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por Marcelo Copello
Assim como a mídia elege a musa de cada verão, os discípulos de Baco se ocupam, de tempos em tempos, da uva do momento. Já houve a fase da clássica Cabernet Sauvignon, da untuosa Chardonnay, da aveludada Merlot, da picante Shiraz, da vibrante Malbec e até da angulosa Tannat. Agora o brasileiro está descobrindo a Tempranillo, matéria- prima de diversos grandes vinhos produzidos no planeta.
Originária do Norte da Espanha, está disseminada por todo o país ibérico. Seu nome vem do espanhol “temprano” (cedo, precoce), uma referência ao fato dela amadurecer mais cedo do que outras uvas todos os anos. Na Espanha, a Tempranillo produz seus melhores resultados em regiões de clima ameno como a Ribera del Duero e a Rioja, onde, devido à sua baixa acidez e teor de álcool, é normalmente misturada a outras uvas locais, como a Garnacha, a Mazuelo e a Graciano.
Mas como é essa uva? Sua casca é grossa, o que significa que seus vinhos podem ter cor profunda, já que a tonalidade escura provém exclusivamente da casca da fruta. Os vinhos podem ser intensos e longevos, normalmente com grau alcoólico não muito elevado (12% a 13%). No paladar, são ricos em taninos e os aromas mais típicos lembram frutas vermelhas, como morangos e framboesas, além de especiarias, tabaco e couro. Os vinhos elaborados com a Tempranillo adaptam-se muito bem ao amadurecimento em barris de carvalho. Por isso, freqüentemente, trazem também odores de madeira.
Além da Espanha, o único país com produção significativa desta uva é a Argentina. As diferenças entre os Tempranillos espanhóis e os argentinos começam na pronúncia. Na Espanha falam com orgulho e em voz alta “temprani-lhô”, enquanto os argentinos, que também engarrafam ótimos exemplares desta cepa, arrastam a voz com ginga ao dizer “temprani-jô”. Aliás, até recentemente, costumavam chamála de tempranilla. Mas para que não ocorressem confusões na identificação dos rótulos pelos consumidores espalhados pelo globo, os produtores da Argentina adotaram a grafia masculina original.
Os exemplares sul-americanos tendem a ter estilo mais moderno, o que significa dizer que são mais frutados e frescos, alcoólicos, escuros, encorpados e com aromas de madeira nova, feitos, portanto, para serem consumidos jovens. Os tradicionais rótulos espanhóis, via de regra, têm coloração mais clara, mais longevos e, por serem amadurecidos mais tempo em madeira usada, trazem aromas mais etéreos e complexos.
Essa casta adaptou-se bem em diversos outros países, como Chile, Estados Unidos, Austrália, Uruguai e, recentemente, no Brasil. Também pode receber outros nomes. Os portugueses do Sul a chamam de Aragonez, enquanto no Norte a batizaram de Tinta Roriz e a usam na fórmula do vinho do Porto. Na própria Espanha, conforme a região, pode atender pelo nome de Tinto Fino, Tinto Del Pais, Cencibel e Ull de Llebre ou Ojo de Liebre.
Para quem acha que vinho tem que ter currículo, basta dizer que a Tempranillo é a base de dois dos maiores vinhos do mundo, os míticos Barca Velha e Vega Sicilia. O primeiro, o grande orgulho de Portugal, é produzido na região do Douro. O segundo, uma lenda espanhola, sem par em sua região de origem, a Ribera Del Duero, é disputado por colecionadores de todo os pontos do planeta.
