Marcelo Copello
A Península de Setúbal, tradicional área
vinícola ao sul de Lisboa, dá sinais de modernização
e é cada vez mais procurada pela qualidade e bons preços
de seus vinhos. Em recente visita, a convite do Icep, órgão
do governo português, e da Varig, pude verificar de perto
muitas das principais novidades oferecidas pela região.
Localizada entre os estuários dos rios Tejo
e Sado, a península tem seu nome, "Setúbal",
originado de uma corruptela de "sedes de Túbal".
Esse personagem bíblico, neto de Noé, teria chegado
ao local conduzindo seu povo pela foz do rio Sado. A cultura da
vinha na região tem um passado longínquo, recuando
ao período pré-cristão. Beneficiada pelo clima
favorável e por ser uma região portuária, a
grande expansão dessa indústria só aconteceria
no século XIX, com surgimento de grandes empresas familiares,
como veremos mais adiante.
O distrito Península de Setúbal é
subdividido em 13 "concelhos", embora seus 10 mil hectares
de parreiras se concentrem em apenas três deles: Setúbal,
Palmela e Montijo. Na região se produz anualmente mais de
30 milhões de litros de vinho, que podem receber três
denominações: "Palmela DOC" - para os produtos
dos concelhos de Palmela, Setúbal e Montijo; "Setúbal
DOC" - para o vinho doce Moscatel de Setúbal, e "Vinho
Regional Terras do Sado" - abrangendo todo o distrito. O clima
é mediterrâneo, com verões quentes e secos e
invernos relativamente frios e chuvosos. Devido à proximidade
do mar, a umidade relativa é alta, situando-se entre 75%
e 80%. Os solos são variados, porém predominam terrenos
arenosos em Palmela e argilo-calcários próximos a
Setúbal.
No que diz respeito às castas, dezenas são
permitidas, incluindo várias "importadas", como
a Cabernet Sauvignon e Chardonnay, mas a realidade é bem
mais limitada. As uvas tintas predominam com 90% do total e dentre
estas a Castelão reina com 95% da área plantada.
Em linhas gerais, a região se caracteriza pelo
domínio da Castelão e de quatro grandes produtores:
duas empresas particulares (José Maria da Fonseca e JP Vinhos)
e duas cooperativas - Adega Cooperativa de Palmela e Cooperativa
Agrícola Santo Isidro de Pegões). O movimento de renovação
dos vinhos locais passa justamente pelo surgimento de novos engarrafadores
e pelo plantio de novas castas.
Muito da história da região se liga a
José Maria da Fonseca, ao mesmo tempo a mais antiga empresa
familiar do setor e o segundo maior grupo vinícola de Portugal.
Com 150 anos, seu rótulo Periquita é o mais velho
daquele país e também o vinho luso mais vendido no
Brasil. Criada em 1834 com o nome do fundador, a megavinícola
hoje é administrada pela sexta geração de descendentes.
São os irmãos António e Domingos Soares Franco,
respectivamente o presidente e o enólogo da empresa. Tudo
é superlativo na J.M. da Fonseca, a começar pela administração
dos cerca de 800 hectares de vinhedos, dos quais 600 são
próprios. A produção ultrapassa os 5 milhões
de garrafas ao ano.
Inaugurada em 2001, a nova sede da empresa, em Vila
Nogueira de Azeitão, mais parece uma usina. Possui 436 tanques
de aço inox numa área construída de 10 mil
metros quadrados. Tudo é controlado por computadores e há
a capacidade de fermentar 6,5 milhões de litros simultaneamente.
A antiga sede, uma construção histórica
aberta à visitação, é utilizada até
hoje. Nesse edifício teve início o sucesso da empresa
no século XIX com a elaboração do Moscatel
de Setúbal, que continua a ser envelhecido no local. Numa
cave à meia luz, repousam milhares de barris e de garrafas
do vinho licoroso ao som de canto gregoriano.
O prédio abriga também o Periquita, distribuído
no Brasil pela Diageo (tel.: 11 3897-2000). Esse nome tem origem
na Cova da Periquita, propriedade adquirida em 1846, onde este tinto
era feito originalmente com mudas trazidas do Ribatejo. Seu estrondoso
sucesso levou outros produtores a pedirem mudas daquela casta, que
passou a ser chamada também pelo nome do vinho, "Periquita".
