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Mar de Vinho
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Sobre Marcelo Copello  


GAZETA MERCANTIL - Caderno Fim de Semana - 13/02/2004

NO REINO DA UVA CASTELÃO

por Marcelo Copello

A Península de Setúbal, tradicional área vinícola ao sul de Lisboa, dá sinais de modernização e é cada vez mais procurada pela qualidade e bons preços de seus vinhos. Em recente visita, a convite do Icep, órgão do governo português, e da Varig, pude verificar de perto muitas das principais novidades oferecidas pela região.

Localizada entre os estuários dos rios Tejo e Sado, a península tem seu nome, "Setúbal", originado de uma corruptela de "sedes de Túbal". Esse personagem bíblico, neto de Noé, teria chegado ao local conduzindo seu povo pela foz do rio Sado. A cultura da vinha na região tem um passado longínquo, recuando ao período pré-cristão. Beneficiada pelo clima favorável e por ser uma região portuária, a grande expansão dessa indústria só aconteceria no século XIX, com surgimento de grandes empresas familiares, como veremos mais adiante.

O distrito Península de Setúbal é subdividido em 13 "concelhos", embora seus 10 mil hectares de parreiras se concentrem em apenas três deles: Setúbal, Palmela e Montijo. Na região se produz anualmente mais de 30 milhões de litros de vinho, que podem receber três denominações: "Palmela DOC" - para os produtos dos concelhos de Palmela, Setúbal e Montijo; "Setúbal DOC" - para o vinho doce Moscatel de Setúbal, e "Vinho Regional Terras do Sado" - abrangendo todo o distrito. O clima é mediterrâneo, com verões quentes e secos e invernos relativamente frios e chuvosos. Devido à proximidade do mar, a umidade relativa é alta, situando-se entre 75% e 80%. Os solos são variados, porém predominam terrenos arenosos em Palmela e argilo-calcários próximos a Setúbal.

No que diz respeito às castas, dezenas são permitidas, incluindo várias "importadas", como a Cabernet Sauvignon e Chardonnay, mas a realidade é bem mais limitada. As uvas tintas predominam com 90% do total e dentre estas a Castelão reina com 95% da área plantada.

Em linhas gerais, a região se caracteriza pelo domínio da Castelão e de quatro grandes produtores: duas empresas particulares (José Maria da Fonseca e JP Vinhos) e duas cooperativas - Adega Cooperativa de Palmela e Cooperativa Agrícola Santo Isidro de Pegões). O movimento de renovação dos vinhos locais passa justamente pelo surgimento de novos engarrafadores e pelo plantio de novas castas.

Muito da história da região se liga a José Maria da Fonseca, ao mesmo tempo a mais antiga empresa familiar do setor e o segundo maior grupo vinícola de Portugal. Com 150 anos, seu rótulo Periquita é o mais velho daquele país e também o vinho luso mais vendido no Brasil. Criada em 1834 com o nome do fundador, a megavinícola hoje é administrada pela sexta geração de descendentes. São os irmãos António e Domingos Soares Franco, respectivamente o presidente e o enólogo da empresa. Tudo é superlativo na J.M. da Fonseca, a começar pela administração dos cerca de 800 hectares de vinhedos, dos quais 600 são próprios. A produção ultrapassa os 5 milhões de garrafas ao ano.

Inaugurada em 2001, a nova sede da empresa, em Vila Nogueira de Azeitão, mais parece uma usina. Possui 436 tanques de aço inox numa área construída de 10 mil metros quadrados. Tudo é controlado por computadores e há a capacidade de fermentar 6,5 milhões de litros simultaneamente.

A antiga sede, uma construção histórica aberta à visitação, é utilizada até hoje. Nesse edifício teve início o sucesso da empresa no século XIX com a elaboração do Moscatel de Setúbal, que continua a ser envelhecido no local. Numa cave à meia luz, repousam milhares de barris e de garrafas do vinho licoroso ao som de canto gregoriano.

