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por Marcelo Copello
Para uma bebida cuja grande qualidade é ser pura, na forma de ausência de cheiros e aromas, portanto, ao menos em teoria, insípida, a vodca surpreende ao conquistar cada vez mais e mais adeptos.
A típica bebida dos russos representa o segmento que mais tem movimentado o mercado dos destilados nos últimos anos. Esta ausência de cores e sabores do líquido é amplamente compensada por seu marketing, que tem suscitado uma verdadeira guerra entre as principais marcas. Os investimentos são grandes e as novidades inúmeras, como veremos a seguir.
Atualmente, a vodca é a segunda categoria de bebida que mais cresce no mundo, perdendo apenas para o vinho. Anualmente são comercializadas mundialmente cerca de 4,8 bilhões de garrafas deste destilado branco. No Brasil, este número ultrapassou a casa das 38 milhões de garrafas em 2004, representando um crescimento de 10% em relação ao ano anterior. A vodca mantém há três anos a viceliderança como categoria de bebida que mais cresce no País, perdendo a dianteira somente para os vinhos espumantes.
As origens do nome são controversas. Segundo o polonês W. V. Polkhlióbkin, no livro “Uma História da Vodca” (Ática, 1995), vodka, significa simplesmente “água” (em russo vodá), em sua forma diminutiva: “aguinha”, como autêntica linguagem popular. Uma outra versão sugere que o nome vem do polonês zhiznennia voca que significa “água da vida”. Este termo teria sua origem no medievo, quando se cogitava que o processo da destilação supostamente poderia levar à descoberta do elixir da eterna juventude.
Mais controvertida ainda é a paternidade da bebida, reivindicada tanto por russos quanto por poloneses. Se não se sabe quem é o pai, ao menos estima-se que seu surgimento tenha sido entre os séculos VIII e IX, e que certamente os créditos por construir a fama da bebida são da nobreza Russa. Vários historiadores ressaltam que um produto como o álcool de cereal só poderia ter surgido em Estado centralizado e autocrático. Como Moscou foi o primeiro Estado centralizado da Rússia, foi lá que a vodca encontrou condições políticas, econômicas, sociais e tecnológicas para evoluir, independente de quem a tenha inventado.
O destilado, pelas mãos da Rússia csarista, alcançou um padrão de qualidade elevado e já na segunda metade do século XIX começou a ser exportado. No século XX a vodca conquistou os EUA para tornar-se, por conta de sua neutralidade, a base dos mais variados coquetéis.
Hoje o mercado mundial da vodca é liderado pela Smirnoff, de origem russa, que é a segunda bebida destilada mais vendida do planeta, perdendo apenas para o rum Bacardi. A marca Smirnoff pertence a Diageo, que está investindo US$ 400 milhões no novo posicionamento mundial desta marca. No Brasil, o investimento alcança R$ 60 milhões, em ações de marketing e comunicação. A empresa estima que o mercado brasileiro de vodcas terá uma expansão de 30% nos próximos três anos, impulsionado pelas bebidas prontas para beber, como a campeã da categoria Smirnoff Ice, que detém 60% deste mercado. O consumo individual de Smirnoff Ice cresceu 58% entre 2003 e 2004. No Brasil, o segmento Ice movimenta anualmente um montante de cerca de R$ 100 milhões.
Outro importante segmento é o das vodcas com sabor. Em meados de 2004 foi lançada a linha Smirnoff Twist nas versões Citrus, Orange e Red Fruit. Muito usadas em coquetéis, este tipo de bebida vêm atraindo novos adeptos, principalmente entre o público jovem, que se identifica com produtos aromatizados, da mesma forma que refrigerantes e chicletes.
Quem também oferece uma boa gama de vodcas com sabores é a marca Stolnaya, que entrou recentemente em nosso mercada. Pertencente ao grupo russo Ost-Alco, detentor de marcas como Stolichnaya, a Stolnaya instalou uma fábrica no Brasil, sob supervisão de técnicos russos e está produzindo cinco rótulos: Clássica, Lemon (com limão), Berry (mais adocicada e de teor alcoólico mais baixo de 20%, sabor frutas vermelhas, limão e laranja), Especial (com extrato de pão, mel e baunilha) e a interessante Pepper (com vários tipos de pimenta).