Hoje, o nome está registrado pela J. M. da Fonseca e a uva
chama-se oficialmente "Castelão".
O Periquita permanece em tonéis de mogno de
100 anos de idade com capacidade para 18 mil litros cada. Uma parcela
de 10% do líquido passa por barris de carvalho francês
e americano. A próxima safra, a de 2000, está totalmente
remodelada. A etiqueta é mais limpa e mais informativa, enquanto
a garrafa está mais esbelta, adotando o formato Bordeaux.
No líquido, o que muda é o corte. Antes 100% Castelão,
o tinto ganha a adição de 7,5% de Trincadeira e 7,5%
Aragonês. Trata-se de um bom avanço. O Periquita continua
um vinho simples para o dia-a-dia, mas está mais agradável,
moderno e frutado.
A empresa produz também uma versão reserva,
o Periquita Clássico, feito apenas em bons anos. Até
hoje os contemplados foram 1992, 1994, 1995 e 1999. Antes de chegar
ao mercado, passa dois anos em cubas de inox, um ano em barris de
carvalho e mais dois anos na garrafa. Enquanto a safra de 1999 ainda
descansa nas caves, atualmente se comercializa a de 1995. Na prova,
este vinho 100% Castelão demonstrou ser austero, de estilo
tradicional, com aromas etéreos, bom corpo, prestando-se
a envelhecimento em garrafa. Um bom vinho com um preço relativamente
inflado, cerca de €25 na origem.
A J.M. da Fonseca é um gigante que não
se acomodou com o sucesso comercial de suas grandes marcas. O enólogo
Domingos Soares Franco é incansável na busca de qualidade
e criação de novidades. Para tanto, construiu lagares
de inox para a pisa a pé ou por robôs, visando elaborar
vinhos especiais em pequenas quantidades. A empresa mantém
também um laboratório a céu aberto, o vinhedo
Algeruz. Em 220 hectares há centenas de clones de castas,
uma grande variedade de cepas nacionais e estrangeiras. Os resultados
dessas experiências são compartilhados com os produtores
locais e já renderam frutos. Há alguns anos, Domingos
lançou a série de varietais, ou monocastas, chamada
"DSF" (suas iniciais), trazidas para o Brasil pela Mistral
(tel.: 11 3372-3400). Estes exemplares utilizam uvas inexploradas
na região, como Sauvignon Blanc, Tinta Barroca, Tannat, Viognier
e Syrah, com bons resultados.
A menina dos olhos e mais recente novidade de D. S.
Franco é um vinho de corte, o Hexagon. Como o nome sugere,
misturam-se seis uvas, em homenagem à sexta gerações
da família, que ele representa. A safra de 2000, que deverá
ser lançada neste mês para celebrar os 200 anos da
empresa, é composta de Touriga Nacional (29,5%), Syrah (23,5%),
Trincadeira (22,5%), Tinto Cão (9,5%), Touriga Franca (7,5%)
e Tannat (7,5%), todas pisadas em lagar. Trata-se de um líquido
escuro, ainda fechado, com um bom ataque de aromas liderados por
carvalho - hortelã, violetas, frutas e especiarias. Com 14%
de álcool é muito encorpado, com taninos ainda presentes,
e muito intenso no palato. Infelizmente, o excelente vinho, que
custará cerca de €45 na origem, só será
comercializado em garrafas do tipo Magnum (de 1,5 litro), o que
impede a importação pelo Brasil.
Outra gigante da região é a J. P. Vinhos,
empresa fundada em 1922. Há nove anos foi comprada por José
Berardo, um grande investidor, amante dos vinhos e das artes. Berardo
manteve a equipe, comandada pelo conceituado Jorge Paiva Raposo
e emprestou um novo estofo à casa, decorando sua fachada
com oliveiras de mais de dois mil anos e adquirindo a histórica
Quinta da Bacalhoa. Essa propriedade, apesar de fornecer uvas e
dar nome ao vinho mais prestigioso da empresa, não pertencia
à companhia.