Garrafas avaliadas
Esta coluna checou alguns Tempranillos espanhóis disponíveis em nosso mercado. Confira as avaliações, algumas são ótimas dicas:
Valdegema 1998, Viña Extremeña (Casa Flora, tel.: 11 3327-5199, R$ 45). Um “Vino de la Tierra” da Extremadura. Cor granada claro com reflexos alaranjados, entre fragrante e etéreo, lembrando madeira, especiarias (canela e cravo), frutas cristalizadas e toques de pelica. Médio corpo, taninos macios, curto (não muito persistente), pronto para beber. C
Castillo de Valdestrada 1997, Viña Extremeña (Casa Flora, tel.: 11 3327-5199, R$ 42). Um “Vino de la Tierra” da Extremadura. Cor granada claro com reflexos alaranjados, médio ataque aromático, já com sinais de evolução, com carvalho nos aromas, além de frutas secas e especiarias (noz moscada). Médio corpo, taninos doces, pronto para beber. C
Crianza 2000, Luis Cañas (Decanter, tel.: 11 3071-3055, US$ 20,20). Da Rioja. Rubi entre claro e escuro, muito límpido. Bom ataque, com fruta na frente, lembrando amoras, cerejas e ameixas, toques vegetais, tostados, cacau, canela, rosa e pimenta. Paladar com bom frescor e médio corpo. B
Prado Rey Roble 2002, Real Sitio de Ventosilla (Decanter, tel.: 11 3071-3055, US$ 24,10). Da Ribera Del Duero. Tempranillo 95%, complementado com 3% de Cabernet Sauvignon e 2% de Merlot, amadurecido em carvalho americano. De estilo moderno, frutado, com um belo perfil aromático, melhor no nariz que na boca, lembrando baunilha, frutas vermelhas maduras (ameixas), florais, caramelo, toques de alcaçuz. No palato tem bom equilíbrio, médio a bom corpo, média persistência. B+
Dehesa Gago 2002, Compañia de Vinos Telmo Rodriguez (Mistral, tel.: 11 3372-3400, US$ 16,50). Da região de Toro. Telmo Rodriguez é sinônimo de qualidade. Como todos os seus vinhos, este é um exemplar moderno e elegante. De cor rubi clara e mui límpida, com reflexos violáceos. Muito frutado, com frutas frescas e tostados, médio a bom corpo, com uma ponta agradável de tanino. Para ser bebido jovem, agora ou em mais dois anos. Ótimo custo-benefício. B+
Cuvée El Campanário 1998, Abadia Retuerta (First Food, tel.: 11 3822-1867, R$ 273). Da região de Sardon de Del Duero. Um Tempranillo 100% amadurecido em carvalho francês. Ruby escuro, com aromas de cerejas pretas, carvalho, tabaco e toques florais. No palato bom corpo, boa acidez que lhe dá elegância, sem concentração ou álcool em excesso, taninos finos e agradavelmente ainda presentes. B+
Valduero Reserva 1996, Bodegas Valduero (First Food, tel.: 11 3822-1867, R$ 107). Da Ribera Del Duero. Um Tempranillo 100%, 20 meses de carvalho (7 em madeira nova e 13 em tonéis com ao menos 4 anos de idade). Cor granada entre claro e escuro, com reflexos alaranjados. Aromas intensos, com couro, pele de salame, frutas maduras, café e especiarias. Bom corpo, com acidez equilibrada, taninos prontos. B+
Wences 1998, Bodegas Vega Sauco (Expand, tel.: 11 4613-3333, US$ 84,5). Da região de Toro. Vinho principal da Bodegas Vega Sauco, que leva o nome de seu criador: Wences Gil. 80% Tinta de Toro (Tempranillo), complementado por outras uvas da região. Amadurecido por 22 meses em barricas de carvalho americano, com uma pequena porcentagem de carvalho francês. Rubi muito escuro, fechado nos aromas, precisa respirar em um decanter. Muito concentrado, de estilo moderno, com muita fruta negra ultramadura, lembrando couro novo, alcaçuz e madeira, aromas tostados. Paladar carnoso, taninos presentes, beber ou guardar. B+/A
Gran Reserva 1995, Bodegas Beronia (Aurora, tel.: 11 3845-3484, R$ 148,59). Composto de 85% Tempranillo, 15% Garnacha e o restante das uvas Viura e Mazuelo. Inconfundível estilo Rioja, com prolongado estágio em carvalho (48 meses). Cor granada claro com reflexos alaranjados. Bom ataque aromático, com madeira na frente, trazendo couro, cedro, tabaco e frutas secas. Paladar macio, lembrando madeira no fim de boca. Quem gosta do estilo Rioja encontrará aqui um bom exemplar. B+/A
Reserva Especial 1998, Bodegas Fuentespina (Expand, tel.: 11 4613-3333, R$ 272,09). Da Ribera Del Duero, produzido a partir de vinhas plantadas entre 1910 e 1945, 80% Tempranillo e 20% de castas da região. Cor granada entre claro e escuro. O olfato é seu ponto forte, já com sinais de evolução e muito complexo, com uma ampla gama aromática, com baunilha, chocolate, couro novo, frutas vermelhas maduras (ameixas), amêndoas torradas, café, anis-estrelado, tabaco, louro, pimenta do reino e minerais. No palato é quente (14% de álcool), encorpado e equilibrado nos taninos e acidez. Boa persistência, com madeira aparecendo no fim de boca. A
| Legenda |
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| A+ |
Extraordinário |
(95 a 100) |
| A |
Excelente |
(90 a 94) |
| B+ |
Muito bom |
(85 a 89) |
| B |
Bom |
(80 a 84) |
| C |
Médio |
(70 a 79) |
| D |
Fraco |
(50 a 69) |
| E |
Abaixo do padrão |
(0 a 49) |
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