O prédio abriga também o Periquita, distribuído no Brasil pela Diageo (tel.: 11 3897-2000). Esse nome tem origem na Cova da Periquita, propriedade adquirida em 1846, onde este tinto era feito originalmente com mudas trazidas do Ribatejo. Seu estrondoso sucesso levou outros produtores a pedirem mudas daquela casta, que passou a ser chamada também pelo nome do vinho, "Periquita". Hoje, o nome está registrado pela J. M. da Fonseca e a uva chama-se oficialmente "Castelão".

O Periquita permanece em tonéis de mogno de 100 anos de idade com capacidade para 18 mil litros cada. Uma parcela de 10% do líquido passa por barris de carvalho francês e americano. A próxima safra, a de 2000, está totalmente remodelada. A etiqueta é mais limpa e mais informativa, enquanto a garrafa está mais esbelta, adotando o formato Bordeaux. No líquido, o que muda é o corte. Antes 100% Castelão, o tinto ganha a adição de 7,5% de Trincadeira e 7,5% Aragonês. Trata-se de um bom avanço. O Periquita continua um vinho simples para o dia-a-dia, mas está mais agradável, moderno e frutado.

A empresa produz também uma versão reserva, o Periquita Clássico, feito apenas em bons anos. Até hoje os contemplados foram 1992, 1994, 1995 e 1999. Antes de chegar ao mercado, passa dois anos em cubas de inox, um ano em barris de carvalho e mais dois anos na garrafa. Enquanto a safra de 1999 ainda descansa nas caves, atualmente se comercializa a de 1995. Na prova, este vinho 100% Castelão demonstrou ser austero, de estilo tradicional, com aromas etéreos, bom corpo, prestando-se a envelhecimento em garrafa. Um bom vinho com um preço relativamente inflado, cerca de €25 na origem.

A J.M. da Fonseca é um gigante que não se acomodou com o sucesso comercial de suas grandes marcas. O enólogo Domingos Soares Franco é incansável na busca de qualidade e criação de novidades. Para tanto, construiu lagares de inox para a pisa a pé ou por robôs, visando elaborar vinhos especiais em pequenas quantidades. A empresa mantém também um laboratório a céu aberto, o vinhedo Algeruz. Em 220 hectares há centenas de clones de castas, uma grande variedade de cepas nacionais e estrangeiras. Os resultados dessas experiências são compartilhados com os produtores locais e já renderam frutos. Há alguns anos, Domingos lançou a série de varietais, ou monocastas, chamada "DSF" (suas iniciais), trazidas para o Brasil pela Mistral (tel.: 11 3372-3400). Estes exemplares utilizam uvas inexploradas na região, como Sauvignon Blanc, Tinta Barroca, Tannat, Viognier e Syrah, com bons resultados.

A menina dos olhos e mais recente novidade de D. S. Franco é um vinho de corte, o Hexagon. Como o nome sugere, misturam-se seis uvas, em homenagem à sexta gerações da família, que ele representa. A safra de 2000, que deverá ser lançada neste mês para celebrar os 200 anos da empresa, é composta de Touriga Nacional (29,5%), Syrah (23,5%), Trincadeira (22,5%), Tinto Cão (9,5%), Touriga Franca (7,5%) e Tannat (7,5%), todas pisadas em lagar. Trata-se de um líquido escuro, ainda fechado, com um bom ataque de aromas liderados por carvalho - hortelã, violetas, frutas e especiarias. Com 14% de álcool é muito encorpado, com taninos ainda presentes, e muito intenso no palato. Infelizmente, o excelente vinho, que custará cerca de €45 na origem, só será comercializado em garrafas do tipo Magnum (de 1,5 litro), o que impede a importação pelo Brasil.

Outra gigante da região é a J. P. Vinhos, empresa fundada em 1922. Há nove anos foi comprada por José Berardo, um grande investidor, amante dos vinhos e das artes. Berardo manteve a equipe, comandada pelo conceituado Jorge Paiva Raposo e emprestou um novo estofo à casa, decorando sua fachada com oliveiras de mais de dois mil anos e adquirindo a histórica Quinta da Bacalhoa. Essa propriedade, apesar de fornecer uvas e dar nome ao vinho mais prestigioso da empresa, não pertencia à companhia.