A J.P. possui fabulosos 6 mil barris de carvalho e
520 hectares de vinha espalhados pela Península de Setúbal
e pelo Alentejo. No ano passado, a produção ficou
na casa dos 5 milhões de litros, embora haja capacidade para
elaborar até 12 milhões de litros por safra nas três
unidades da empresa, a sede em Azeitão (Península
de Setúbal), Quinta de Loridos (Estremadura) e Adega das
Ânforas (Alentejo).
A empresa inovou nos anos 80, quando plantou castas
internacionais na região sob o comando do enólogo
australiano Peter Bright. Na época, os resultados causaram
grande impacto, em rótulos como o Cabernet Sauvignon Quinta
da Bacalhoa, o Chardonnay Cova da Ursa e o Merlot Má Partilha.
A JP é representa no Brasil pela Expand (tel.:
11 4613-3300). Dos exemplares degustados, o destaque ficou com a
safra 2000 do Quinta da Bacalhoa. Este Cabernet Sauvignon 100% é
escuro, bom ataque aromático, em que um toque herbáceo
de frescor sobressai, junto com frutas maduras e tostados. Corpo,
equilíbrio e uma ponta de tanino completam o quadro.
A região possui ainda duas cooperativas, que
agregam centenas de agricultores. Fundada em 1955, a Adega Cooperativa
de Palmela possui 450 associados. Eles cultivam 1,1 mil hectare
de vinha e produzem cerca de 6 milhões de litros ao ano,
embora no passado este volume tenha ultrapassado os 20 milhões
de litros por safra. Esta associação, em visível
decadência, precisa se modernizar. Seus produtos, representados
no Brasil pela A Lusitana (tel.: 11 5054-2032) são quase
todos muito fracos, chegando ao nível médio a bom
apenas nos moscatéis e no tinto Vila Palma 1999, que mostra
frutas maduras, chocolate e taninos algo rústicos, com 13,5%
de álcool e boa persistência.
O contraste fica evidente ao se comparar com a Cooperativa
Agrícola Santo Isidro de Pegões, fundada em 1958 e,
que até 1986, era uma estatal. Hoje gerida por 150 associados,
a empresa deu uma guinada entre 1989 e 1991, movida por investimentos
de €4 milhões em modernizações. O resultado
veio já em 2000 com o título de "Cooperativa
do Ano" pela "Revista de Vinhos", mais importante
publicação especializada de Portugal. A produção,
quadruplicou entre 1995 e 2003, chegando aos 6 milhões de
garrafas anuais, com o faturamento crescendo na mesma proporção.
Com representação no Brasil pela Wine
Company (tel.: 19 3294-1570), a cooperativa tem rótulos divididos
em várias linhas. O melhor vinho deles é o premiado
Adega de Pegões Colheita Selecionada 2001, um corte de Touriga
Nacional, Cabernet Sauvignon e Trincadeira. Muito escuro e ainda
fechado lembra compotas, com um toque floral e de frescor, paladar
encorpado, 13,5% de álcool, frutado e com boa acidez. O Fontanário
de Pegões Garrafeira 1998 também merece ser provado.
Tem perfil mais evoluído, com aromas terciários, frutas
secas e especiarias. Taninos no ponto.
Entre os produtores emergentes, a Casa Ermelinda Freitas
é o destaque. Localizada em Fernando Pó, lugarejo
de 900 habitantes no concelho de Palmela, a vinícola é
capitaneada por Leonor Freitas. Filha única e mãe
de dois garotos, a ex-assistente social abraçou a vitivinicultura
quando herdou a vinícola do pai, falecido há 13 anos.
A casa, que fornecia uvas à J. M. da Fonseca, sob sua administração
começou a engarrafar os próprios vinhos. A produção
está sob a responsabilidade do enólogo Jaime Quendera,
que faz o mesmo trabalho para a já citada Adega de Pegões.