Outra gigante que aposta nas vodcas é a multinacional Allied Domecq, que fechou uma parceria com a francesa Remy Cointreau para distribuir e fabricar, em Garibaldi, Rio Grande do Sul, a Bols Vodca, a sexta marca mais vendida no planeta. O investimento total feito no lançamento desta vodca foi de US$ 2,5 milhões e incluiu festas temáticas em várias capitais brasileiras.
Atenção chamou a Blavod, fabricante inglesa que se lançou 2003 com uma ousada campanha em São Paulo e no Rio de Janeiro. Chamada de “Free Imagination” a ação levou belas modelos em minúsculas roupas pretas (uma referência a pouco usual cor do líquido) a bares e boites. Numa espécie de marketing de “corpo a corpo” as moças com garrafas da vodca nas mão se beijavam e ofereciam a bebida aos clientes. A ousadia da Blavod, com faturamento mundial de US$ 250 milhões, seguiu uma estratégia de chamar a atenção com baixo custo, já que o investimento foi de apenas R$ 200 mil.
Mas a campeã do marketing é Absolut, segunda marca mundial, após a Smirnoff. Esta vodca sueca construiu nas últimas duas décadas e meia uma imagem fortemente associada à moda e ao design. Nomes importantes como o artista plástico Romero Britto, o designer John Hutton, o fotógrafo Helmut Newton e o estilista John Galliano já deram uma forcinha a imagem dessa marca.
Ana Claudia Saba, gerente de negócios da Absolut no Brasil, quando perguntada do peso do marketing numa bebida desprovida de sabor, uso de sinceridade na resposta: “Realmente o marketing é responsável por suprir o líquido de cores e sabores, mas a Absolut é diferenciada, por seu revolucionário método de destilação contínua, cujos detalhes mantemos em segredo, e, é claro, pelo dia seguinte que proporciona”.
A marca sueca é líder no mercado nacional de vodcas importadas com 54% do mercado, fatia que empresa espera engordar em 2005, chegando aos 58%. “Nossa participação no mercado brasileiro vêm crescendo ano a ano. Nossa estratégia para este ano passa por lançamento de novos produtos e ações de marketing envolvendo moda e arte. Em breve estaremos anunciando novidades”, antecipa Ana Claudia Saba.
A principal novidade do mercado brasileiro de vodcas em 2004 ficou da inauguração um segmento até então inexistente no país, o das vodcas de luxo, por conta da chegada da francesa Cîroc, da Diageo, e da polonesa Belvedere, da Moet Henessy. A Diageo criou recentemente uma unidade de negócios, chamada Reserve, especialmente para atender as marcas de luxo, que incluem, entre outras, o uísque Johny Walker e a Cîroc. O principal diferencial desta vodca é sua especialíssima matéria prima, uvas da região de Gaillac, no sudoeste do França. Segundo Carolina Biase, da Reserve “o produto é tão diferenciado que nossa estratégia é simplesmente fazer com que as pessoas provem e se encantem pela Cîroc”.
A outra novidade de peso, a Belvedere, chegou ao Brasil em setembro do ano passado, e tem o nome do palácio presidencial da Polônia. Sua produção, muito pequena, segue um ritual artesanal tradicional. É destilada quatro vezes e a matéria prima é da mais nobre, grãos de centeio Dankowskie Gold Rye, considerado um dos melhores do mundo e que só se desenvolve na região polonesa de Mazovia.
VODCAS DEGUSTADAS
Segundo o premiado livro “Uma História da Vodca”, do polonês W. V. Polkhlióbkin, a vodca “deve ser tomada pura, já não é mais vodca se acrescentarmos gelo, limão etc, aí se torna um coquetel, exige o acompanhamento de comida, abundante, picante, defumada e gordurosa. Não a menor pretensão de ser atraente, de agradar. Não deve ter gosto nem cheiro particular. Sua classe está na sensação de pureza e em seu poder de penetração, que atinge a garganta, a cabeça e vai direto ao coração. É uma bebida para pessoas de vontade forte”.