A J.P. possui fabulosos 6 mil barris de carvalho e 520 hectares de vinha espalhados pela Península de Setúbal e pelo Alentejo. No ano passado, a produção ficou na casa dos 5 milhões de litros, embora haja capacidade para elaborar até 12 milhões de litros por safra nas três unidades da empresa, a sede em Azeitão (Península de Setúbal), Quinta de Loridos (Estremadura) e Adega das Ânforas (Alentejo).

A empresa inovou nos anos 80, quando plantou castas internacionais na região sob o comando do enólogo australiano Peter Bright. Na época, os resultados causaram grande impacto, em rótulos como o Cabernet Sauvignon Quinta da Bacalhoa, o Chardonnay Cova da Ursa e o Merlot Má Partilha.

A JP é representa no Brasil pela Expand (tel.: 11 4613-3300). Dos exemplares degustados, o destaque ficou com a safra 2000 do Quinta da Bacalhoa. Este Cabernet Sauvignon 100% é escuro, bom ataque aromático, em que um toque herbáceo de frescor sobressai, junto com frutas maduras e tostados. Corpo, equilíbrio e uma ponta de tanino completam o quadro.

A região possui ainda duas cooperativas, que agregam centenas de agricultores. Fundada em 1955, a Adega Cooperativa de Palmela possui 450 associados. Eles cultivam 1,1 mil hectare de vinha e produzem cerca de 6 milhões de litros ao ano, embora no passado este volume tenha ultrapassado os 20 milhões de litros por safra. Esta associação, em visível decadência, precisa se modernizar. Seus produtos, representados no Brasil pela A Lusitana (tel.: 11 5054-2032) são quase todos muito fracos, chegando ao nível médio a bom apenas nos moscatéis e no tinto Vila Palma 1999, que mostra frutas maduras, chocolate e taninos algo rústicos, com 13,5% de álcool e boa persistência.

O contraste fica evidente ao se comparar com a Cooperativa Agrícola Santo Isidro de Pegões, fundada em 1958 e, que até 1986, era uma estatal. Hoje gerida por 150 associados, a empresa deu uma guinada entre 1989 e 1991, movida por investimentos de €4 milhões em modernizações. O resultado veio já em 2000 com o título de "Cooperativa do Ano" pela "Revista de Vinhos", mais importante publicação especializada de Portugal. A produção, quadruplicou entre 1995 e 2003, chegando aos 6 milhões de garrafas anuais, com o faturamento crescendo na mesma proporção.

Com representação no Brasil pela Wine Company (tel.: 19 3294-1570), a cooperativa tem rótulos divididos em várias linhas. O melhor vinho deles é o premiado Adega de Pegões Colheita Selecionada 2001, um corte de Touriga Nacional, Cabernet Sauvignon e Trincadeira. Muito escuro e ainda fechado lembra compotas, com um toque floral e de frescor, paladar encorpado, 13,5% de álcool, frutado e com boa acidez. O Fontanário de Pegões Garrafeira 1998 também merece ser provado. Tem perfil mais evoluído, com aromas terciários, frutas secas e especiarias. Taninos no ponto.

Entre os produtores emergentes, a Casa Ermelinda Freitas é o destaque. Localizada em Fernando Pó, lugarejo de 900 habitantes no concelho de Palmela, a vinícola é capitaneada por Leonor Freitas. Filha única e mãe de dois garotos, a ex-assistente social abraçou a vitivinicultura quando herdou a vinícola do pai, falecido há 13 anos. A casa, que fornecia uvas à J. M. da Fonseca, sob sua administração começou a engarrafar os próprios vinhos. A produção está sob a responsabilidade do enólogo Jaime Quendera, que faz o mesmo trabalho para a já citada Adega de Pegões. Com muitos investimentos em curso a partir de um financiamento conseguido na Comunidade Européia, a cantina e os vinhedos passam por uma intensa modernização. Também há a construção de uma nova sede, compra de equipamentos e plantio de novas castas. Nos 130 hectares próprios, predomina a Castelão. Mas inclui pequenas parcelas de Touriga Nacional, Trincadeira, Syrah, Alicante Bouschet e Fernão Pires.

