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Mar de Vinho
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Sobre Marcelo Copello  


GAZETA MERCANTIL - Caderno Fim de Semana - 29/10/2004

LUSOS NA PASSARELA

por Marcelo Copello

Sandra Tavares é a enóloga responsável por três importantes vinhos portugueses. Dois na região do Douro, o Quinta do Vale D. Maria e o Pintas; e um na Estremadura, o Chocapalha. O primeiro é simplesmente um dos maiores vinhos de Portugal, pertencente a Cristiano van Zeller, ex-proprietário da Quinta do Noval. O segundo é um "vinho de garagem", criado por Sandra e seu marido, o também enólogo Jorge Serôdio Borges. O terceiro é feito na Quinta de Chocapalha, pertencente ao pai da enóloga e está na vanguarda Estremadura, uma região vinícola em ascensão. Além do reconhecido talento como enóloga, Sandra chama atenção também por sua beleza física. Antes de ingressar no mundo do vinho ela foi modelo profissional, tendo desfilado para os grandes nomes da moda.

Em viagem a convite da Comissão Vitivinícola Regional da Estremadura (CVRE) e da Varig, este colunista conversou com exclusividade com Sandra, que estará presente na Vinexpand (veja matéria nesta página) conduzindo uma degustação de vinhos feitos por mulheres. Juntos, provamos seus vinhos, falamos do toque feminino na enologia e da afinidade à moda e ao mundo de Baco.

Marcelo Copello - Você nasceu nos Açores, viveu a maior parte de sua vida em Lisboa e ingressou na profissão de enóloga no Douro. Por que escolheu a Estremadura para fazer vinhos com seu pai?

Sandra Tavares - Porque é uma região com potencial para produzir grandes vinhos, mas até hoje não havia sido muito bem explorada. Meu pai adquiriu a Quinta de Chocapalha em 1987. Plantamos todas as vinhas. Desde então tem sido um trabalho contínuo, tentando fazer os melhores vinhos possíveis.

Marcelo Copello - Apesar da grande variedade de castas da região, o Chocapalha é feito com Tinta Roriz, Alicante Bouschet e Touriga Nacional, que não são típicas da Estremadura, como a Castelão. Por que estas castas?

Sandra Tavares - Acho que essa uvas se adaptam muito bem à região. Têm boa maturação, muito equilíbrio, com muita fruta. É isso que nós pretendemos em nossos vinhos.

Marcelo Copello - Há um toque feminino em seus vinhos?

Sandra Tavares - Acho que sim. Não creio que os vinhos das mulheres sejam diferentes dos vinhos dos homens. Talvez na elaboração e em certos pormenores, as mulheres tenham alguma sensibilidade e tentem trabalhar de maneira ligeiramente diferente.

Marcelo Copello - Cada vez mais os enólogos precisam saber de marketing. Não apenas fazer o vinho, mas também vender, e saber o que o consumidor procura. É possível definir o gosto feminino, o que as mulheres estão bebendo hoje?

Sandra Tavares - As mulheres se interessam cada vez mais em beber e provar vinho. No início, falar "vinhos de senhoras" era falar de vinhos leves. Hoje em dia, já não é mais assim. Elas procuram vinhos frutados e concentrados. Acredito que o gosto feminino está cada vez mais semelhante ao do homem.

Marcelo Copello - Você foi modelo. Como foi sua migração da alta-costura para a alta enologia?

Sandra Tavares - Foi muito boa. Ser modelo era um trabalho que eu gostava muito e que me deu grandes oportunidades, uma vivência fantástica, viajei muito, conheci pessoas superinteressantes, mas sempre tive noção que não era isso que eu queria fazer, até porque é uma carreira muito curta e efêmera. Uma hora você está no topo, na outra você está lá em baixo e eu não gostava de me sentir assim. Portanto, foi uma passagem muito normal. Nunca deixei de estudar e quando acabei o curso de enologia comecei logo a trabalhar.

Marcelo Copello - Existe uma afinidade entre moda e vinho?

Sandra Tavares - Acho que sim. Tudo que aprendi na moda, e aprendi bastante, também tento conciliar no meu trabalho de enologia. Acho que me ajudou bastante nas apresentações de vinhos, com a minha imagem, no nível estético, a ter mais cuidado com a imagem dos vinhos. Uso minha experiência como modelo a meu favor.

Marcelo Copello - Agora vamos conhecer seus "filhos". Vamos começar com o Chocapalha, daqui da Estremadura. Qual a história deste vinho?