Com muitos investimentos em curso a partir de um financiamento conseguido
na Comunidade Européia, a cantina e os vinhedos passam por
uma intensa modernização. Também há
a construção de uma nova sede, compra de equipamentos
e plantio de novas castas. Nos 130 hectares próprios, predomina
a Castelão. Mas inclui pequenas parcelas de Touriga Nacional,
Trincadeira, Syrah, Alicante Bouschet e Fernão Pires.
O top da casa, o tinto Leo d'Honor, é considerado
um dos melhores de toda a região. Por enquanto, só
foi produzida a safra de 1999, ano excepcional para a Castelão.
Amadurecido um ano em carvalho francês, é concentrado
na cor e no corpo, com boa gama de aromas, abrangendo frutas maduras
e secas, couro, madeira, tabaco e defumados. O paladar é
macio com 14,8% de álcool, falta-lhe um pouco de acidez para
ser um grande vinho. O próximo Leo d'Honor poderá
ser o de 2001, o que ainda não está confirmado. Os
vinhos de Ermelinda Freitas são representados no Brasil pela
importadora A Lusitana. O best seller da casa, o tinto básico
Terras do Pó, frutado, de médio corpo, é uma
boa compra por R$ 30.
A Península de Setúbal tem muito a oferecer
em qualidade e em preço. Sua uva ícone, a Castelão
ainda traz limitações, pois em anos ruins carece de
outras castas para lhe corrigir os defeitos. A cepa demonstrou,
contudo, que em boas safras pode gerar vinhos esplêndidos.
Garrafas degustadas
Numa visita de três dias pela região de
Setúbal, nosso especialista degustou 71 amostras de vinho.
Confira as mais importantes:
José Maria da Fonseca
Periquita 2000, C
José de Souza 2000, B
José de Souza Mayor 1999, B+
Periquita Clássico 1995, B+
Domini Plus 2001, B+
Coleção Privada DSF Viognier 2002, B+
Coleção Privada DSF Syrah 2002, B+
Coleção Privada DSF Tannat 2003, B+
Hexagon 2000, A
Moscatel Roxo 20 anos, A
J.P. Vinhos
Monte das Ânforas branco 2001, C
Monte das Ânforas tinto 2001, C
Meia Pipa 1999, C
Catarina 2002, branco, C/B
Loridos Clássico 1996, espumante, B
Cova da Ursa 2002, branco, B
Serras do Azeitão tinto 2002, B
Herdade Santa Marta 1999, B
Tinto da Ânfora 2001, B
Garrafeira Palmela 1999, B
Só Syrah 2000, B
Má Partilha 1999, B/B+
Só Touriga Nacional 2001, B+
Tinto da Ânfora Grande Escolha 2001, B+.
Quinta da Bacalhoa 2000, B+
Moscatel de Setúbal 1995, A
Moscatel de Setúbal 1994, A
Adega Cooperativa de Palmela
Vale de Barris branco 2001, C
Vila Palma 1999, C/B
Moscatel de Setúbal 2000, C/B
Moscatel de Setúbal 1982, B
Moscatel de Setúbal 1981, B
Cooperativa Agrícola Santo
Isidro de Pegões
Fonte do Nico branco 2002, C
Vale da Judia branco 2002, C
Fontanário de Pegões branco 2002 C
Adega de Pegões tinto 2002, C
Vale da Judia tinto 2002, C
Fontanário de Pegões tinto 2001, C
Adega de Pegões Colheita Selec. branco 2002, B
Fontanário de Pegões tinto Garrafeira 1998, B/B+
Adega de Pegões Colheita Selec. tinto 2000, B/B+
Adega de Pegões Colheita Selec. tinto 2001, B+
Casa Ermalida de Freitas
Terras do Pó tinto 2002, C/B
Dona Ermelinda tinto 2001, B
Quinta da Mimosa tinto 2001, B/B+
Leo d'Honor tinto Garrafeira 1999, B+/A
| Legenda |
| |
| A+ |
Extraordinário |
(95 a 100) |
| A |
Excelente |
(90 a 94) |
| B+ |
Muito bom |
(85 a 89) |
| B |
Bom |
(80 a 84) |
| C |
Médio |
(70 a 79) |
| D |
Fraco |
(50 a 69) |
| E |
Abaixo do padrão |
(0 a 49) |
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