O top da casa, o tinto Leo d'Honor, é considerado um dos melhores de toda a região. Por enquanto, só foi produzida a safra de 1999, ano excepcional para a Castelão. Amadurecido um ano em carvalho francês, é concentrado na cor e no corpo, com boa gama de aromas, abrangendo frutas maduras e secas, couro, madeira, tabaco e defumados. O paladar é macio com 14,8% de álcool, falta-lhe um pouco de acidez para ser um grande vinho. O próximo Leo d'Honor poderá ser o de 2001, o que ainda não está confirmado. Os vinhos de Ermelinda Freitas são representados no Brasil pela importadora A Lusitana. O best seller da casa, o tinto básico Terras do Pó, frutado, de médio corpo, é uma boa compra por R$ 30.

A Península de Setúbal tem muito a oferecer em qualidade e em preço. Sua uva ícone, a Castelão ainda traz limitações, pois em anos ruins carece de outras castas para lhe corrigir os defeitos. A cepa demonstrou, contudo, que em boas safras pode gerar vinhos esplêndidos.


Garrafas degustadas

Numa visita de três dias pela região de Setúbal, nosso especialista degustou 71 amostras de vinho. Confira as mais importantes:

José Maria da Fonseca
Periquita 2000, C
José de Souza 2000, B
José de Souza Mayor 1999, B+
Periquita Clássico 1995, B+
Domini Plus 2001, B+
Coleção Privada DSF Viognier 2002, B+
Coleção Privada DSF Syrah 2002, B+
Coleção Privada DSF Tannat 2003, B+
Hexagon 2000, A
Moscatel Roxo 20 anos, A

J.P. Vinhos
Monte das Ânforas branco 2001, C
Monte das Ânforas tinto 2001, C
Meia Pipa 1999, C
Catarina 2002, branco, C/B
Loridos Clássico 1996, espumante, B
Cova da Ursa 2002, branco, B
Serras do Azeitão tinto 2002, B
Herdade Santa Marta 1999, B
Tinto da Ânfora 2001, B
Garrafeira Palmela 1999, B
Só Syrah 2000, B
Má Partilha 1999, B/B+
Só Touriga Nacional 2001, B+
Tinto da Ânfora Grande Escolha 2001, B+.
Quinta da Bacalhoa 2000, B+
Moscatel de Setúbal 1995, A
Moscatel de Setúbal 1994, A

Adega Cooperativa de Palmela
Vale de Barris branco 2001, C
Vila Palma 1999, C/B
Moscatel de Setúbal 2000, C/B
Moscatel de Setúbal 1982, B
Moscatel de Setúbal 1981, B

Cooperativa Agrícola Santo Isidro de Pegões
Fonte do Nico branco 2002, C
Vale da Judia branco 2002, C
Fontanário de Pegões branco 2002 C
Adega de Pegões tinto 2002, C
Vale da Judia tinto 2002, C
Fontanário de Pegões tinto 2001, C
Adega de Pegões Colheita Selec. branco 2002, B
Fontanário de Pegões tinto Garrafeira 1998, B/B+
Adega de Pegões Colheita Selec. tinto 2000, B/B+
Adega de Pegões Colheita Selec. tinto 2001, B+
Casa Ermalida de Freitas
Terras do Pó tinto 2002, C/B
Dona Ermelinda tinto 2001, B
Quinta da Mimosa tinto 2001, B/B+
Leo d'Honor tinto Garrafeira 1999, B+/A

Legenda
A+ Extraordinário (95 a 100)
A Excelente (90 a 94)
B+ Muito bom (85 a 89)
B Bom (80 a 84)
C Médio (70 a 79)
D Fraco (50 a 69)
E Abaixo do padrão (0 a 49)