Sandra Tavares - Este vinho é parte vinificado em lagares e parte em recipientes de carvalho francês. Em ambos, as uvas são pisadas a pé. O blend é 45% Touriga Nacional, 50% de Tinta Roriz e 5% de Alicante Bouschet, que eu acho uma casta interessante e tem uma porcentagem pequenina. Estagiou durante 6 meses em barricas de carvalho francês. Este vinho é feito apenas com as melhores uvas colhidas aqui na quinta e só nos melhores anos. Não o fizemos em 2002. Fizemos em 2000, atualmente temos no mercado o 2001 e estamos preparando o 2003.

Marcelo Copello - Como você avalia o Chocapalha 2001 que estamos degustando?

Sandra Tavares - Eu o acho um vinho bastante arrogante, com aromas de fruta muito madura, mas com uma elegância de aromas muito boa.

Marcelo Copello - Ele demonstra muita torrefação. Como é o amadurecimento em madeira para este vinho?

Sandra Tavares - Sim, ele possui torrefação, mas não em demasia. São 15 meses em barricas, 70% novas e 30% de um ano. É um vinho concentrado, com bastante fruta. Na boca tem muita persistência e muito boa acidez, que irá conferir uma capacidade de envelhecimento.

Marcelo Copello - E seus projetos no Douro?

Sandra Tavares - No Douro eu comecei a trabalhar na Quinta do Vale D. Maria (QVDM), que foi meu primeiro emprego. Comecei com o Cristiano van Zeller, na vindima de 1999. É uma quinta com 10 hectares de vinha, com 60 anos em média e 28 castas misturadas. Colhemos e vinificamos cada parcela dos vinhedos em separado. Todos os vinhos são pisados a pé em lagares, depois parte fermenta em lagares e parte em cubas de inox, com temperatura controlada. São cubas abertas bastante largas, funcionam então como um lagar, com uma boa superfície de contato entre mosto e fruta.

Marcelo Copello - Estamos degustando o 1998, que está fantástico, com grande riqueza aromática, toques de evolução, fruta madura, couro, especiarias, como anis-estrelado e uma nota mentolada.

Sandra Tavares - Sim, ele tem muita fruta preta madura e também um toque de esteva. Foram produzidas apenas cem mil garrafas deste vinho, que estagiou 18 meses em barricas de carvalho francês.

Marcelo Copello - Das safras recentes do QVDM qual lhe agrada mais?

Sandra Tavares - A de 2001 com certeza. E 2003 também será fantástica.

Marcelo Copello - O Pintas é o seu vinho particular. Um projeto seu e de seu marido. Pintas é o nome do cão de vocês?

Sandra Tavares - Também é o nome do cão. Pintas é um projeto muito recente, que iniciamos em 2001, o ano em que nos casamos. Eu e meu marido temos a mesma profissão mas trabalhávamos em empresas diferentes. Queríamos ter um vinho juntos. O vinhedo do Pintas tem 70 anos e como tradicionalmente no Douro, tem 30 castas diferentes misturadas. Por ter muitas castas diferentes, temos que ser muito rigorosos na seleção das uvas, tanto antes da vindima, como na recepção das uvas no lagar. Esta vinha só tem 2 hectares, portanto nós temos produções muito baixas. Em 2001 fizemos apenas 5 mil garrafas.

Marcelo Copello - O Pintas 2002, que estamos degustando, chega ao mercado neste momento?

Sandra Tavares - Exatamente, é a primeira vez que apresento este vinho. Foi um ano difícil, tivemos que antecipar nossa colheita, já que sabíamos que a chuva viria. O 2002 não é tão concentrado como o 2001, mas acho que tem o mesmo caráter, mantém o mesmo estilo. Tem boa complexidade aromática e é frutado e denso na boca, com uma bela acidez. Acredito que será um vinho que envelhecerá lindamente em garrafa. É muito novo. Foi engarrafado em junho e vamos começar a vendê-lo agora.

Marcelo Copello - Se tivesse que comparar esses três vinhos a três grandes costureiros, quais seriam?

Sandra Tavares - O Pintas seria o Gucci; o Chocapalha, o Armani; o Quinta do Vale D. Maria, o Karl Lagerfeld.

Marcelo Copello - E por quê?

Sandra Tavares - O Quinta do Vale D. Maria é complexo, com muita elegância e o mais glamouroso, como o Karl Lagerfeld. O Chocapalha é moderno, com um estilo diferente dos outros. Por isso acho que combina com Armani, com linhas muito bem definidas, mas ao mesmo tempo muito equilibrado e complexo. O Pintas corresponde ao Gucci.

Marcelo Copello - Seria por aliar glamour com doses de vigor sua postura um tanto vanguardista?

Sandra Tavares - Sim! E também porque eu adoro o Gucci!