A vodca pode ser produzida partir de qualquer vegetal, mais usualmente cereais. A destilação produz um álcool bastante puro que é retificado com o acréscimo de água destilada. O resultado é uma bebida de sabor neutro e incolor. As matérias primas mais comuns são milho, trigo, centeio e cevada. Os cereais são misturados e cozidos a alta pressão e em seguida espalhados num local próprio, onde são resfriados e misturados com água. Mistura-se então enzimas e leveduras para provocar a fermentação. A mistura final é destilada a temperaturas elevadas, a fim de extrair todos os possíveis sabores ou aromas da bebida.
A água também é um dos segredos da qualidade das boas vodcas. Na Rússia por exemplo é muito utilizada a água do rio Vazúza, a oeste de Moscou, que contém entre 2 e 3 quivalentes- miligramas por litro de minerais dissolvidos, sendo assim considerada “leve”. A água ideal deve ter um máximo de 4 equivalentes-miligramas por litro de minerais dissolvidos.
As vodcas aromatizadas não chegam a ser uma total novidade. No ano de 1546, o rei polonês Yan Olbretch publicou uma lei segundo a qual autorizava a população a produzir vodcas livremente, o que na prática significou o aparecimento de vodcas aromatizadas com frutas e ervas.
Degustou às cegas quatro vodcas sem sabor, além de outras 5 aromatizadas. Todas servidas puras e a uma temperatura inicial de 5ºC negativos em taças ISO.
Brancas
Smirnoff. Origem: Brasil. Preço sugerido, R$ 27. A única com teor alcoólico abaixo de 40%, com 37,5%. Também a única com alguma cor, um leve reflexo amarelado, bem pálido. Na boca mostrou um leve sabor de destilados de outras frutas, com um pequeno amargor no fim de boa, lembrando cascas de frutas. Uma doçura, mais do que uma mera maciez, também se fez presente.
Cîroc. Origem: França. Preço sugerido R$ 180. A mais perfumada com ótimo ataque aromático, sugerindo frutos doces e flores. No palato é muito cremosa com final de boca lembrando cascas de tangerina. Foi logo identificada na prova às cegas
Absolut. Origem: Suécia. Preço sugerido R$ 54. Sem cor, sem aromas no nariz. No paladar dá a sensação de limpeza e equilíbrio. Alguns aromas aparecem depois do líquido aquecido no palato, como flores e um toque mineral.
Belvedere. Origem: Polônia. Preço sugerido R$ 140. Sem cor ou aromas no nariz. No paladar tem textura muito elegante, suave e bem equilibrada. Alguns aromas aparecem depois do líquido aquecido no palato, como baunilha e toques mineral.
Aromatizadas
Smirnoff Orange Twist. Origem: Brasil. Preço sugerido, R$ 27. Com 35% de álcool e aroma intenso de laranja e um toque de doçura (açúcar adicionado). Pura, foi a melhor da linha Twist.
Smirnoff Citrus Twist. Origem: Brasil. Preço sugerido, R$ 27. Com 35% de álcool e aroma de limão verde, com uma sensação de doçura menos que os outros rótulos da linha.
Smirnoff Red Fruit Twist. Origem: Brasil. Preço sugerido, R$ 27. Com 35% aroma muito doce e um pouco artificial, lembrando chicletes tutti frutti. No paladar a doçura é bastante perceptível, prestando-se quase exclusivamente para confecção de coquetéis.
Absolut Citron. Origem: Suécia. Preço sugerido R$ 54. Com 40% de álcool. Das aromatizadas foi a que mais agradou pura, pois seu aroma de limão siciliano é bem sutil e natural. No paladar é seca e elegante.
Absolut Mandrin. Origem: Suécia. Preço sugerido R$ 60. Com 40% de álcool. Aroma muito intenso de tangerinas e laranjas, mais presente do o que a versão Citron, mas também com perfil mais artificial e não tão elegante, prestando-se melhor à misturas.
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